Lágrimas e Cinzas
Vitor de Figueiredo
(declamado pelo autor, 9'06'')

Escorrem-me lágrimas da Alma
Como se ela já não queira me habitar

Quando lembro amigos vivos
Que por vezes esqueci e me esqueceram
E os mortos sem voz que já não oiço
Só me falam por aromas
Dos perfumes que usavam quando vivos
Trazendo-me as suas vozes caladas no além.

Já não toco nem beijo
Ninguém desse passado,
Nem amantes que partiram para outros braços
Deixando de me jurarem amor,
Nem os filhos que desataram os laços
Em outros horizontes.

As lágrimas correm
Porque agora tudo são cinzas
De quimeras ardidas
E de olhos corpos e cabelos lindos
Que me amavam com lascívia
Mas parecem ter sido incinerados pela vida
Ou partido para um outro Universo paralelo.

Coros de anjos
Cantam litanias a chorarem
Por todos nós agora
E canções antigas e cantos gregorianos
Que dizem definitivas ausências
Como se nada tivesse acontecido.

Ficou uma pequenina boneca esquecida
Num canto da cómoda,
O soutien laranja na gaveta
O bâton seco dentro da caixinha azul
Depois dos gritos
E paroxismos da carne
Em labaredas.

E o shampoo de cabelo que eu não uso
E já não sei de quem foi…
Mas tenho pena de deitar fora
Porque era dela com certeza,
Mas já não sei quem ela era…

Compassos já sem som
Que os corações bateram em uníssono,
Se calhar já mortos
Ou batendo ainda noutras paragens…

Assim passaram mais de dois terços da vida,
Listas telefónicas obsoletas,
Cartões postais do Natal com juras de amor
Desactualizadas pelo tempo que passou,
Que podiam ainda trazer voz num telemóvel
De arrependimento e coerência
A dizer que na verdade me esqueceram
Pela efemeridade de um amor que não durou.

E nenhuma canção que se escute
Pode agora dizer a verdade dos momentos ilusórios
E nenhum hino repõe o suor das tardes de sexo.

E tudo o que se disse e se evolou
Tudo o que se ofereceu com um sorriso nos lábios,
O anel que se colocou no anular, antes de cairmos das
bicicletas e de rirmos muito com as pernas esfoladas?

Os quilómetros de ilusão
Procurando a alegria nas paisagens,
Os castelos, as refeições juntos, como se apenas
existíssemos nós,
Nós quem? Ainda te lembras quem éramos?
Rasgaste as fotos? Os calendários? As dedicatórias nos
livros? Quais livros? Que noites nos viram nus
E esgotados de sexo? Onde, meu Deus! Sabes onde?

Os beijos líquidos, o verniz vermelho, a cruz Ansata
Que te dei, com uma fitinha azul, o anel de prata?
Tudo perdeste, deitaste fora ou nada lembras?
As flores secas na jarra, o pássaro amarelo, as musicas
Que ouvíamos?

Andávamos nus na praia, apanhavas pedras para guardar,
Odiavas os voyeurs, eu lembro e tu?
Beijavas-me à frente de toda a gente, querias sexo na
areia,
Com toda a gente ali… e eu ria, ria, com a tua desfaçatez…
E tu rias e empurravas-me, eu caía…
Éramos como duas crianças felizes e pergunto
Se isso tudo se pode apagar!...

E quando me lembro dos filhos que fecundei
Que não eram teus…
Das renúncias que tive de fazer para os criar felizes;
E pergunto agora com lágrimas dentro
Agora, que me desconhecem,
Se valeu a pena!

Se o seu silêncio continuado são ofensas que não falam,
Como se eu já tivesse morrido,
Então todo o amor que lhes dei foi todo em vão
E se não me amam digam-me as palavras que ora calam
E como se nunca eu tivesse sido pai.

Tenho uma teoria de que as pérolas
São lágrimas que não chegam aos olhos
Nem vêm do Mar mas da alma
E se juntam uma a uma no coração
Até que ele deixe de bater,
Para que todo o esquecimento seja definitivo,
E só as palavras fiquem a afirmar que se esteve vivo.

Damaia, 2/2/06 e
13/2/06
Vitor de Figueiredo
 

***

 

POEMA DA SIGNIFICAÇÃO

                     "It is impossible To love and To be wise"
                                                  (Sir Francis Bacon)
        
                                                                          
                                                            Menção honrosa
                                                  Jogos Florais do BNU 1995 

 

 

Quando fazia poemas para dizer   
da vida de um poeta em busca de si mesmo
através do amor que lhe preenchesse o vazio da alma náufraga,
nada sabia da significação do amor.

 

Esgaravatava o prazer
sem lhe precisar o sentido e a causa,
deixava a emoção de um beijo,
ou do frémito do toque na pele macia e acetinada
percorrerem minhas veias plenas de energia,
ou sonhava simplesmente a espera transcendente
de um momento lascivo, incoerente e súbito.

 

Era o amor instintivo, apreendido do Inconsciente Colectivo,
e a busca sempre insatisfeita
de saciar na carne os gritos e as ansiedades do espírito.

 

Depois de tantos anos gastos na procura da significação
das coisas da alma
e a descoberta de que não existe acaso
surges em minha estrada sem horizonte,
esfíngica e bela, acenando mitos de esperança e significado.

 

Das altas muralhas que te cercam,
íngremes, rugosas, definidas e concretas,
a estreita porta do mistério da tua solidão hermética
concorda neste encontro sem acaso
e promete em silêncio uma utópica ternura,
apesar da ponte das impossíveis palavras,
suspensas nos sorrisos,
não permitirem "precoces intimidades".

 

Precoces porque supõem um tempo eterno de existirem
em teu "soutien" de medo e das convenções decretadas,
que sempre mascaram e dilatam  o amor
para depois de amanhã,
ou para um fim de semana num deserto incógnito.

 

Este poema aconteceu no espanto
de descobrir, de repente, em horas mortas,
no além de todas as conveniências,
fora da lucidez das emoções convencionadas
por este mundo hipócrita e burguês,
que és importante e viva
no esboço de supor-te construída agora,
e renascida como uma diáfana holografia
duma subconsciente projecção de mulher ideal.

 

Tudo o que poderia chamar-se de um banal amor
surge para mim violento e estranho
como se bruscamente te encontrasse
rosa vermelha nascida entre as pedras de uma rua.

 

Murmuro este poema no segredo,
com as palavras tímidas de um sentimento agudo
e não previsto,
e como um grito na noite pedindo socorro ...

 

Junto as palavras audaciosas e ridículas,
que só aqui são possíveis,
mas nada digo de importante
ante a eloquência húmida de um beijo
ou de uma flor que colorisse o teu cabelo.

 

Adivinho teu sorriso complacente
do alto das muralhas onde teu coração se refugia,
pulsando em outras latitudes,
ante a fragilidade da minha alma confusa e contrita,
que desvenda mas esconde um profundo mistério,
como uma "Mandala" que deva ser longamente contemplada.

 

É que dizer-te AMOR - agora - é quase violação;
um caso de polícia; a transgressão das regras da amizade
que vai rasgar a túnica violeta que esconde a flor oculta.

 

Quebro a minha armadura - desprezo a experiência
e toda a segurança
do conhecimento de mil vidas de busca
para me sentir criança entontecida, amedrontada
por uma emoção que não entende,
coração exumado de cem anos de carência e desamor.

 

Procuro, todavia, nas estalactites da velha consciência
a profunda significação da nova chama que se acende
e incoerentemente me transforma e me perturba.

 

Posso saber a composição química de uma lágrima,
entender a "Dança de Shiva" das partículas,
na Física Quântica,
o "Big-Bang" e as conexões acausais nas interacções
aleatórias dos electrões do Universo ...
 

Até compreender a "Lei da Relatividade Complexa",
e mesmo as vibrações subtis de um toque descuidado
da tua mão macia ...

 

Só não posso saber o que é isso de Amor, o que significa
desejar de ti mais do que fraternidade,
querer tocar com lábios sôfregos tua pele perfumada ...

 

Sei que não vieste por acaso à minha rua solitária e lúcida,
em coerência com o sentido maior da Unidade
das coisas da Criação Divina
e da Eternidade que permite descobrir-te
alguém que já amei numa encarnação anterior.

 

E não consigo penetrar a essência da Consciência Cósmica,
por enquanto,
para decifrar o encantamento e a significação do encontro.

 

Mas sei que toda a energia que trocámos,
condensada em palavras e sorrisos,
tornaram-te inevitável, absoluta e única,
como se fosses o grande amor de minha vida
e pudesses caminhar comigo esta utopia.

 

Nenhum poeta descobriu a significação do Amor,
mesmo que tenha achado alguém de flor viva,
toda urdida de macias pétalas, plena de segredos,
ou princesa encantada
esperando o beijo de veludo que a desperte ...

 

Que mais posso dizer?
Feitos da mesma energia
que faz girar o mundo e o sangue em nossas veias,
e nos enfeita de sorriso e sonhos,
somos humanos e temos o direito de navegar o efémero,
rindo do deslumbramento e da loucura
que nos impele a estar vivos e a amar os outros,
quer o queiram quer não,
ignorando o sentido e a significação
de nos tornarmos, num momento cósmico, uma gota de chuva
com sabor de Lua
que atrai um raio de Sol e os funde num cristal.


                                                           Vitor Figueiredo


(do Livro de Poemas “Memórias do Amor Impossível”)

Direitos Autorais registados nos termos legais

 

***

 

PRIMEIRO POEMA DO "TEMPO DO LEITE"

Menção Honrosa
Jogos Florais do BNU - 1995

Pequena explicação do poema para as pessoas que não possam entender facilmente que, na minha vida, tenha existido o "Tempo do Leite", assim como outros "tempos"...

Foi um "tempo" em que eu me alimentava apenas de leite e pão, o que, além de saudável, pode revelar dificuldades existenciais. É conveniente compreender que havia alguns dias onde o pão não entrava na ementa, mas somente o leite e, mesmo assim, era possível sobreviver e sonhar. Era uma maneira como outra qualquer de estar vivo, de continuar a respirar como os outros, embora eles se pudessem dar ao luxo de outras variedades gastronómicas.

Julgo curioso referir que esse leite, que permitia manter-me vertical e aspirar a vida em longos haustos, vinha até mim, normalmente, por duas vezes: de manhã e à noite. Como aqueles que sofrem não estão geralmente sós, pois há centenas de vagabundos a sonhar futuros luminosos, eu tinha um amigo que, além de viver sem a família, como eu, não tinha qualquer outro amigo que não eu, por ser facilmente considerado louco pelas suas ideias abnegadas. Todavia, era estupidamente amado por uma pobre costureira, feia, faminta de carinho e compreensão, num mundo que a ignorava. Era ela que, às sete da manhã, ignorando a minha presença ou relegando-a para um plano irreal, vinha acordar o homem que amava e entregar-lhe todo o amor de que era capaz, até um quarto para as nove, hora em que saía para "vender as mãos" num "atelier" de modista onde lhe pagavam uma miséria, segundo dizia.

Mas, era dessa "miséria" que ela vivia e era dela que comprava o leite que permitia estar vivo aquele que desejava amar todas as manhãs. Então, antes de ir-se embora, feliz, deixava uma garrafa de leite, que se bebia frio, pois não havia nada para fazer lume naquele casarão enorme e sombrio, quase em ruínas; e era suficiente para fazer sobreviver dois poetas unidos pela fome e pelo sonho.

Dividido religiosamente o leite (e às vezes também o pão, quando ela fazia serões), íamos mendigar Sol e calor numa Lisboa adversa, onde ninguém conhecia ninguém e onde, até, era possível encher o olhar de todas as coisas desejadas sem ninguém dar por isso.

Durante o dia acontecia uma luta enorme para conseguir algum dinheiro que permitisse um café e um poema, e isso já era ser feliz, embora nenhuma mulher tivesse um resto de amor para me conceder ou algum outro possível amigo um resto de afecto e compreensão para compartilhar comigo. À noite, algumas vezes, era possível arranjar-se outra garrafa de leite, que ela trazia, e subsistir mais uma noite de frio e de desamparo, numa cama dura de jornais, e com outro dia de miséria a avizinhar-se.

Por isso lhe chamei o "Tempo do Leite". Esse "tempo" terá durado uns dois anos, com o coração cheio de amor por todos, um peito magro a querer respirar uma felicidade inatingível e, tantas vezes, a dor inexplicável da humilhação suprema que era viver através do amor clandestino de uma costureira por um pobre amigo; de esperar, de manhã, ansiosamente, que ela trouxesse beijos e carícias para ele e leite para nós, esse leite que permitia acreditar no amanhã, resistir a tudo, estar vivo, desequilibradamente vivo.

É por isso que existe este poema, e nele há uma implícita mensagem de gratidão a essa costureira anónima, cujo nome não recordo agora e cuja figura nunca esqueci, pois trazia todas as manhãs beijos, calor humano e sobrevivência. Costureira anónima e amante, que talvez ele tenha esquecido, mas que eu mantenho viva no meu espírito, como uma das pessoas a quem agradeço estar vivo.

E penso muitas vezes que o seu amor por um idealista louco chegou até mim, me tocou, e que os beijos e carinho que trocou por leite, também, sem ela o saber, tocaram a minha boca e a minha carência.


* * *

A beber todas as manhãs meia garrafa de leite,
primeiro comecei com um mundo enorme
e todos eram meus irmãos.
Só precisava de um pouco de leite para escrever um poema,
mas ninguém sabia que eu era importante.

À noite, arrumava tudo como a bagagem de um "clown",
punha as coisas que estavam dentro de mim nos seus lugares,
e rectificadas um pouco as minhas certezas dos homens
ia dormir a minha noite-dia de misérias disfarçadas.

Temia apenas o Sol que trazia desconcertantes verdades
plasmadas nas pessoas
e deformava as coisas como lentes grossas.
Todos os dias atrasava o meu calendário
para não despertar o desespero contido em cada gesto.

De noite boiava as angústias e sonhos num lençol de jornais,
sujos de azeite,
e despertava na alvorada
com todos os gritos já gritados e todas as revoltas abafadas
como convinha ao meu cadáver sempre reencarnado
mas desconhecido no mundo orgulhoso e sadio dos vivos rodopiantes.

Aos poucos me senti podre e feliz no meu misterioso mundo
onde não entrava ninguém;
Só eu me cheirava mal, avaramente;
os outros não me sabiam;
contactavam comigo, apenas, através da moeda difícil do meu
país secreto,
a cumplicidade serena nas horas libidinosas
de uma mulher
trocada por leite.

Às vezes fazia uma longa viagem até ter mãe...
Chegava lá cansado e não valia a pena ter mãe,
pois um poeta como asa flutuando no vazio
não pode ser filho de ninguém.

Quanto mais amava todos (no meu orgulho),
até aqueles odiosos poetas modernos que vinham estragar tudo
e corromper as minhas certezas ortodoxas,
mais iam crescendo os meus muros musgosos divisórios,
onde era cada vez mais um aprisionado pássaro verde
sem energia para voar muito
dentro e além de mim.

A fome, constante inútil, de bandeira desfraldada,
já nem era um analgésico,
precipitando-me numa subtil queda de asa, lentamente,
de dentro do meu mundo, ao princípio enorme e falso,
para me despejar como lixo
nas praças exactas das coisas movimentadas,
onde boiava como um dejecto no lodo
da vazante do cais putrefacto do mundo real.

* * *
Muito tempo nas infraestruturas de mim,
num luminoso subterrâneo só de mim,
dormia "sonhos de cocaína" tão profundos
que pairava sobre as coisas, de muito alto, numa "viagem astral",
sem poder cair do tecto dos cafés
e tinha de estender-me, todo alongado em braço,
para apanhar o cigarro na mesa, encher-me de fumo
e descer outra vez a mim.

Talvez ninguém perceba,
mas foram grandiosos dias de voos enormes, belos, irreais...
E todo eu era êxtase para ser Divino, estrela e espaço,
embora às vezes acabasse pendente como um trapo num fio telefónico...

A leite e cigarros, a fome e a sonho
os passos levantam, a alma se ergue e sobe;
em cima tudo é em espiral e o espírito esvoaça
quando o olhar se dilata, tudo abarca
e metafisicamente paira, como asa de névoa azul numa tarde vigilante.

E em baixo só fica o despojo ridículo,
o homem vestido, de rosto medroso, sentado na mesa do café,
sem ter para onde ir,
a estrutura do poeta, essa armação vazia, em palha entrançada,
boneco parado, sem nome, sem olhar e sem vida,
com as entranhas à mostra e as vísceras à venda,
os nervos retesados como linhas de coser, pretas.

Sem ninguém reparar, assim me transcendia da miserável condição de homem sem horizonte
e bebia tristemente o meu último café, descendo calmamente à vida,
quando estava na hora de ir morrer um bocado no lençol das misérias,
depois de ouvir projectos loucos de um amigo que tinha uma costureira que o amava,
e trazia leite para que ele não morresse,
pois era um homem transcendente para ela
e também importante para mim.

* * *

Um dia, trepei desesperado todos os muros da vida
e sacudi de mim todas as ruínas, gritei blasfémias,
e para obter a certeza de estar vivo, raspei com as mãos o lodo;
cheguei cá fora com as mãos sujas na aventura única do abismo
e nunca mais pude entrar.

Fugi da labareda do sonho que me queimava lentamente,
enchi-me de âncoras pesadas para não voltar a sair de mim,
amarrei as utopias com fios eléctricos,
e pus-me a caminhar banal a vida dos homens simples, vulgares e felizes.

E quando, nem sei porquê, às vezes, ando a tactear a porta
daquele mundo estranho donde vim,
onde havia amor, loucura, leite e amargura destilada de
êxtase e de sonho,
só para me reconhecer sobrevivente de outro mundo,
só encontro muros altos, rugosos, muros com vidros
onde as minhas mãos se ferem e desistem,
pois tudo cresceu às alturas do impossível.


Vitor Figueiredo


(do Livro “Memórias do Amor Impossível” – Poemas)

(Direitos Autorais registados nos termos legais) 

 

***

 

SOMBRA ... 

 

 No meio do deserto,
 esverdeado, ao sol,
 com milénios de ferrugem
 Há um portão de palavras ...

 Viajei para ti com uma venda nos olhos,
 e através do portão a minha sombra projectou-se
 longa
 e foi dormir contigo
 o bater monótono das horas sem nexo.

 No teu pesadelo, as palavras
 como um oceano que te quer afogar
 estão a cortar lentamente, como gumes afiados,
 as pontas dos teus cabelos
 e abrem tuas veias uma a uma.

 Há uma estátua branca, enorme, na relva verde
 do parque
 que move uma das mãos na carícia das crianças descuidadas
 e outra que se estende para ti
 náufraga na procura dos teus seios !

 Acordar é a certeza duma gaveta fechada à chave
 que liberta pelas frinchas uma alucinação de poeta
 condensado em selos,
 morto nas horas de sol,
 implacavelmente morto,
 mas perigoso
 durante as horas de serviço.

 Só à noite arrombo com a minha sombra o portão, no deserto,
 e torno-me maravilhoso e incómodo
 como uma tempestade de areia
 que te entra nos olhos, na boca, no cabelo
 te arrepia,
 te dói na pele
 e custa a sacudir dentro de ti.
      


       LUANDA, MARÇO/1970


Vitor Figueiredo
(do Livro "Memórias do Amor Impossível")
Direitos Autorais registados nos termos legais

 

***

 

E N I G M  A

                                                      Para a Chris
 

Pediste-me um enigma,
em abstracto,
o mistério de muito nos termos desconhecido
enquanto fumavas as tuas cigarrilhas insólitas
e eu criava virtualmente a hipótese de te encontrar.

Enigma,
talvez a metamorfose diária que nos consegue igualar
depois da caminhada solitária pelas sombras
e dúvidas,
ou a imaginária condição de superarmos amanhã,
naturalmente,
os caminhos que sempre nos dividiram.

Enigma é dizer que ainda não conheço bem
os recortes do teu corpo
que em cada dia muda as cifras e as coordenadas,
inovando em cada toque sensações libidinosas diferentes.

Enigma é o mistério de nunca ser a mesma
sem raiz coerente que germine as mesmas folhas
e conserve o mesmo sabor nos mesmos frutos.

Enigma é querer saber afinal que enigma desejas de mim
quando translúcido me desnudo para saber o que diz
a tua consciência celular,
e morro vencido como um menino leucémico
na força do teu desejo.

Ou, talvez,
querer saber ainda quem tu és e o que sentes,
ultrapassados os primeiros mil beijos e as duzentas mil carícias
depois de percorrerem o latejar das tuas veias
e interrogar até à exaustão a razão do teu corpo ser tão quente.

O enigma maior – sou talvez eu
a tentar decifrar os teus gemidos,
a cor dos longos cabelos na minha boca,
a inusitada aventura que é esperar de ti
a coerência que não existe
na invenção nocturna da nova mulher que sempre surge ardente
improvisando e exigindo loucas incursões nos meus sentidos,
descobrindo e criando sensações invulgares na minha pele antiga
e exumando do meu coração morto
muitas novas horas de sublime amor.

 

 

Vitor Figueiredo

Lisboa, 29/Junho/2001

(do livro “Novas Memórias do Amor Impossível”, ainda não completo)

Direitos  autorais  registados nos termos legais.

 

***

 

 

 

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