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A
cabeça rodopia
Os pés deslizam no chão
Alça voo o coração
E
dançamos em estesia
Só tu e eu lá no cimo
O
mundo desapareceu
Estamos sozinhos no céu
Dos teus beijos que vindimo
Sabe a uvas e a mosto
A
tua boca molhada
Sou tua fruta desejada
Tu o vinho que mais gosto
E
quando as luzes se apagam
Já fechadas as janelas
No escuro vemos estrelas
E
nossos corpos se afagam
Dás-me o trevo do amor
Rei das flores mais bonitas
E
o meu desejo excitas
Cantando um fado menor
E mais um copo bebemos
Corpos suados em rima
Mãos abaixo, mãos acima
Nessa dança nos perdemos
Fecha o bar o taberneiro
Só nós e as pedras da rua
Versos miamos à lua
Como gatos em Janeiro
Só quando o Sol curioso
Chega a espreitar nosso enlevo
Vamos desfolhar o trevo
No nosso ninho amoroso
Depois aconchegadinhos
O
desejo extenuado
Virados pró mesmo lado
Dormimos feitos anjinhos
13/01/2008

SONETO AO MEU NAMORADO
Carmo Vasconcelos
Jamais pensei voltar a ser amada
Nem amar eu com tal intensidade
Dum grande amor vivia na saudade
E
de tédio minh’alma era assombrada
Chegaste, meu amor, e eu me extasio
Perante o sacro milagre inesperado
Que te trouxe a mim como anjo alado
Calor d’asa que agasalhou meu frio
És terno e gentil, meu bem-amado
Mente sã, coração apaixonado
Poeta altivo que em versos me dás cor
Sem ti... Seria a poeta esmaecida
A
mulher de desejo desprovida
Não me deixes, por Deus, sem teu amor!
14 /Fevº/2008

CANTIGA PARA UM POETA
Carmo Vasconcelos
Meu plantador de versos rama
Raízes velhas em mim derrama
Deixa que aspire os galhos verdes
Que cioso guardas
No canteiro das madrugadas
Vem e me chama!
Pela manhã deixa que eu seja
Beijo de orvalho e terra fêmea…
Mas se eu não for o teu ensejo
Ponho mordaça no meu desejo
Fico calada, durmo num canto
Choro por ti do passado teu longo
pranto
Faço-me estátua, contemplação
Silêncio e sombra
E
ouvirei muda tuas revoltas de
desencanto
Se me quiseres
Musa que borda para ti a inspiração
Feita cigana troco-te a sina
Da pele mulher te dou o mel
E
feiticeira de maga tinta
Pinto-te trovas sobre o papel
Se me quiseres
Vem e me ensina
Quero ser nómada no teu deserto
Corpo de areia a fustigar-te com o meu
ardor
Oásis certo a céu aberto
Refrigério, fonte de amor
Abre um pretexto no teu contexto
E
arma a tenda com destemor
Faço-te a cama lisa e rasteira
De palha a esteira
Cheirando a flor
Serei o teu lençol de lua
Suave calma do anoitecer
E
de mansinho, brisa ligeira
Fecho-te os olhos meu bem-querer
Desnudo o corpo e em oferenda
De alma lavada faço-me tua!
Veja e ouça a gravação:
IO_MIRANDA-CARMO_VASCONCELOS

RECOLHIMENTO
Carmo Vasconcelos
Hoje sou aquela… a que sepulta
Palmas, louvores, risos, ironias
Quero santos ofícios, elegias
Abrir a sacra catedral oculta
Quero sinos tocando a rebate
Eco de meus lamuriosos ais
Quero beber as mágoas dos mortais
Alimentar a dor que em mim se abate
Ser surda a qualquer hino de alegria
Ajoelhar em réquiem de finados
Dar campa aos meus amantes desamados
Carpir a vida breve e fugidia
Pôr luto pela morta felicidade
E
recolher-me em ti… nesta saudade

UTOPIA
Carmo Vasconcelos
Ai de quem não alberga um ideal
e
não sabe atear do fogo a chama
de quem da vida nada mais reclama
do que a mera verdade temporal
Ai de quem escorraça a utopia
esvaziando-se de vida aos poucos
dos que nunca foram chamados loucos
porque não deram azo à fantasia
Ai de quem não consegue ver estrelas
e
em redor tudo o que vê é lama
de quem por baixo seu olhar derrama
e
não aponta ao alto para vê-las
Ai de quem não consegue vislumbrar
a
comédia escondida sob o drama
de quem nessa cegueira chora e brama
sofrendo as suas penas a dobrar
Bendito o que abraçando a utopia
ousar distribuir a sua luz
pois desse se dirá um certo dia
que mais leve tornou a nossa cruz
In X Antologia da Associação
Portuguesa de Poetas – Ano 2002

SEM LUTOS
Carmo Vasconcelos
De vós, amados, quero ao vos deixar
Risos, poemas, flores, melodias
Viçosas cores de felizes dias
E
sem lutos minh’alma há-de cantar
E
lá do alto há-de abençoar-vos
Poeira do que em mim já foi matéria
E
que subindo à morada etérea
Um dia em nuvem há-de visitar-vos
Se alguns de vós eu vir inda chorosos
Desfeita em chuva os olhos lavarei
Aos que em saudade trazem brilho fosco
E
pra secar os olhos lacrimosos
Ao sol brilhante os raios roubarei
Que amar-vos não será chorar convosco


Arte & Design:
SOM: SE EU NÃO TE AMASSE TANTO ASSIM
Roberto e Ivete
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