A Guillaume Badalassi
Maria Badalassi

Ici...
où je crève tous les jours un petit peu
Habite um peu de l'âme de mon père

Feuille de feu
Flamme de colère

Petit enfant terrible
Vieux tonèrre

Mélange de bon pêcheur
Coeur de satin... et pierre
 

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Aqui….
Onde eu morro todos os dias pouco a pouco
Mora em suspensão a alma do meu pai
Folha de fogo
Chama enfurecida
Criança terrível
Velho trovão
Mistura de bom pescador
Coração de veludo… e pedra

Maria Badalassi (trad ferool)

***

VERTIGO
Maria Badalassi

Nas horas trinitárias
Das tardes em sol posto
Há palavras várias
De sal e desgosto

Nas horas e noas
De silentes rezas
Pelas coisas boas
E pelas tristezas

Menina! Senhora!
Mulher malcriada
Falas... palradora
Ou não dizes nada

Mas sentes as dores
De ti e dos teus
Pintas multicores
Desenhos nos céus

Mas já não te cegam
Com luzes brilhantes
Se dizem ou negam
Factos evidentes

Menina! Senhora!!!
Mulher malcriada!!!
Falas... palradora
ou não dizes nada

E o tempo em seu trote
De vida e verdade
Dá-te sempre o mote
E traz-te ansiedade

Da morte faz fuga
Da terra faz uva
Da uva faz gente
E no sol refulgente
Faz um tudo - nada
Em que tu, Senhora
Mulher malcriada
Serás palradora
Ou não dirás nada!

***


A ostra de Cadaqués
Maria Badalassi

Dona ostra fechadinha
Morava numa praiínha
A norte de Barcelona...
Nos dias de sol cinzento
Um pintor nado em Gerona,
Abstracto e truculento
A tal praia visitava.
Trazia tintas, pincéis
Telas, cavalete e bata
E pintava em tons pasteis
tudo o que a vista enxergava...

Tinha o tal Senhor Artista
Um bigode retorcido
Hirsuto e muito comprido
E aspecto de anarquista...

Na tal praia - Cadaqués -
Pintava o mundo ao revés
Do que a ostra observava...
E enquanto o pintor pintava
A ostra se perguntava
Como o dono do moustache
Podia gastar gouache
Numa coisa tão estranha...

(Ai, D. Ostra esquisita!!!
Sois tal qual como uma aranha
Que só a sua teia fita.)

O mundo pra ser pintado
Tem que ser visto e sonhado
E nos olhos dum pintor
Não reside só a vista
Mora também o amor
Que inventa e transfigura.
O pintor como o poeta
Personifica a loucura
É criador, criatura
Vagabundo , anacoreta

Tal como a ostra rugosa
Que à pérola serve de ninho
É o artista como a rosa...
Gera a pétala formosa
Pela arte dum bruto espinho.

***


PERDOA, MEU AMOR
Maria Badalassi

Perdoa, meu amor, tudo o que escrevo
Mau grado a felicidade com que vivo
Solta a pena o que devo e não devo
É-me a lira tristonho estro cativo

Sou alma lusa... em lúgubre mortalha
Canto o fado dos outros, pelo que vejo
(E esse fado às vezes é canalha)
Mas só para ti esvoaça o meu desejo

Perdoa, meu amor, à minha lira
Este acaso de versos ficcionados
Mas, se pareço triste, isso é mentira

São-me os versos palavras aos bocados
E só o fonema me é mar e maresia
Perdoa, amor, mas isto... é só poesia!

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OS DESLUMBRADOS
Maria Badalassi

Aborrecem-me os tontos deslumbrados
Que procuram sempre dar nas vistas.
Como teias de oiro e de brocados
São barrocos, rocailles... narcisistas

Aborrecem-me tanto e de tal sorte
Que ao ver-lhes a ignara jactância
Me escondo na minha ignorância
que não tem sol, mas jamais perde o norte

Na passerelle em que eles desfilam
Também eu passo, mas dela me demarco
Mas quando os deslumbrados se perfilam

Nas luzes da ribalta, eu vou pró charco
Aonde as simples rãs no seu coachar
Me encantam mais que todos deles, a trinar.

***


POEMA DE MIM... ASSIM
Maria Badalassi

Sou gente simples. Nasci da terra
Nela fui semente germinada
E nasci e reflori de mim...

Também sou filha duma raiva incontrolada
Que estiolou o pé branco do jasmim

Cuspi na sopa!!!
Brandi a adaga de Maria
E fui da Fonte
E fui poesia
Da má raça do velho Anacreonte

Sou malcriada.
Não tenho jeito para o protocolo.
A minha melodia faz-se a solo
Ou então com percussão bem ao meu jeito.
Não tenho cabeça. Sou só peito
E coração e vontade e sentimento
Para as coisas da razão
mal tenho tempo
E, de tal sorte,
serei sempre emoção
... até na morte!

Caí de rastos
Rasguei a derme até ao imo fundo
Não tenho perfil de estrela
E sei que há astros
mas eu não pertenço a esse mundo.

Sou tagarela!
Falo o que devo e não devo e sinto e sei
E sou o produto do que dei
E dou e vivo dando...
Saibam que nunca morrerei
Só que... um belo dia... irei andando!

 

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