Sentimentos

Francisco Faustino

(Faustopoti)
 

(Declamado pela poeta brasileira

Lénya Terra)


Sentimentos que perturbam o ser humano...
O ódio, o amor... (Dor, que o torna insano).
A perda, a separação, o ultrage, a ingratidão,
A falsidade, a traição, o medo e o desengano.

Tristeza e felicidade, antagônicos sentimentos,
Paralelos tão estreitos, entre á alegria e o sofrimento,
Não é nenhum mistério, que entre esse paralelo,
Exista um grande hemisfério, que nos traz conhecimentos.

É uma grande incógnita, o estudo do ser...
Quisera compreender as criaturas de Deus,
Seres que matam os seus, mas não vivem isolados,
Cobiçam viver amados, e temem sempre o adeus.

São feitas de sentimentos essas meras criaturas,
Medem suas estaturas, apenas por seus tormentos,
Desperdiçam seus momentos e movem-se pela razão,
Mas obedecem á emoção, e perdem seus discernimentos.

Na verdade são essas coisas, que regem o ser humano...
Sentimentos desumanos, e vontades divinais,
Sonhos angelicais, duvidosas pretensões,
Á Deus, suas orações, suas almas, á satanás.

E assim vivem morrendo, entre a dor e o amor,
O prazer e o dissabor, a mentira e a verdade,
Na realidade, ser humano é seu tormento,
Vivem em fingimento na busca de felicidade.

Por faustopoti
 

***

 

Canção pra dois.

Violeiro, meu amigo, toca aí uma canção,
Desperta meu coração, com uma bela cantiga;
Avivai a minha vida, dar-me mais uma razão,
Tira-me da solidão, apazigua essa intriga.

Dedilha aí essas cordas, e entoa alguns acordes,
Vem á mim e me socorres, tirai-me desse torpor;
Violeiro de valor, és valente, e sei que podes,
Entregar por teus acordes, meus momentos de amor.

Apenas por um momento, -te suplico-, violeiro,
Fazei-me esse esmero, emprestai-me vossa toada,
Farei dela minha amada, dar-lhe-ei todo meu zelo,
E serei o teu companheiro, no desfrute dessa fada.

Violeiro, não se furtes... Divida ela comigo,
Toque-a ao meu ouvido, e ao pobre meu coração,
Fazei com que sua mão, não me deixe desprovido,
Atendei ao meu pedido: -toca aí uma canção.

Por faustopoti

 

***

Viajando por você

Ah, esse sussurro em meu ouvido...
Duvido que alguém o tenha ouvido como eu.
Esse cheiro de carmim, que se impregna em mim,
E entra em minhas entranhas.

Que coisa estranha...Essa que sinto.
Meu corpo em convulsão,

Arrebatando-me em direção ao teu leito.
Aconchegado ao teu peito viajo por caminhos,
Nunca dantes desbravados.
Sinto-me inebriado com seu odor.

Ah, essa brisa que sai de tua boca,
Me revelando coisas loucas, gelando minha face.

Carregando meus pensamentos por toda parte,
Ofegante como num calvagar alucinado,

Ah...Esse calor, que do seu corpo desnudo emana,
Queimado minha cama e fazendo arder de paixão
Acelerando meu coração, desfrutando teu sabor.
Tua voz, teu cheiro, teu calor...

Esse clima tão febril em todas as estações,
Teu suor misturado á tua seiva,
Facilitando o nosso balé.
Nossa dança em um gostoso frenesi,

Ah...Seu corpo inerte, respiração ofegante,
Esse ritmo alucinante...

Que viagem maluca percorri em um instante,
Por todos os caminhos do amor,
Agora seu cheiro, sua voz, e seu calor,
Me chama para retomar os mesmos caminhos...

Por fausto (poti)

 

***

 

Luz aos meus olhos

Tantos são os mistérios, que regem o mundo,
Abismos profundos, tantos hemisférios,
Desertos etéreos, mares moribundos,
Todos oriundos, de vales estéreos.

Bichos que nadam em areais salgados,
Morrem afogados em extensos milharais,
Tantos animais que ditam as regras,
Mas que não se apegam aos seus ideais.

Poetas profetas, profetas poetas,
Filhas e netas, netas e filhas,
Percorrem as trilhas, veredas trilhadas,
E deixam nas estradas, filhos em pilhas.

Serpentes que voam em mares revoltos,
Gritos que ecoam por choros envoltos,
Perdas de vidas, alegrias malditas,
Sempre revidam a dor dos abortos.

Pais que criam suas crias á punho,
Seus próprios rascunhos, reflexo perfeito.
Batem no peito e diz: - isso é meu!
- Ó fariseu teu penar é bem feito.

São esses mistérios que me causam espanto,
Por eles, meu pranto derramo abundante,
A cada instante procuro saber,
Queria entender todos esses mistérios,
Quais são os impérios que querem conceber.

Por faustopoti

 

***

 

Aos meus olhos


Mingua lua invejosa, reluzente como o quê,
Mesmo assim majestosa, eu não amo a você,
Meu bem querer é mais linda, ela é resplendorosa,
Cheira bem mais que a rosa, e alimenta meu prazer.

E tu, sol, depõe teu raio, no infinito horizonte,
Eu não serei teu lacaio, minha alma é desaponte,
Minha amada é estonteante, e seu amor eu não traio,
Os seus braços, meu balaio, hoje, melhor que ontem.

Oh azulado oceano, portentoso e soberbo,
Terás o meu abandono, de tuas águas não bebo,
Felicidade, percebo, ao beber á minha amada,
Trarei-a saciada, pois em seus braços me embebo.

Sopra zéfiro teus zelos, vai carregando teu olor,
Agita os belos cabelos que orna ao meu amor,
Porém sopra no alvor, pois eu respiro paixão,
E na minha respiração, é pra ela meu louvor.

Nos céus não há de existir, anjos assim tão belos,
Não haverá paralelos, nem hoje, nem no porvir,
Em minha amada senti, minha maior sensação,
Aos olhos do meu coração, ninguém mais bela, eu vi.


Por fausto poti

 

***

 

Dois mil e tantos

São mais de dois mil, os anos,
E os mesmos sonhos esperados...
A festança de todos profanos,
E a fé de todos desesperados.

Altar da ilusão da fartura,
Na transparente vitrine social,
Esquecem a lida de tão dura,
Voltívola razão estrutural.

E o pão que será repartido,
Na praça há de ser bazofiado,
Pois de veras estarás embaido,
Que na festa esqueces o fado.

Renovam-se no aniversario,
Do menino que ainda nasceu;
Mas perecem, no imaginário,
A finda noite que amanheceu.

E por fim, a ressaca da gula,
Deixará-te de mão laqueada.
Que teu presente não escapula,
E tua alma seja presenteada.

Por fausto poti
 

***


 

Marmelada dos amarelos.

No picadeiro da rua, da rua da cidade,
Na minha tenra idade...Foi acolá, que sorrir.
A cara estava pintada, pintada de amarelo,
E naquele amarelo, pintado no rijo marmelo,
Foi que'u sujei meu chinelo, na rua, que sucumbi.

A lona estava armada, a policia, camuflada,
Era grande a camada, dos amarelos, ali;
Ali, onde jazi... No picadeiro da rua.
Da cidade nua, pois as vestes que eram sua,
Tapou-me a cara na rua, e o sol, jamais eu vi.

Era eu, um amarelo, (mais verde, que amarelo),
Quando perdi meu chinelo, na rua, onde nasci.
E no palco onde cresci, tornei-me esverdeado,
-Pouco menos amarelado-, já que estava azulado,
Naquele teatro armado; marmelada que aboli.

O palco todo armado, sob a visão da armada,
Era tudo marmelada; (azul, verde e amarelo),
E quando perdi o chinelo, as visões foram fechadas,
As vidas, todas fachadas, tenras manhãs nubladas,
Devidamente dubladas... - A quem agora interpelo?

Azul-verde-amarelo, - que grande paralelo!

Por faustopoti.

 

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