Contradança

 

 

Sou feito a bailarina que descansa,

entregue após a valsa que entristece

e que a faz, sorrateira em esperanças,

refrear o desejo que emudece.

 

Tão pouco sei de mim e de você!

(Do riso pulsa a veia latejante)

O espelho em que me vejo é tão clichê!

Reflete até o espaço itinerante!

 

Assim, quando acordar da contradança,

aguardarei o olhar que me envaidece

e que me faz corar e me enternece.

 

E entardecendo a dor que não fenece

meus olhos, de cansaço, vão se unir.

À espera, movimento não padece.

 

Márcia Sanchez Luz

 

 

Frenesi

Aos pedaços me atiro em movimentos
Frenesi , momento insano, me questiono
Se o que vivo é o que espero de minha vida
Se ao teu lado vou me achar na despedida.

Mesmo em sonhos, tropeçando em descaminhos
Sou quem sou, não tenho nada que me impeça
De alcançar-me mais adiante, sem ter pressa.

Vou viver meus sentimentos sem ti mesmo...

E ao dizer-me assim sem traços de amargura
Sou de ti meu descaminho que não mente
E que sente a dor da perda que consente.

 

Márcia Sanchez Luz

 

 

Escrever

 

Escrever é sorver a dor aos poucos,

é contar a si próprio o que bem sabe,

mas que aflige demais! Por ser tão louco,

faz que a alma, em torpor, logo desabe.

 

É cruel falar sobre o que machuca!

Mais cruel, entretanto, é não sentir

o que a vida oferece:  pura luta

entre o ser complacente e o insurgir.

 

Se escrever é dar forma a certa ausência

na calada da noite ou mesmo dia,

vou seguir exaurindo a desavença.

 

Eis portanto o que faz a diferença

entre aquele que vive e contagia

e o que não sente a vida  assim intensa.

 

Márcia Sanchez Luz

 

 

 Ao Som de Madrigais 

 

No ocaso deste acaso em que me vejo,

me perco em muitas curvas longilíneas:

tuas mãos em meus cabelos, benfazejo,

ao som de madrigais nas noites minhas.

 

Prefiro o teu perfume ao meu incenso

de mirra ou de jasmim quando em teu colo!

Porém quando te afastas, te dispenso.

Não esperes que eu te queira, não me imolo!

 

E por não ser mentira é que profiro

que a noite não passou de uma cantiga

deixada ao léu depois de alguns suspiros.

 

Tampouco vou querer ver teu delírio

em busca de um prazer que não mitiga

a sede deste amor que em vão aspiro.

 

Márcia Sanchez Luz

 

 

Seixos Transparentes 

 

De tanto amor e dor que a ti concedo

meu corpo de minha alma se liberta.

O amor não tem remorsos nem avessos

A dor, porém, fulmina e não me alerta.

 

É sôfrega a palavra que me invade

em trajes tão secretos e prementes!

Melhor seria a dor em seu contraste

vertendo a seiva em seixos transparentes.

 

Viver em ti não pode ser promessa

de noite entristecida alvorecer

e nem apaga a dor que em mim professa.

 

Assim transcendo a busca que não cessa

e a brisa flamejante vem trazer

o aroma do pulsar que me interessa.

 

Márcia Sanchez Luz

 

 

Inalienável Veto

 

Mero traço que no peito abraça,

abarca em brisas soltas teu sorriso,

mas em vão sequer protege meu achado

das rudes ventanias que destronam a paz!

 

Quero a semente que te aleita a vida!

Em forma de sustento, o alento é puro.

Se na semeadura teu lago é mais fundo,

que então teus grãos possam nutrir meus dias.

 

Secreto a ti meus mais parvos idílios!

Caprichos tolos, porém verdadeiros.

E na pujança de meus devaneios

espero a noite que me acorde os sonhos.

 

Estreitas brumas impelem-me a alma

a transgredir preceitos tão abjetos!

Pois que de tola já me basta a crença

de ser em mim inalienável veto.

 

Márcia Sanchez Luz

 

 

 

Arte & Design:

 

 

SOM: La vie en rose - Grace Jones

 

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