No fundo do buraco

Guida Linhares

 

Na vida às vezes atravessamos um buraco do mundo, onde entramos nele sem nem saber como, e quando chegamos bem lá no fundo, nos sentimentos desorientados, completamente perdidos. até que olhando para o alto, uma réstia de luz nos chama para a vida.
Mas na concretude, as réstias de luz são lamparinas que nossos amigos carregam em suas mãos, procurando cuidar daqueles que o seu coração agasalha.
Assim quase sempre, na borda do buraco há um amigo ou amiga disposto a jogar a corda e nos  trazer para a luz, ofertando carinho e ternura
mostrando o quanto somos importantes para continuarmos a viver com dignidade e alegria.
E estes amigos são agulha no palheiro, de tão raros que são e quando os encontramos em nosso caminho, somos gratos a Deus e abraçamos o amigo com toda a força do nosso afeto.
Tive o privilégio de conhecer pessoas assim, reais e virtuais, ao longo da vida, que me estenderam a mão em momentos  de angústia e aflição.
A eles o meu sentimento profundo de gratidão e reconhecimento eterno.
Na vida nada somos a não ser pela presença do outro,
que é nosso espelho e nos substancia, nos afaga e orienta.
 

*** 

 

Diante da morte
Guida Linhares

      Ela viveu uma vida dedicada à família, contudo guardava mágoas e tristes recordações da infância, que a perseguiram pelos anos e deixavam sempre marcas tristonhas em seu fechado rosto. Poucas vezes mostrava na face, a alegria pelo prazer de viver e por ter construído uma linda família. Os fantasmas do passado permaneciam ao seu lado e de certa forma influenciavam seu estado de ânimo, e muitas vezes ela falava palavras rudes e de desalento, para quem estivesse ao seu lado. Tantas vezes se indispôs mesmo com as pessoas próximas, mas que a amavam muito e exercitavam a paciência e tolerância.
      Eu a visitei algumas vezes ao longo dos anos e mesmo sentindo que nos gostávamos, ela sempre se mostrava distante e indiferente às palavras e aos toques carinhosos, mantendo um olhar desafiador, como se toda a verdade apenas ela possuísse.
      Poucas visitas me fez, e com o tempo também fui rareando, pois o prazer que deveria ser a tônica da companhia era substituído por uma angústia pela não aceitação de uma mudança de ótica de vida, e por uma falta de intercâmbio, de aceitação de novas idéias.
      Fazia anos que não a via. O filho ligou no começo de janeiro, para dizer que a mãe estava muito mal no hospital e fui visitá-la.
      A família lá estava carinhosa como sempre e ela na cama com aquele seu ar ausente, aquele orgulho de sempre estampado no rosto, aquele riso de desdém para com a vida.
      Nos momentos em que ali estive fiquei refletindo sobre a felicidade que ronda as pessoas que muitas vezes nem se dão conta de que são felizes. Uma família unida, marido carinhoso e sempre presente, filhos que nunca deram trabalho e se tornaram homens de bem, noras amorosas e netos alegres, que muito a amavam.
      Mulher feliz que conseguiu aglutinar em torno de si tantos seres queridos, mas que mesmo assim, conservou seus fantasmas do passado. Talvez se os tivesse eliminado, ao receber as bênçãos da vida, tivesse vivido uma vida mais alegre, sentindo o quando era amada e o quanto a família se preocupava com ela e com seus instáveis estados de humor.
      Fui a ultima pessoa a vê-la com vida na UTI, e nos momentos em que lá estive, procurei dizer palavras doces sobre a nova vida, já que ela estava resistindo à morte, há doze dias, para espanto dos médicos. Seu estado de saúde era muito precário, estava bastante inchada e respirando através dos aparelhos.
      Senti que estava diante da morte, e pensei na fragilidade da vida. No quanto deixamos de fazer tantas coisas por conta do orgulho, da arrogância e da auto suficiência e perdemos a oportunidade de sermos mais felizes, em companhia dos parentes e amigos.
      A vida é fugaz e passageira e a única certeza que temos, verdade absoluta, é que a nossa hora derradeira um dia vai chegar. Que nos encontre com a certeza de que tentamos fazer da nossa existência, um jardim florido e perfumado, onde as borboletas vieram celebrar a vida.

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O barquinho

Guida Linhares


Manhã atarefada, mil coisas a resolver, ela chega na avenida da praia, para cumprir mil tarefas, mas o seu olhar vai à procura do mar. Então resolve dar uma pausa no cotidiano e ver bem de perto aquela imensidão. Seu olhar vaga no horizonte, e lá longe um barquinho desliza suavemente pelas águas e ela fica pensando no deslizar dos dias e  noites, na solidão de seu quarto, sem o companheiro de tantos anos. Tudo foi tão rápido, aconteceu de repente, sem que se dessem conta, as palavras foram saltando da boca e ambos chegaram à conclusão de que o amor havia desvanecido, e que tudo havia perdido o sentido.
Lágrimas escorreram pelo rosto e ela procurou avidamente um lenço na bolsa e não encontrou...seu olhar vago pousou num homem que vinha vindo de olhar cabisbaixo, andar vagaroso, quase tropeçando nos próprios pés e ela pensou:
- Este homem também deve estar tão amargurado quanto eu, deve ter seus próprios problemas mal resolvidos, enfim viver às vezes vai se tornando tão complicado, e os dias vão se arrastanto incontáveis, duros, implacáveis em meio ao cotidiano.
O homem havia passado por ela e percebendo o rosto molhado, tirou da bermuda um lenço. Aproximou-se dela e ofereceu num gesto de simpatia. Ela não esperava isto e sorriu aceitando o lenço e agradecendo.
Um vendedor de mate gelado observando a cena sorriu e acenou de longe e pra quebrar o momento ele perguntou a ela: - Voce aceita um mate gelado além do lenço?
Ela respondeu: - Claro que aceito e ambos se encaminharam para o carrinho.
As lágrimas sumiram do rosto dela e quem observou de longe percebeu que o andar dele se aprumou,
quem sabe uma nova esperança, um reflorescer do amor.
O barquinho havia sumido do horizonte há algum tempo
e ela nem se deu conta disso.

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Triste Páscoa

Guida Linhares 


Quer saber o nome dele? Pode ser Pedro, Paulo ou Joaquim, igual a tantas outras crianças, contudo com uma unica e real diferença: as outras neste exato momento, estão saboreando seus chocolates, com os olhinhos brilhando e os dedos lambuzados, sob olhar feliz de papais e mamães que correram para comprar os presentes tão desejados da Páscoa, os divinos ovos de chocolate.
Mas sabemos que há muitos que não conseguiram presentear, simplesmente porque não tiveram dinheiro para realizar esta façanha, que é tão simples para aqueles que podem, e tão difícil para aqueles que não tem dinheiro, nem para a sobrevivência básica, já que temos tanto desemprego no pais e uma injusta distribuição de rendas.
Sim, vocês vão dizer que sempre há um jeitinho, que todo mundo compra, nem que seja um ovinho, que a Páscoa é festa de celebração cristã, que o ovo é secundário, mas gente... criança se deleita com isso, com os presentinhos seja de Natal, dia da Criança ou Páscoa... já é uma tradição e então aquele menino que nada ganhou, que até entende o porquê, certamente vai abrigar em seu coraçãozinho a tristeza de não estar degustando um chocolate, igual às outras crianças. Talvez lá no fundo dele mesmo se pergunte: O que eu fiz para merecer isto?
Porque comigo tudo é diferente?
Porque não posso ser igual aos outros?
E as perguntas vão fazendo marcas em seu ser, pois não encontra respostas, por mais que procure em torno de si, uma vez que depende integralmente das condições em que vive, muitas vezes terríveis e massacrantes.
Mas ele sempre sobrevive, de uma maneira ou de outra, seja tornando-se um cidadão capaz ou ainda trilhando os caminhos do ilícito, das contravenções e da violência, porquanto dependendo do aprendizado do percurso, fará suas escolhas conforme seu livre arbítrio e as oportunidades que surgirem, quem sabe sorte ou destino, quem sabe missão pré-escolhida, mas de toda forma terá que ser resiliente o suficiente para crescer e batalhar por um lugar ao sol e poder ser feliz como qualquer criatura deste mundão de Deus.
Que Jesus Cristo ressuscite em nossos corações, o desejo de fazer com que o espírito de fraternidade para com os menos favorecidos, se torne uma alavanca para motivá-los ao estudo e ao trabalho que dignifica o homem.
 
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O ENCONTRO
Guida Linhares 

 Andava cansada a Deusa da Sabedoria, em tempos tão modernos, em que cada um cuidava de ter cada vez mais, sentir-se cada vez melhor, acumular riquezas materiais e deitar-se serenamente sem refletir sobre o homem e suas circunstâncias. Tão esgotada de filosofar em vão, sentou-se à beira de uma estrada e viu surgir uma mulher, que trazia em si mesma as marcas da vida, mas que nada nem ninguém a fizeram parar de buscar a sabedoria. Assim quando as duas se entreolharam, reconheceram-se imediatamente.
A mulher trazia uma bagagem de escritos, frutos de suas observações e vivências, e a Sabedoria desvela-se demais em todos os aspectos que movem o ser humano, quando eles são colocados na balança que equilibra razão e emoção. Assim a Deusa tirou o véu da balança e pediu à mulher que nela depositasse suas emoções e sentimentos, e a mulher surpreendida assim o fez.
Cuidadosamente foi separando toda a razão que a levou a agir desta ou daquela forma, assim como com sentimentos profundos, foi colocando todos aqueles em que agiu sob a égide da emoção pura . Os pratos da balança subiam e desciam à medida que cada sentimento era acrescentado, ora razão, ora emoção, até que toda a sua bagagem se completasse.
E neste momento, ambas se entreolharam de novo. A Deusa da Sabedoria, sorriu satisfeita. Não foi em vão o seu ensinamento. Não foi em vão, tanto tempo tentando mostrar a homens e mulheres, que todos podem ser melhores, apenas pelo fato de refletir sobre as coisas da vida, ouvindo a vóz interior e tendo como juiz a própria consciência.
A mulher surpresa via o perfeito equilíbrio da sua balança. Não imaginara que suas verdades não teriam sido meros palpites, mas sim a vóz da sua sabedoria interior. Não imaginara que ser alguem como era, representava não ser aquilo que os outros queriam que ela fosse, mas sim o que ela era, e sempre foi, a senhora do seu querer, receptiva apenas ao querer de Deus.
E mesmo ao se declarar inocente em suas conclusões, esta grande mulher trouxe aos nossos olhos, um ensinamento: não adianta discutir o "sexo dos anjos" se somos controvertidos, mas se olharmos tudo com a simplicidade da alma,conseguiremos perceber que a cada momento, encontraremos uma nova maneira de entender o ser humano, por ser tão multifacetado quando as estrelas do infinito.

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Encontro virtual
Guida Linhares

      Era um dia como outro qualquer, mas chovia muito e resolvi ficar em casa. Já havia lido o jornal, e um sentimento de impotência diante de tanta violência e insensatez tomou conta e precisei de um tempo para recuperar a paz de espírito. Coloquei uma música, Gonzaguinha - viver e não ter a vergonha de ser feliz; amar e amar e amar...ser da vida um eterno aprendiz...tão bom ouvir isso. Preparei um chá de melissa com flor de laranjeira (da Otker uma delícia...) e liguei o computador. Afinal navegar causa muito prazer, não só por me levar a escrever, como também a encontrar os amigos virtuais, alguns reais e também os filhos que não estão comigo, e assim o MSN cumpre o papel de agregador e telefone sem tarifa...rsrsrs
       Abri a caixa, baixei os mails, respondi alguns, participei de umas cirandas, mas fui chamada no MSN e atendi, em um dedo de prosa com amiga muito querida, lá das bandas capixabas. A fim de enviar um arquivo, entrei online, pois a versão que uso nem precisa para o bate papo normal, e enquanto isso, uma nova janela se abriu e um outro encontro virtual me fez aprender uma nova imagem do que seja liberdade.
        Conheço este amigo poeta talentoso há tempos, mas nunca havia conversado com ele, e de repente surge a oportunidade. Passados os momentos iniciais da conversa, ele me falou sobre o seu paraíso particular, o seu quarto onde vive todos os seus momentos e nele encontra liberdade e felicidade.
       Perguntei porque não saia pra passear, e ele me contou que vivia numa cadeira de rodas, e que digitava com apenas um dedo, que era o único que se movimentava de seu atrofiado corpo, mas que mesmo assim ele fazia a própria barba, munido de uma vareta, acendia e apagava a luz do quarto, e tb conseguia comer sozinho, mas ainda era dependente da mãe idosa em muitas coisas.
      Pois é, nem preciso dizer que me coloquei no lugar dele e senti que eu nem saberia como viver numa situação assim, há quase trinta anos preso a uma cadeira de rodas. Talvez todos os meus valores e sentimentos fossem completamente diferentes do que são, do jeito como sou. Mas ele, um guerreiro lutador me disse com todas as letras, que é feliz dentro do paraíso que construiu ao longo desse tempo, e que nem precisaria de nenhum outro, seja na terra ou no céu e nele se sente liberto.

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