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A LENDA DA BOCA DO INFERNO
Pergunto-me se não
conheceremos todos, pelo
menos de nome, a Boca do
Inferno, ali a Cascais, e
quase certa de me não
enganar posso dizer que
ninguém a desconhece.
Quanto à lenda ligada aos
seus rochedos e
redemoinhos, creio que
também não me engano se
disser que essa nem todos
a conhecemos.
A memória dos homens é
curta e por isso não sei
já há quanto tempo se
passou esta história. O
que interessa, realmente,
é que se passou tudo há
longo tempo.
Nesse tempo esquecido
existia por ali um enorme
castelo, paço habitado por
um homem de aspecto feroz
e satânico que, nas horas
da sua actividade,
cultivavam a arte da
feitiçaria.
Um dia, esse homem decidiu
casar-se, e para escolher
a mais bela mulher das
redondezas consultou a sua
lâmina de cristal de rocha
para identificar o local e
a casa onde deveria mandar
buscá-la. Quando viu a
mulher que os seus
cavaleiros trouxeram,
ficou estupefacto.
Era estupefactamente mais
bela do que imaginara ao
vê-la sugerida na lâmina
das adivinhações. Diz-se
que lhe deu uma fúria de
ciúmes e tratou de a
esconder da cobiça alheia
para preservar o seu amor,
mas penso que a escondeu
do mundo para se proteger
a si mesmo, que não a
soubera cativar.
Encarcerou a mulher numa
torre inexpugnável e
solitária, e guardou-a
como se guardam aquelas
coisas que ao mesmo tempo
se amam e detestam, ou
temem. Escolheu-lhe para
guardião o mais fiel dos
seus cavaleiros,
exactamente o homem que
nunca a vira, para que
mais cegamente a
guardasse.
Frente ao mar o tempo
passava, cronometrados os
dias pelas marés, as
semanas pela sucessão dos
dias e das noites, os
meses pela lua. Tão só se
sentia o guardião como a
cativa do seu senhor. O
horizonte de ambos era o
mar eternamente sempre
outro e o mesmo. A música
que a ambos chegava era a
dos seus pensamentos, a do
marulhar revolto ou terno
das ondas, o sibilo do
vento por entre as rochas.
Assim passava o tempo e
não passava, porque o
tempo para ser tempo tem
de se referenciar à vida,
e ali não se passava nada
que fosse vivo.
Até que, um dia, o ócio
provocou no cavaleiro uma
curiosidade inadiável.
Insensivelmente, deu por
si a pensar que mulher era
aquela que merecia tão
triste reclusão. Pouco
depois, encontrou-se a
desejar abrir a porta da
torre para ver ao menos o
rosto da mulher que
guardava. Por fim,
achou-se frente à porta de
chave na mão.
Meteu-a na fechadura e
rodou. A porta rangeu de
ferrugem quando o
cavaleiro se apoiou nela
lentamente. E enquanto
subia a escada de caracol
que levava à câmara da
cativa, talvez mil
pensamentos se lhe
entrecruzassem
silenciosamente no
cérebro: o que iria
encontrar? Seria bonita ou
horrorosa? Se calhar era
aleijada! Muda ou doente!
E se estivesse morta? Não,
na realidade enquanto
subia as escadas não
pensou nada. Estava apenas
expectante e quem vive
expectativas não se
pergunta nada, ainda que
na sua espera hajam
inscritas todas as
interrogações do mundo.
Frente à porta da câmara
da sua cativa, o cavaleiro
parou para acalmar o
coração e tomar coragem.
Quando conseguiu dominar a
tremura das pernas e das
mãos, empurrou a porta. O
sol, que entrava por uma
das ogivas da torre,
bateu-lhe nos olhos e
cegou-o por momentos.
Pouco a pouco, retomou a
visão e a névoa foi-se
dissipando até o deixar
frente à mulher que a sua
expectativa não pudera
imaginar.
Semivoltada, a cativa da
torre, tão espantada
quanto o guardião, olhou-o
interrogativa, esperando a
palavra que não veio,
acabando por perguntar:
-Quem és tu, cavaleiro?
Porque vens perturbar-me a
solidão?
E o homem, quando achou de
novo a sua voz, respondeu
finalmente:
-Sou o vosso guardião,
senhora! –e baixinho disse
para si mesmo: «Agora o
compreendo a ele…»
-O meu guardião! Guardião
de quê? Desta solidão sem
nome e sem razão? Vê, vê
como se consomem os meus
dias, sem prazer, sem
ilusão!... ao menos tu…
-Eu , senhora? Eu estou
ali em baixo tão só como
vós, e a guardar o quê,
para quê?! Mas a partir de
hoje talvez possamos
partilhar as nossas horas
perdidas neste ermo. Tudo
o que quiserdes, senhora,
ordenai! Levar-vos-ei onde
pedirdes!...
Diz a lenda que assim
nasceu um louco amor
assente sobre a
cumplicidade dos segredos
e das solidões. Os dias
nunca mais foram lentos, o
tempo fugiu à desfilada e
instalou-se eterno e
instante.
Um dia olharam-se, cativa
e guardião, e
perguntaram-se o que
faziam ali. Porque estou
eu prisioneira? De que sou
eu guardião? Acharam
aquela torre uma masmorra
absurda. Que guarda um
guardião sem chave? Como
se sentir prisioneiro de
uma prisão aberta?
Partiram.
Esqueceram tudo e
esqueceram também o
castelão feiticeiro que
tudo sabia. Numa noite de
luar montaram ambos o
cavalo branco do cavaleiro
e cavalgaram a toda a
brida sobre os rochedos
fronteiros ao mar.
No paço, o feiticeiro,
louco de ciúmes e de raiva
incontrolada, transformou
a noite numa concentração
de todas as tempestades e
malefícios do mundo.
Sob as patas do cavalo
abriram-se os rochedos
negros de par em par, como
se ali fosse uma das
entradas do inferno.
Cavalo e cavaleiros
despenharam-se no abismo
redemoinhante e foram
engolidos pela boca do
mar.
Assim que os dois amantes
solitários desapareceram
no redemoinhar infernal,
acalmou a tempestade e o
mar voltou a ficar manso
como se nunca tivesse
estado diferente. O buraco
nos rochedos, porém, nunca
mais fechou, como se a
ferida da natureza
quisesse perpetuar esta
história. E talvez assim
fosse, já que muitas vezes
volta o vento e retoma a
fúria do mar, tal como no
dia em que morreram a
cativa e o guardião da
torre.
Por isto mesmo, e porque o
povo da região nunca
esqueceu a história, se
chama àquele local de
mistério Boca do Inferno.
Retirado do livro “Lendas
Portuguesas” Investigação,
Recolha e textos de
Fernanda Frazão
Amigos do Livro, Editores,
LDA. |