A LENDA DA CAPARICA

Tudo começou há longos anos, quando uma menina contemplava o mar, numa tarde calma e branca de calor.

Ela não sabia que estava a ser observada por um velho, que se sentia intrigado com aquela criança, embrulhada numa capa. Foi falar com a menina e ela explicou-lhe que vivia só, que se chamava Miúda e que sempre tivera aquela capa.

O velho estava admirado. Como era possível que uma menina tão pequena andasse pelo mundo sem eira nem beira? Propôs-lhe viverem juntos, pois ele também estava só e tinha uma casinha no alto do monte, junto ao mar.

Assim foi. Ficaram juntos, ele envelhecendo e ela a crescer. Viviam com o que havia: o sol, o mar, os mariscos das rochas. Um dia, o velho achou que era tempo de se ir embora. Pediu à miúda a sua capa, porque tinha frio. Ela pôs-lha sobre o corpo, deu-lhe a mão e deixou-se dormir juntamente com ele. Quando acordou, ele já estava morto e a Miúda enterrou-o numa sepultura perto da igrejinha da Senhora do Monte. Deixou de chamar-se Miúda e escolheu para si o nome de Mulher.

Continuou a viver naquela casa, solitária. A sua vida era a mesma de sempre; as suas vestes, a velha capa. A Mulher viveu ali tantos anos, que lhe perdeu a conta.

Certo dia, reparou que a gente da zona começava a olhá-la estranhamente, como se tivessem medo dela. Não atinava porquê, já que ela nada mais era do que a Mulher velha e solitária, a Mulher da capa que, afinal, todos conheciam desde sempre. E agora ouvia dizer baixinho, quando descia à aldeia: "Bruxa, bruxa!".

Entristeceu, porque desconhecia o motivo por que lhe chamavam tal nome e porque não sabia que dentro de si saía uma luz desconhecida, quando no alto do monte erguia os braços ao sol ou à lua, na sua saudação diária.

As pessoas foram contar ao Rei e este mandou-a chamar, dizendo-lhe que ela era poderosa e que fazia ouro e malefícios. Ela ficou muito admirada e replicou que era tão pobre que só tinha aquela capa desde que nascera. O Rei olhou a Mulher e viu que era verdade. Mandou-a embora, com vergonha.

Um dia, quando as gentes da aldeia souberam da morte da Mulher pelo dobre dos sinos da Senhora do Monte, acorreram à velha morada cheias de curiosidade. Sobre o seu corpo estava a velha capa e sobre esta encontrava-se um papel destinado ao Rei. Nele estava escrito: "Meu Senhor: deixo-vos esta capa que tenho desde que nasci. Encontrei nela todo o ouro que diziam que eu tinha: foi o meu velho companheiro que, antes de se ir embora, aí o meteu. Eu nunca o tinha visto e agora que vi, não preciso dele. Utilizai-o nesta terra para que todos tirem dele o que mais desejarem. Afinal a minha capa era uma capa rica. Que o meu Deus vos abençoe."

Foi assim que apareceu o nome de Caparica, em memória de uma Mulher que ali surgiu um dia, quando era Míuda, vinda dos caminhos da Terra, coberta por uma capa já velha.

 

 

"Lendas Portuguesas" Recolha de Fernanda Frazão

Edit. "Amigos do Livro" (Adaptado )

 

Powered by CódigoFonte.net

contador, formmail cgi, recursos de e-mail gratis para web site