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O
CAPATAZ
Adelina Velho da Palma
Gostas demasiado de quem és
tens-te em alto conceito e gabarito
imbuído que estás do requisito
de um comandante ao leme no convés!...
P’ra todos olhas d’alto e de viés
semeando oposição e conflito,
nunca perdes de vista o maior fito
de juntar triunfos ao palmarés!...
Afloras os assuntos de resvés
a não ser que constituam delito
d’alguém a quem queres calcar aos
pés!...
Aos teus proventos vives
circunscrito!...
Não pasmes se ao sofreres um revés
te brindem com um sólido manguito!...

BULIMIA
Adelina Velho da Palma
Devora tostas, bolachas e pão,
ataca a fundo a manteiga e o queijo,
ingurgita ao som de gorgolejo
bebidas doces com gás à pressão...
Nem mastiga, tal a sofreguidão
de saciar da gula o vil ensejo,
e só abranda este ofegante arquejo
quando se sente em total repleção...
Mas a calma mal dura um breve instante
pois recusa sofrer o aviltante
rescaldo do excesso cometido...
E usando um método radical
provoca em si a rejeição total
do que foi tão vorazmente engolido!...

O CONGRESSO DE IT
Adelina Velho da Palma
Três pavilhões com bancas e cartazes,
auditórios, apresentações,
fornecedores e demonstrações,
consultores aptos e eficazes!...
Todos se apregoam os mais capazes,
oferecendo as melhores soluções,
prometendo nas implementações
reduzir custos, emagrecer fases...
Congressistas vagueiam distraídos,
bebem cafés, saúdam conhecidos,
arrecadam Tshirts e canetas...
No final pouco ou nada se aprendeu,
mas p’ra muitos foi um dia no céu,
sem reuniões, nem prazos, nem metas...

COLESTEROL
Adelina Velho da Palma
Manteiga, banha, sebo de carneiro
óleo de fritar velho e requentado
molho de carne frio e coalhado
toucinho mais chouriço e farinheiro
torresmo carbonizado e grosseiro
azeite rançoso e adulterado
incorporam o quimo mastigado
engrossando o sangue do hospedeiro...
Chanfana, sarrabulho e cabidela
geram gordura verde e amarela
que se transforma em pedras na
vesícula...
Untos viscosos flúem na corrente
aderindo às paredes lentamente
construindo intransponível cutícula...

OS CHAKRAS
Adelina Velho da Palma
O vermelho é a terra, a protecção,
a raiz que sustém o esqueleto,
o laranja é a água, a sensação,
o sexo conducente ao ser projecto...
Amarelo, fogo, libertação,
controlo do poder e intelecto,
o verde é o ar, a percepção,
oferecimento de amor completo...
O azul é éter, intuição,
abundância e manifestação...
O anil, som do espiritual,
alma no nirvana apaziguante...
O violeta, luz irradiante,
fusão e consciência universal!.

A DECADÊNCIA
Adelina Velho da Palma
Ter de aceitar, meu Deus, a
decadência,
a mão que treme, o olho que não vê,
o cansaço sem como nem porquê,
a dor, a fealdade, a macilência…
Ter de aceitar o que a inteligência
receia e escamoteia mas prevê,
ter de aceitar que se está à mercê
de um fatal poder sem complacência…
Ter de encarar a mais dura verdade
com armas e bagagens de menina
colocada ante uma enormidade…
E mesmo assim zombar da guilhotina,
de tudo extrair felicidade
porque a vida é dádiva divina!...

ESTA DOR
Adelina Velho da Palma
Dói-me esta dor que dói tão
dolorida,
dói-me esta dor que dói atormentada,
feita de dor somente, amargurada,
como uma dor de muita dor sentida...
É uma dor só de dor preenchida,
é uma dor só com dor misturada,
plena de dor e cheia de mais nada
a não ser a própria dor assumida...
Uma tal dor é permanente ferida
que a mesma dor retalha magoada
p’ra conservar a dor bem padecida...
É uma dor que quero bem guardada...
Apesar de me destroçar a vida
só por ela permaneço acordada!...

A EXTRAVAGÂNCIA
Adelina Velho da Palma
Gosto de ti - mas quero-te à
distância
Fora do Tempo e Espaço que me
assiste
Na dimensão em que o amor resiste
E tudo o resto não tem
importância...
Gosto de ti - mas noutra
circunstância
Alheia a toda a memória triste
Onde as feridas dos golpes que
desferiste
Cicatrizaram em primeira
instância...
Gosto de ti - num limbo sem
substância
Como ideia com lastro que persiste
De um sonho acalentado na
infância...
Amo-te - mas meu amor destruíste
Por isso agora eu vivo a
extravagância
De um sentimento amar que não
existe!...


Arte & Design:
SOM:
Kenny G - What a wonderful world |