Sendo o beijo sutileza,
o teu beijo já não sinto,
pois ao beijar-te pressinto
que em meus lábios outro beijas...
Se me imploras abraçar-te
e em meus braços te enlaço,
tudo é vão, pois o abraço
não é meu: 'stou noutra parte...
Eis tu, muda; eis-me mudo
na solidão da noite calada.
Sabes que para mim já não és tudo;
sei que para ti também sou nada...
Vestuário
Remisson Aniceto
Roupas, roupas,
vestimentas,
enganos do corpo,
engodos, farsas.
Panos, panos,
linhos grossos,
fininhos,
obstrução de caminhos...
Chuva
Remisson
Aniceto
Um corpo na mesa -
e
lá fora o dia chora
águas de tristeza
Áurea
Remisson
Aniceto
Faço poemas
em versos negros
e versos brancos
para que todo poema
seja livre.
Nostalgia
Remisson
Aniceto
Helena? Helena? Onde 'stás agora?
Apesar do pouco tempo da partida,
a lembrança me castiga, faz ferida
e a tristeza solidária me namora.
Onda calma de sono me invade
quando oscilo sobre a rede no quintal.
Teus beijos... teus abraços... teu
rosto divinal...
que saudade, Helena! Que saudade!
Tremor vago o meu corpo já domina,
ao sentir que a bela fantasia
s'esvaece logo que o sonho termina.
E quem entende a minha dor, o meu
desgosto
e a escassez que há em mim de alegria,
é o zéfiro que banha o meu rosto.
Coração
Remisson Aniceto
Vi o Coração quando jovem, quando
puro,
rindo e sonhando dia e noite, noite e
dia,
como se a Vida, a Morte, o claro e o
escuro
se resumissem em prazer e alegria.
Hoje, velho e partido pela Vida
amargurada,
sem glórias, sem ânsias, sem desejos,
vesano órgão, cambaleia pela estrada,
sem sonhos e algente de sobejo.
Melhor fora Coração não ter havido:
sem este ingrato o peito seria
de sentimentos e tramóias desprovido.
Antes, vi aurora de intensa euforia.
Agora, tendo a Vida esmorecido,
só vejo a Morte, lúgubre, sombria...
Súplica
Remisson
Aniceto
Reza por mim, amor.
Reza por mim
e não serei um mero grão disperso,
e não serei um anel de Saturno
desgarrado, solto no espaço-tempo
da Eternidade.
Que aqui tudo é mistério,
tudo é descoberta,
há outro sentido,
outro conceito de Existência.
Aqui não há espera,
só a lembrança fugaz,
só a vaga imagem do teu rosto
na moldura do Infinito.
Não te deixei, amor,
roubaram-me de ti,
despejando-me no vácuo do tempo.
Reza por mim,
fumaça disforme ora diluída,
ora rejuntada,
assumindo formas várias e inúteis,
bailando aos dissabores
da inconsciência.
Reza por mim, amor.
Imagina-me como um lago
de águas puras, serenas,
e assim hei de ser
para matar minha sede
de ti.
Terapia do riso absurdo
Remisson Aniceto
Contraídos o risório e o zigomático,
explode em ti sonora gargalhada.
Do veneno do teu riso tão elástico
minhas cordas também são contagiadas.
Tudo em ti é motivo de euforia
e até o vento faz-me cócegas passando.
De tudo rimos e na falsa alegria
o teu riso com o meu riso vai rimando.
Com o riso tu me enganas e eu te
engano.
Se sorrimos, damos bah! para a
tristeza.
Riamos, que o riso encobre o dano.
Devemos rir, pois só o riso nos
sobeja.
Serão bobos? vão dizer. Somos insanos!
E talvez rindo, a triste Morte não nos
veja.