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MEMÓRIA
GENÉTICA
(Uma
história verídica)
Ceres
Marylise
(declamada por Astir)
De
portas, janelas, varandas enormes,
um tal
casarão, de cômodos tantos,
propõe-me um pungente e triste
encontro
com o
que fui um dia, também ser humano,
mas
traste inútil, nos tempos de antanho.
Num
quarto imenso, lúgubre, escuro,
do fundo
da casa, perto dos currais,
estão
sepultados os mortos no tronco,
os
negros escravos, pobres, indefesos,
tão
brutalizados quanto os animais.
Próximo
à cozinha, meio apodrecido,
ainda
resiste um tronco com argolas:
grosso
pelourinho, cravado no chão
de terra
batida do que foi senzala,
guarida
de escravos, nos idos de outrora.
Por
longos instantes, ali eu reflito
e escuto
os lamentos dos meus ancestrais:
vieram
de longe arrastando negros,
arrastando índios, arrastando
brancos;
genes
milenares - trago os seus sinais.
No
silêncio do tempo, com voz alquebrada,
ressoa
mais forte, aquela mais triste...
delata a
presença de todo um passado
de dor,
inclemência, cruel, desumano
- do
negro que sofre e ainda resiste.
Quantas
espadas perfuraram os seus peitos?
Quantos
braseiros queimaram seus corpos sãos?
Quantos
chicotes rasgaram corpos inteiros?
Quanto
sangue jorrou forte e indefeso,
enriquecendo aos senhores e às nações?
Inconformada, infeliz, rio
como louca...
e parece
que ouço o zunir dos chicotes,
o
arrastar de correntes e infinitas
dores,
presentes na alma, na carne e
no sangue
-
memória genética: escrava e senhora!
NOTA:
O casarão colonial que se vê no filme
ABRIL DESPEDAÇADO, com o ator Rodrigo
Santoro, fez parte de minhas
adolescência e juventude. A fazenda
Santa Bárbara, município de
Caetité-BA, foi do Barão de Caetité e
com sucessivas posses, chegou a ser
parte de minha herança. Hoje, ela é
tombada pelo Patrimônio Histórico.
***
PENUMBRA
Ceres
Marylise
Penetram pelas frestas das cortinas,
sombras da tarde calma e sonolenta,
afagando devaneios nas retinas.
Chegam
às conchas de minhas mãos unidas,
outorgando-lhes carícias não
buscadas,
cobrindo os gestos com palavras
distraídas.
São
carícias que desatam pensamentos,
que
provocam deleites, desalentos,
verdadeiros, abstratos ou sonhados.
A dor
é certa, presente, irrevogável,
conseqüência ou não desta penumbra,
lugar
de encontro e desejos sufocados.
***
UM
BLUES NA MADRUGADA
Ceres
Marylise
Blues,
cujas notas adentram pela noite,
que
não sei aonde irão, mas sei que
estão,
invadindo meus secretos labirintos,
devassando toda a minha emoção.
Seu
som é tão pesado e tão intenso,
e no
entanto, só audível aos corações
que
não endureceram os sentimentos,
nas
incessantes derivas dos caminhos.
Densas
notas deste blues por onde bailam
os
fantasmas encharcados de New Orleans,
ressuscitando roucas vozes
soterradas,
nos revezes dos silêncios de
outrora.
Blues
que ensina a esquecer que a dor,
assim
como chegou, também se vai,
e
enquanto ressoarem suas notas,
paira
na noite uma canção de paz.
***
POEMA
INDEFINIDO
Ceres
Marylise
Empresta-me teu ombro, meu poema,
para um breve descanso nesta chuva
e que descalça eu possa te regar,
com esta água que desce mansa e
pura.
Já não sei se é a força destas
veias,
o verdadeiro pulsar de minha
história;
se confio nas letras que se trocam,
como se trocam as vivências na
memória.
Se eu te necessito e em ti me apóio,
desesperadamente eu te retenho
e a ti recorro numa urgência insone,
mesmo que saias triste e indefinido.
***
Permiti
silêncio e diálogo,
para encurtar
distâncias.
transpus as
terras e mares
nem sempre
feitos de glória.
e provei do
gosto amargo,
com suas
faces, disfarces.
me reviso a
cada instante,
SOU TODA
FORMA DE GUERRA
Ceres
Marylise
Sou tragédia
secular que assombra a humanidade,
Língua áspera
de areia que lambe o rosto da paz
E a primeira
a cuspir minha flecha de amazona.
Sou quem
disfarça ambições dos senhores
insensatos
E ecoa entre
as masmorras, cativas da
ignorância.
O mundo
inteiro escutou, o soar dos meus
tambores
E o céu,
muitos gemidos, sufocados nas
trincheiras.
Finquei em
cada nação a cor da minha bandeira
Deixando em
cada lugar só espanto e
cicatrizes,
Que
conheceram de perto minhas noites
sem fronteiras.
Lutei
contra todo acordo, disseminei
muitas dores.
Parindo todos os filhos, reguei
meu sangue na Terra.
E assim eu sigo amando, feliz a
cada conflito
Que
acontece nos campos, nas
cidades, nas famílias...
Sou toda
forma de guerra e cresço sem me
dar trégua.
***
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