A LENDA DE SANTA-IRIA A MAIS AMADA

TOMAR

 

Vindo das bandas de Nabância, (actual Tomar), um romeiro ajoelhou-se à beira do rio, em frente ao lugar onde, sete anos atrás, fora achado um maravilhoso túmulo de alabastro róseo, boiando qual baú de cortiça. Nesse túmulo, parecendo adormecida, a doce Iria aguardava a chegada de seu tio, o santo abade Célio. O bondoso Célio aproximava - se acompanhado de uma multidão de cristãos. Em sonhos, ele tivera a revelação de todo o martírio de Iria, a mais amada das virgens.

Nesse sonho, ele vira Iria a donzela, bordando nos claustros do mosteiro das Donas de Nabância. Ajoelhado junto de Iria, estava o jovem Britaldo que, muito apaixonado, implorava a Iria que o aceitasse por esposo. Apressou-se a bela Iria a explicar que era impossível, pois fizera voto de castidade. Entregara a Cristo a sua vida. Triste, triste de morrer, Britaldo regressou ao seu castelo. Logo, adoeceu gravemente.

Na vida monástica, Iria rezava e trabalhava. Por inspiração de Deus pede à sua abadessa e vai falar ao moribundo Britaldo. Com doçura e firmeza convence-o de sua razão e diz-lhe que tenha fé. Britaldo confia em Iria e retoma as suas actividades como castelão nabantino. Ao ver esta cena, em sonhos, o abade Célio louvou a Deus. Porém, a revelação seguinte foi muito cruel para o seu coração de homem santo. Ele assistiu ao assédio despudorado que o monge Remígio, professor de lria, faz à donzela. Ela recusa-o energicamente. O malvado Remígio, com suas malas-artes de alquimia, prepara um pó que mistura na comida da sua aluna. Entáo, o ventre da jovem cresceu como se estivesse grávida. Muitos a acusam. Ela proclama a sua inocência. Mas a calúnia chega aos ouvidos de Britaldo. Louco de raiva, a sua paixão transfommada em ódio, Britaldo ordena ao seu criado Banão que vá matar Iria. Banão crescera junto de Iria, amava-a como a uma irmã.

Iria a mais amada, Iria tão desgraçada! Sem coragem para desobedecer a seu amo, Banão duvida da honradez de Iria. Ao alvorecer, surpreendeu-a, quando, pela margem do Nabão, ela rezava e caminhava em direcção à capela da Imaculada Conceição aonde ia meditar. E tantas eram as suas preocupações que nem sentiu os passos do malvado que de um só golpe a trespassou. Depois, tomado de remorso e de espanto quis fazer desaparecer o corpo casto de Iria, fazendo-o mergulhar nas águas do Nabão.

Tudo isto, o abade Célio contemplou no seu sonho. E mais lhe foi dado ver. Os anjos depositaram Iria num túmulo róseo e milagroso. Era de pedra mas vogava sobre as águas dos rios como se fosse o berço do lendário Ábidis. Os anjos acompanharam-na na descida dos rios até que para num pego do Tejo, em frente do lugar de Seserigo, onde se levantava um grande penedo.

Após esta revelação, o abade fez divulgar o milagre e veio de Nabância a primeira romagem a Santa Iria. Era vontade de Célio levar Iria para o seu mosteiro. Queria glorificá-la e pedir perdão pelos martírios que a virgem sofrera. Talvez, por castigo divino, ninguém conseguiu tirar a bela Iria do seu sepulcro. Apenas o abade recolheu uma madeixa de loiros cabelos e alguns pedaços do seu vestido. Relíquias que foram guardadas através dos séculos na Igreja que, em Tomar, tem por patrono Santa Iria.

Mas quem era o romeiro que se ajoelhava, sete anos após a morte de Iria, no seu lugar sagrado?

Acredita a gente simples que era o seu matador. Falam dele os "rimances" do Cancioneiro Popular Português. Almeida Garrett recolheu algumas variantes. Narrativas poéticas do povo que ama e canta os seus amores. " Chamavam-me lria, lria afidalga./ /Por aqui agora, Iria a coitada./ /Andando, andando, toda a noite andava,/ /Lá por madrugada que me atentava.../ / Tirou do alfange, ali me matava;/ /Abriu uma cova onde me enterrava./ / No fim de sete anos passa o cavaleiro,/ /Uma linda ermida viu naquele outeiro.// Que ermida é aquela de tanto romeiro?// É de Santa Iria, que sofreu marteiro.// -Minha Santa lria, meu amor primeiro,// Se me perdoares, serei teu romeiro.// - Perdoar não te hei-de, ladrão carniceiro,// Que me degolaste que nem um cordeiro."


Autoria de : Rosalina Melro
In "Suplemento Cultural de O Mirante" de 23/4/97

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