MÃE-TERRA


Anoitecia
Quando cheguei.
Cansada, triste, sozinha
Entrei na casa sombria.


O silêncio era palpável
De um peso insustentável.

A tua cadeira vazia
Pareceu-me pesada, fria.


Faltava-lhe a moldura
Do teu sorriso
Das tuas mãos
Deformadas e velhinhas
Onde morava o refúgio
Para a minha solidão.


A casa não era a mesma
Tinhas levado contigo
A alma e o coração.


O silêncio fez-se maior.
No corpo senti o gelo
Das paredes de granito
Tapei a boca
A sufocar um grito.


Todas as luzes abri
O aquecimento liguei
Mas nada me aquecia
Havia hostilidade
Na sala de ti vazia.


A brancura das paredes
Tinha uma luz crua
Que quase me agredia.


Na parede do quarto
Donde fugira toda a luz
O Cristo amargurado
De espinhos coroado
Pareceu passar para mim
O peso da sua cruz.


Meti-me na cama,gelada,
Confusa, amargurada
Triste, mais triste
Que a noite mais escura.


E o relógio compassado
Ia descontando as horas
Dum sono sobressaltado.


De madrugada,
O sol veio brincar
Nas persianas descidas
Pondo centelhas doiradas
Na cal viva das paredes.
Em ouro, foi desenhando,
Na colcha da minha cama,
Rendas de bilros delicadas.


Um pássaro cantou
No beiral do meu telhado
No quintal o galo lançou
Um cró-cró desafinado.

 

Abri de par em par
A janela do meu quarto
E por ela vi entrar
O azul intenso do céu
(Lembrando os olhos teus)
O ar puro da Serra
A luz doirada do sol
Das tílias o perfume
O cheiro forte da terra.

 

O Zêzere, lá ao fundo
Era fita prateada
As montanhas sentinelas
No horizonte perfiladas.


A casa encheu-se de luz
O Cristo de espinhos coroado
Com ar doce e resignado
Retomou a sua cruz.


À distância de um abraço
Tinha uma doce velhinha
Com olhos da cor do céu.
Acordara de madrugada
Sentira a minha chegada
Esperava um beijo meu.


Oh minha Mãe!
Oh minha Terra|
Conjugação do verbo amar
Fonte da água viva
Que dá forças para lutar.


Também eu sou de granito
Desafiando o infinito
Mas em ti, junto de ti
Reconciliada com a vida
Já não me sinto perdida.


Minha Mãe-Terra
Meu útero, meu lar
Abre-me os braços
Dá-me o teu regaço
Quero descansar.

 

Maria Ivone Vairinho

(Livro da Dor e da Esperança)

 

***

 

POETA


Ser poeta
É bênção
É maldição.


Num desassossego
De inquietação
Na carne sofrer
Dos outros a dor
A alma desnudar
Sem falso pudor.


Num só verso
Condensar o Universo.


Em cada madrugada
De corpo despido
Abertas as veias
Deixar jorrar
A dor sublimada.


Para ser feliz
Precisar de nada.

 

Maria Ivone Vairinho

(Livro da Dor e da Esperança)

 

***

 

ROSA,CARDO, ROSMANINHO
(MINHA FILHA)

Um homem, uma mulher
Pelo céu foram ungidos
No momento do querer
Almas e corpos unidos.

 

A semente germinou
Violeta, malmequer
Flor que abriu, desabrochou
Com perfume de mulher.

 

Água pura da nascente
Chuva forte e também mansa
Mar de fogo em sol poente
Arco-íris da esperança.

 

Brasa quente da lareira
Brisa que refresca o rosto
Sol que vem bailar na eira
Lua branca em céu de Agosto.


Rouxinol em melodia
Trinando no meu telhado
Pomba, águia, cotovia,
Gaivota no voo planado.

 

Raízes fundas no chão
É formiga a labutar
Cigarra numa canção
Se tem asas para voar.

 

Rosa, cardo, rosmaninho
Tão singela no seu jeito
Poema de amor e carinho
De todos o mais perfeito.

 

Maria Ivone Vairinho

(Livro do Amor e da Saudade)

 

***

 

HORTO DAS OLIVEIRAS

 

-Como foi Job eu não sou
Nem tenho a fé de Abraão
Náufrago que em mar vogou
Sem tábua de salvação.


Não grito não esbravejo
Nem costumo me queixar
Mas tenho dentro do peito
Lágrimas mil por chorar.


Pela angústia dominada
Neste futuro adiado
Há medo que me tortura


E não desejo mais nada:
Que de mim seja afastado
O cálice da amargura.

 

Maria Ivone Vairinho

(Livro da Dor e da Esperança)

 

***

 

 

SERRA DA ESTRELA


Meu corpo foi talhado em granito
Meus pés plantados em ribeiros
Que me banham o corpo inteiro.


Nos olhos tenho espaço infinito
Que rasga a linha do horizonte
Que se perde no mar, nos montes.


No meu véu branco de esponsais
Brotam zimbro, mimosas, tojais.


No verde selvagem dos pinheirais
Meu manto de rainha foi tecido
Com urzes e rosmaninho entretecido.


Meu vestido verde bordado
Com rubra barra de papoilas
Espigas doiradas
De trigo e cevada
Desce pelas encostas escarpadas.

 

No ventre fecundo
Guardo mananciais
De lava ardente e minerais
Que mostram seu esplendor
Nos picos das Penhas Douradas
Quando o sol enamorado
Em manhãs de ouro matizadas
Crepúsculos avermelhados
Me confessa o seu amor.


Prendem-se minhas mãos nas fráguas
Delas jorram cristalinas águas.


Águas de lava arrefecida
Fontes de saúde e vida
Irrompendo em borbotões
Tecendo rendas delicadas
P'las quebradas dos Covões.


Derretem neves do Inverno
E loucas vão mergulhar
No Poço que é do Inferno.


A água das neves, gelada
É de novo transformada
Pela lava incandescente
Rasga a terra com fragor
Entre nuvens de vapor
Nas termas e nas nascentes.

 

Sou feita de neve e de granito
Nos olhos tenho espaço infinito
Do verde selvagem dos pinheirais
No ventre fecundo mananciais
De lava ardente e geladas águas
Que jorram cantando pelas fráguas.

 

Maria Ivone Vairinho

(Livro do Amor e da Saudade)

***

 

 

 

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