CISMO...
António Castel-Branco
Declamado pela poeta portuguesa Carmo
Vasconcelos.
Som de fundo:
Nocturno Nº 2 de Chopin
Cismo...
Minha mente se liberta
das grilhetas do meu corpo
e de pronto se eleva,
buscando sem razão
o alvo desta paixão
que me inunda o coração.
Cismo...
E meu ser se empertiga
num afã de encontrar
a emoção da partilha,
evitando o abismo
que se abre nessa ilha
de profundas emoções .
Cismo...
Vogando nesse leito
de águas cristalinas
ou alvas de pureza,
qual almas que irradiam
brilhantes auras que aliam
sabedoria e beleza.
Cismo...
Com o sublime instante
em que te faço minha,
e, qual gentil amante,
te torno radiante,
o corpo de amor contente,
coração de ardor fremente.
Cismo...
Com a felicidade suprema,
o infinito momento
em que domino o vento...
em que a paisagem presente
no tempo se suspende,
congelando o firmamento.
Sintra, 18/01/2005
***
SONS DE MULHER
António Castel-Branco
Lenta e paulatinamente se vai enchendo
de sons
arrancados das entranhas dos
instrumentos tocados
por dedos que soltam gemidos e acordes
em mil tons,
pairando sofridos em bandos ao vento
já lançados.
Abre-se o céu e aumenta a cadência, o
ritmo da vida,
lágrimas de sons tombam em melodias
apuradas,
molhando os sentidos, embalando a
canção já parida,
lavando a alma em chuva de som sempre
afinada.
E ascende alegre, em toda a sua graça
e esplendor,
a rainha dos céus, sinfonia completa
de amor,
de coração amplo, aberto e tocado por
um só ser,
plena de força... sonata nocturna
feita sem dor.
E em cânone crescente de ritmos e sons
de viver
revela seu tom, nos mostra seu dom,
que é o de MULHER.
Sintra, 08/03/2006
Poema dedicado a esse prodígio
da natureza, que é sempre capaz de se
erguer de novo mais pujante - a
Mulher!
E, especialmente, àquela que, além de
partilhar a minha vida, ainda veste
meus escritos de forma maravilhosa.
António Castel-Branco
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MIL OLHARES
António Castel-Branco
Sinuosa se desloca,
ciente dos mil olhares
que a seguem pelos lugares.
Vai correndo o povoado
com seu jeito decidido,
cobrando o que lhe é devido.
De queixo bem levantado,
um passo bem estugado,
parece que se dá ares,
ciente dos mil olhares.
Porte altivo e sobranceiro,
olhar duro como o aço,
ancas gingando a compasso,
buscando novo parceiro
sisudo e altaneiro?
Apenas com seus vagares
ciente dos mil olhares.
De semblante aliviado
e esboço de um sorriso,
espelho de algum siso.
Na penumbra o ser amado
transforma em hino o seu fado,
andando pelos lugares
ciente dos mil olhares.
Sintra, 10/01/2006
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MOMENTOS DA VIDA
António Castel-Branco
Há momentos na vida que nos marcam,
que marcam fundo a alma para sempre,
são momentos de dor ferindo a gente
ou instantes de amor que não se
apagam.
São emoções que duram e nos afagam,
lembranças que flutuam com o vento
que para longe varre a dor... e o
tempo
só nos traz as saudades que se
agarram.
São momentos fugazes mas sentidos
são instantes eternos, olvidados
jamais. Moldam a vida, já feridos,
pela paixão que queima, e, prostrados
pela esp'rança que flúi em cada
momento
que a vida vai marcar. Temos o tempo.
Sintra, 21/05/2006
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SER POETA
António Castel-Branco
Ser poeta é ver a vida com sentido
e sentir na alma as emoções alheias,
ter na palavra o remoque devido
e de sentimentos as frases cheias.
É sofrer como pássaro ferido,
gritar perante coisas más e feias...
cantar alegre o fado já vivido
qual flâmula altaneira nas ameias.
Ser poeta é ser capaz de enaltecer
a vida, os feitos, homens, emoções,
de tal forma que se possa viver
nas palavras, nas frases, nas paixões
cantadas em verso pelo querer
penetrar fundo em nossos corações.
António Castel-Branco
19/09/2005
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TEMPO
António Castel-Branco
Ontem…
Nossas mãos se tocaram…
Por acaso.
Nossos olhares se cruzaram…
E se penetraram…
Faíscas chisparam…
Todos se eclipsaram…
Nossos lábios se beijaram
E nossos corpos se colaram…
Nossos fluidos se misturaram
E nunca mais desgrudaram.
Hoje…
Nossas vidas partilhamos…
As mãos sempre damos…
De amor rejubilamos…
De paixão nos alimentamos.
Um ao outro respeitamos…
Sabemos onde tocamos…
Com amor nos beijamos.
Amanhã…
De mãos dadas a passear…
Os momentos a saborear…
A nossa vida a recordar…
As mãos a acariciar…
O mundo a calcorrear…
Não a correr… a andar…
Serenos, a beijar…
Sem nunca nos
Deixarmos de amar.
Sintra, 16/08/2005
à minha mulher, com amor...