JOÃO CABRAL DE MELO NETO

(DECLAMAÇÃO NA VOZ DO POETA - A Educação Pela Pedra)

 

JOÃO CABRAL DE MELO NETO


Trabalho e pesquisa de Mercêdes Pordeus


João Cabral queria descansar no Alto do Trapuá
JAMILDO MELO

O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, morto aos 79 anos, há um mês, amava tanto a sua terra natal que gostaria de ser enterrado no alto da Serra do Engenho Trapuá, em Tracunhaém, a 60 km de Recife. O próprio poeta manifestou o desejo por escrito em 22 de abril de 1968, em carta remetida da Espanha ao dono do Engenho, o conterrâneo e amigo, João da Costa Azevedo, falecido em 1985. João Cabral tinha então 48 anos de vida,
Na correspondência enviada a título de agradecimento pela permissão pela permissão que recebeu para ser enterrado na esplanada do alto do Engenho Trapuá. , o poeta explica os motivos do pleito com a revelação de sua paixão pela beleza da Zona da Mata.
"Considero um privilégio para qualquer pernambucano ser sepultado em uma posição daquelas de onde se tem a impressão de descobrir toda a paisagem pernambucana", escreve o poeta. "No meu caso em particular, de pernambucano e escritor, esse privilégio é ainda maior, pois me permitirá ser enterrado no preciso limite entre duas zonas do nosso Estado que marcaram determinantemente minha formação e são paisagens freqüentes em meus livros".
Vista desta ótica do forasteiro, a terra que encantou os olhos do poeta fica no alto de uma colina, cercada por um clima bucólico. A pequena igrejinha instalada no alto da serra, apesar do estado precário de conservação é uma evocação à poesia, O sino da capela traz gravados os nomes João e Lourdes. A igreja foi inaugurada em maio de1950.
O poeta João Cabral havia recebido o aviso da aceitação do seu insólito pedido em uma carta assinada por Costa Azevedo, um mês antes, em 12 de março de 1968. "O compromisso é irreversível", diz o industrial na carta enviada ao diplomata, comunicando oficialmente que havia concordado com o pedido. "Pode desde agora V. Excia considerar seu o local que ai no Alto da Serra lhe receberá generosamente, na eventualidade do seu falecimento", acrescenta.
O pedido de permissão feito por João Cabral foi intermediado pela sua amiga e parente Maria Helena Cabral da Costa, casada com o primo Túlio Cabral da Costa, casada com o primo, falecido em outubro do ano passado. Maria Helena era amiga pessoal da primeira mulher do poeta, Estela. Túlio era um dos membros da família que controla a Usina Pumaty. O outro primo de João Cabral e irmão de Túlio, Romero Cabral da Costa, ex-ministro da Agricultura no governo Jânio Quadros, em 1961, empregou o diplomata pernambucano como chefe de gabinete em sua pasta. Cabral era agregado aos quadros do Itamaraty desde 45.
PALAVRA DE HONRA – A promessa feita ao poeta João Cabral poderia, no entanto, ter sido quebrada com a venda do engenho, em 1974. Os homens de antigamente tinham palavra, felizmente. O engenho Trapuá - comprado por João da Costa ao tio Olintho de Souza Azevedo – foi vendido em novembro daquele ano ap grupo Petribu, mas o usuário João Costa Azevedo foi tão fiel à promessa que, em carta assinada em 13 de novembro de 1974, apelou ao amigo e empresário Paulo Petribu para que mantivesse a particularidade, informando que havia esquecido de mencionar o compromisso antes da venda,
"O João Cabral é um acadêmico, um imortal, uma figura hoje do maior relevo, a qual, como pernambucano honra a nossa terra", justificou. "Peço ao amigo que se enquadre nesse solene compromisso que assumi", apela João da Costa Azevedo.
O comprador das terras do Engenho Trapuá, o usineiro Paulo Petribu, mesmo frisando em tom humorado, não entender como o imortal se preocupava com uma questão tão terrena, concordou com a reserva do latifúndio para o poeta, numa carta datada de 06 de dezembro de 1974.
O caminho, portanto, continua aberto para que os restos mortais do poeta sejam transferidos para o Engenho Trapuá, desde que haja concordância da família. O menino João Cabral, como é sabido, cresceu perto dali, tendo passado a infância em engenhos de açúcar. Inicialmente em Poço de Aleixo, em São Lourenço da Mata. E posteriormente, nos Engenhos Pacoval e Dois Irmãos, em Moreno.
Atualmente, o corpo do poeta encontra-se no cemitério São João Baptista, no Rio de Janeiro onde foi enterrado em 10 de outubro passado, depois de ter sido velado em cerimônia simples e discreta no Mausoléu dos Imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL). João Cabral morreu em 09 de outubro, de parada cardíaca, em sua casa, na Praia do Flamengo, Zona Sul do Rio.
Caso a família concorde um dia que os restos mortais sejam transferidos para lá, o poeta não será o primeiro a contar com tal privilégio. O tio João da Costa Azevedo, Olintho Ferreira de Souza Azevedo, falecido em 1944, já havia sido enterrado lá. Com a venda do engenho em 74 para o grupo Petribu, os restos mortais de Olintho Azevedo foram transferidos para o cemitério de Tracunhaém.

Poeta pode ganhar monumento em Trapuá
Mario Hélio

O poeta Marcus Accioly, presidente do Conselho Estadual de Cultura, vai propor amanhã, em reunião, que seja erguido um monumento a João Cabral de Melo Neto, no Alto do Trapuá.
"João me falou, quando visitamos juntos Tracunhaém, que nada há mais bonito do que a Várzea do Capibaribe, e era no Alto do Trapuá que ele queria ser enterrado.". diz Accioly. "Tanto que quando o engenho foi vendido definiu-se uma cláusula para que o lugar ficasse disponível para esse fim", relembra.
A idéia de Accioly é que o Conselho, o Governo do Estado e as Prefeituras de São Lourenço da Mata, Carpina e arredores se unam para uma homenagem ao poeta falecido há pouco mais de um mês. '"Essa vontade expressa por João de ser enterrado no Alto do Trapuá era o seu desejo de permanecer e ser lembrado em Pernambuco", opina. "Ele costumava dizer também que quando se aposentasse gostaria de morar em Carpina",afirma.
Accioly é candidato à vaga deixada por João Cabral na Academia Pernambucana de Letras. "Tento solidificar esta saudade de pedra concorrendo a vaga de Cabral na Academia, certo de que ele votaria em mim, como votou quando concorri a uma vaga na Academia Brasileira de Letras", diz.
O poeta Francisco Bandeira de Mello, que conviveu com Cabral de Melo Neto em Berna e outras cidades da Europa (diversos desses contatos registrou em fotografias por ele mesmo tiradas, e a ele Cabral dedicou Habitar o tempo, de A Educação Pela Pedra), também o levou a revisitar Pernambuco. Uma das peregrinações mais amplas foi a que realizaram juntos em 1984. "Foi uma belíssima viagem, na época do lançamento do livro Agreste, que tinha como título original Poemas Pernambucanos", informa. O segundo título (que seria o primeiro) terminou sendo o título de uma antologia sua patrocinada por usineiros. Curiosamente, entre todos os vinte livros publicados por João Cabral de Melo Neto, somente três não são dedicados a ninguém: O Rio, Morte e Vida Severina e Agrestes.
Por uma semana inteira os poetas visitaram cidades como Carpina, Caruaru, Taquaritinga, Garanhuns, Pesqueira, Serra Talhada. "Na última vez em que ele esteve aqui há cinco anos, perguntou se eu topava de novo fazer uma viagem daquelas", lembra-se Bandeira de Mello.

ALÉM DA POESIA – Francisco Bandeira de Mello e Marcos Accioly eram os escritores de amizade mais íntima com João Cabral de Melo Neto.
"Conheci primeiro a obra, depois o homem", revela Accioly. "Há cerca de trinta anos foi o meu primeiro contato pessoal, na Universidade Católica de Pernambuco, num lançamento de livro; não imaginei que tempos depois faríamos um lançamento em conjunto na Livro 7".
Primeiro eu conheci o irmão dele, Evaldo, depois foi que passei a ter amizade com João Cabral. E convivemos em Genebra", diz Francisco Bandeira de Mello . "Lembro-me bem das nossas conversas a três: eu, João e Josué de Castro. Fizemos uma amizade muito grande".
Quem conheceu João Cabral intimamente, sabe que mesmo sendo uma pessoa irritável, era muito doce com os amigos. "Ele tinha gestos extremamente fraternais, como numa semana santa, em Berna em que me telefonou preocupado: - 'Neste feriado você sozinho? Pode ter uma febre, algum problema de saúde, venha para cá'. E eu fui num período de dois anos e meio em que nos encontrávamos todos os fins de semana".
"Foi o maior poeta vivo que eu conheci", define Marcos Accioly. "Se não fosse João Cabral, todos nós teríamos perdido o bonde do Modernismo, como costumava dizer Pessoa de Moraes. A poesia foi para a minha geração como uma espécie de rede de malha, onde os poetas só continuavam vivos se a conseguissem romper."
Talvez o mais discreto de todos os autores de mérito em Pernambuco, Francisco Bandeira de Mello não ficou imune ao impacto estético de João Cabral. "Ele teve sobre mim influência positiva e negativa. Desta última é preciso dizer que passei muitos anos sem escrever por causa dele", confessa. É que muita gente andou imitando Cabral e eu não queria fazer isso", explica.
"Há uma poesia no Brasil ante e depois de Cabral; parodiando o título de um dos seus livros – foi para a literatura brasileira mais que duas águas, foi o divisor de águas", analisa Accioly. "A presença de Cabral chegava a ser tão forte sobre mim, que me tolhia", diz Bandeira de Mello.

Poeta amava a um outro Pernambuco

É do tempo que viveu em Berna que resultou um dos raros textos em que a temática romântica (embora não o modo) parece ter movido João Cabral de Melo Neto. Saudades de Berna é um dos poemas de Museu de Tudo, e um dos seus textos mais curtos. "Onde jamais reencontrar/ a submissa ambiência suíça?/onde outra vez reencontrar/ a insuíça voz submissa?"
Das centenas de poemas que escreveu somente um deu prazer a João Cabral de Melo Neto. Foi aquele que escreveu sobre o Rio Capibaribe, não O Cão Sem Plumas mas em que o rio se escreve, rio abaixo, rio acima, o rio. "O Rio, ele me dizia se o único que não doeu escrever", revela o poeta Marcus Accioly. 'Ele costumava dizer que não havia conquistado nenhuma mulher com poesia. E eu dizia a ele: nisto João, somos diferentes, eu só conquistei com os meus poemas, e às vezes também com os seus."
É um texto em primeira pessoa. Mas nada de lirismo. É o próprio rio quem fala. Poema narrativo e didático de um radical anti-romântico. "Uma vez, em Genebra, ele leu uns poemas que publiquei em O Diário de Notícias, e comparou-os a Eliot; mas tempos adiante quando mostrei a ele uns sonetos, percebi que ele ficou surpreso e com certo desapontamento", conta Bandeira de Mello. "Você agora está na linha de Pedro Ivo, perguntou-me".
Ledo Ivo – a quem dedicou uma parte de Psicologia da Composição e todo O Museu de Tudo – foi amigo de Academia de Letras. Mas a amizade entre eles remontava a um período bem mais modesto. A de quando ambos, poetas iniciantes, lançados por Vicente do Rego Monteiro no I Congresso de Poesia do Recife em 1941. O congresso foi duramente atacado por jornalistas como Mário Melo (o mesmo que promoveu campanha acérrima contra um busto em homenagem a Manuel Bandeira, ainda vivo).
É desse período de formação no Recife que o poeta parecia guardar a melhor memória. Foi nas conversas com Willy Lewin, e não nos bancos do Colégio Marista (atacado num texto impiedoso), que ele aprendeu a gostar de poesia. Costumava dizer que Lewin e Cardozo tinham sido seus cursos superiores. "Ele tinha um certo complexo de não possuir título universitário", conta Accioly, que se empenhou para que as universidades federais do Rio Grande do Norte e de Pernambuco concedessem – como o fizeram – o título de Doutor Honoris Causa.
"Nenhum poeta cantou mais e melhor Pernambuco, era quase uma obsessão que ele tinha por sua terra", diz Accioly. "Uma vez o vi sair de um restaurante no interior, depois de haver pedido uma bebida, porque a arquitetura do prédio tinha sido descaracterizada com o uso de basculante", lembra-se Bandeira de Mello.
Talvez no seu desejo de inumação procurasse reencontrar João Cabral de Melo Neto na natureza um Pernambuco que não existe mais na cultura.
Que não existia já na década de 60, quando morreu Manuel Bandeira. Que começou a deixar de existir no começo do século, com o seu pobre urbanismo, denunciado e criticado por Joaquim Cardozo, que também cantou Pernambuco morto. Embora sonhasse em ser enterrado no seu Estado natal, João Cabral tinha consciência de que isto não aconteceria jamais. Aos melhores em Pernambuco restaram sempre as opções da morte e do exílio. Sobre esse tal "retorno nativo" o próprio poeta falou um texto em inglês, e é a melhor crítica e resposta:

Como já não poderá dar-se
a volta a casa do nativo
que acabará num chão sulino
onde muito pouco assistiu,

para fingir a volta a casa
desenrola esse carretel
que é quase de um fio de estopa
(desenrolando vira mel).

Em quase tudo de que escreve,
como se lá ainda estivesse
há um Pernambuco que nenhum
pernambucano reconhece

Quando seu discurso é esse espaço
de que fala, de longe e de velho,
o seu é um discurso arqueológico
que não está nem em Mário Melo

O Pernambuco de seu bolso
(que é onde vai a idéia de céu)
Como um cão no bolso, é distinto
Do que vê quem com o conviveu:

É um falar em fotografia
a quem o vive no cinema;
mesmo que tudo esteja igual
a voz tem cheiro de alfazema.

Assim, é possível de dar-se
a volta a casa do nativo.
Não acha a casa nem a rua
e quem não morreu, dos amigos,

Amadureceu noutros sóis
não fala na mesma língua
e estranha que ele estranhe a esquina
em que construíram tal desastre".

 

JORNAL DO COMMERCIO
Especial
Caderno C 3
15 de novembro de 1999

Transcrito por Mercêdes Pordeus

 

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Cabral em Pernambuco
Francisco Bandeira de Mello
Academia Pernambucana de Letras

Sempre me surpreendeu constatar, ainda que nos nossos dias, a presença visceralmente viva dos poetas: e não deixa de ser espantoso que, em nossos tempos considerados excessivamente pragmáticos, existam pessoas que façam poesia, existam pessoas que leiam poesia, existam pessoas e entidades dispostas a reverenciar com, com essa ou aquela distinção, aqueles que fazem poesia. Assim, na réstia desta homenagem de hoje, que prestamos a João Cabral, podemos reter como um dos símbolos centrais, do resistente partido da poesia – com sua força mágica por entre máquinas e chaminés e guichês de banco ou o (às vezes ilusório) movimento de massa nos discursos políticos.
Poesia, fundamento de tudo. Poesia, pois com sua força mítica a sobreviver e a nos fazer viver, como uma flor tenra e eterna, necessária, plena de modernidade, sempre a insuflar de boa seiva a vida exausta de falsos pragmatismos. Poesia, pois, "fundamento do ser mediante a palavra", fundamento de um mundo que se desenvolve humanamente preocupado não apenas com o ter-mais e sim com o ser-mais, com o mais-ser.
Dentro dessa configuração mítica, em nosso tempo brasileiro, ressalta o nome (quase nume) de João Cabral de Melo Neto, cuja obra poética se desdobra, verdadeiramente, numa ética exemplar – numa poesia que se nucleariza uma reflexão sobre a própria poesia, indo ao centro da linguagem, ao mesmo tempo em que se abre, cirurgicamente, sobre os duros problemas sociais do homem e do mundo concretos. Exemplo de rigor máximo em nossa língua brasileira, Cabral era (é) um fabricante de protótipos, um poeta para poetas, criando uma obra pacientemente a contrapelo, laboriosamente depurando-a ("com mil intermináveis lixas") das impurezas da linguagem, cortando-a "de tudo que não é faca", buscando-a "no núcleo do núcleo do seu núcleo", como uma faca só lâmina. Porém, apesar das dificuldades que possa oferecer, a um nível mais exaustivo ou penetrante de leitura, sua poesia, sem concessão aos facilitários demagógicos),sem aromatizar sua flor/sem poetizar seu poema") está aberto em direção a todos e não só das elites; é uma busca totalizante do falar para e por todo um povo:seja o povo de Pernambuco ou da Andaluzia, como símbolo de todos os homens. Uma poesia criativamente crítica e até denúncia sobre o fundamento do ser, que reposa na linguagem; sobre o (esperamos) transitórios fundamentos das injustas estruturas sociaias.
Mas se poderíamos nos referir aqui a uma espécie de meta-reflexão, de tal modo estamos refletindo sobre nós mesmos (aludo a busca de modelos) ao falarmos sobre João Cabral de Melo Neto, uma das mais densas dicções da poesia contemporânea, em todo o mundo,podemos também reiterar que esta homenagem distingue a todos nós, tal o entanhamento da fala e sotaques cabralinos com a voz pernambucana - adocicada pelo sal das brisas marinhas, mesclada na luta dos canaviais ou no quase sileêncio do sertanejo, "incapaz de não se expressar em pedra".
Voz, portanto de um Pernambuco - qualquer que seja o seu timbre - irredento, rebelde, inconformado; de um Pernambuco diz Cabral, deitado apenas nos mapas como o mutilaram; de um pernambuco que com a poesia cabralina, é esse viver de nervos, esse "cristal de chama", essa coisa viva, irrepousada.
Obs.: Como não deixar de ser, a primeira Academia de Letras a homenagear o poeta João Cabral, foi a de Permanbuco - o que foi feito (dois dias depois do seu falecimento) no dia 11 de outubro. Na ocasião a convite do Presidente da Academia Pernambucana de Letras, Luiz Magalhães Melo, li um texto em homenagem a João, cuja primeira parte publico hoje no JC. Texto, aliás também incorporado á palestra sobre palestra de Cabral que fiz na segunda-feira última na Sobrames.

 

JORNAL DO COMMERCIO
14 DE NOVEMBRO DE 1999
Caderno OPINIÃO, PÁG 9

Transcrito por Mercêdes Pordeus

 

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João Cabral de Melo Neto
http://www.releituras.com/joaocabral_bio.asp


"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."
(Morte e Vida Severina)

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João Cabral de Melo Neto nasceu na cidade de Recife - PE, no dia 09 de janeiro de 1920, na rua da Jaqueira (depois Leonardo Cavalcanti), segundo filho de Luiz Antônio Cabral de Melo e de Carmem Carneiro-Leão Cabral de Melo. Primo, pelo lado paterno, de Manuel Bandeira e, pelo lado materno, de Gilberto Freyre. Passa a infância em engenhos de açúcar. Primeiro no Poço do Aleixo, em São Lourenço da Mata, e depois nos engenhos Pacoval e Dois Irmãos, no município de Moreno.
Em 1930, com a mudança da família para Recife, inicia o curso primário no Colégio Marista. João Cabral era um amante do futebol, tendo sido campeão juvenil pelo Santa Cruz Futebol Clube em 1935.
Foi na Associação Comercial de Pernambuco, em 1937, que obteve seu primeiro emprego, tendo depois trabalhado no Departamento de Estatística do Estado. Já com 18 anos, começa a freqüentar a roda literária do Café Lafayette, que se reúne em volta de Willy Lewin e do pintor Vicente do Rego Monteiro, que regressara de Paris por causa da guerra.
Em 1940 viaja com a família para o Rio de Janeiro, onde conhece Murilo Mendes. Esse o apresenta a Carlos Drummond de Andrade e ao círculo de intelectuais que se reunia no consultório de Jorge de Lima. No ano seguinte, participa do Congresso de Poesia do Recife, ocasião em que apresenta suas Considerações sobre o poeta dormindo.
1942 marca a publicação de seu primeiro livro, Pedra do Sono. Em novembro viaja, por terra, para o Rio de Janeiro. Convocado para servir à Força Expedicionária Brasileira (FEB), é dispensado por motivo de saúde. Mas permanece no Rio, sendo aprovado em concurso e nomeado Assistente de Seleção do DASP (Departamento de Administração do Serviço Público). Freqüenta, então, os intelectuais que se reuniam no Café Amarelinho e Café Vermelhinho, no Centro do Rio de Janeiro. Publica Os três mal-amados na Revista do Brasil.
O engenheiro é publicado em 1945, em edição custeada por Augusto Frederico Schmidt. Faz concurso para a carreira diplomática, para a qual é nomeado em dezembro. Começa a trabalhar em 1946, no Departamento Cultural do Itamaraty, depois no Departamento Político e, posteriormente, na comissão de Organismos Internacionais. Em fevereiro, casa-se com Stella Maria Barbosa de Oliveira, no Rio de Janeiro. Em dezembro, nasce seu primeiro filho, Rodrigo.
É removido, em 1947, para o Consulado Geral em Barcelona, como vice-cônsul. Adquire uma pequena tipografia artesanal, com a qual publica livros de poetas brasileiros e espanhóis. Nessa prensa manual imprime Psicologia da composição. Nos dois anos seguintes ganha dois filhos: Inês e Luiz, respectivamente. Residindo na Catalunha, escreve seu ensaio sobre Joan Miró, cujo estúdio freqüenta. Miró faz publicar o ensaio com texto em português, com suas primeiras gravuras em madeira.
Removido para o Consulado Geral em Londres, em 1950, publica O cão sem plumas. Dois anos depois retorna ao Brasil para responder por inquérito onde é acusado de subversão. Escreve o livro O rio, em 1953, com o qual recebe o Prêmio José de Anchieta do IV Centenário de São Paulo (em 1954). É colocado em disponibilidade pelo Itamaraty, sem rendimentos, enquanto responde ao inquérito, período em que trabalha como secretário de redação do Jornal A Vanguarda, dirigido por Joel Silveira. Arquivado o inquérito policial, a pedido do promotor público, vai para Pernambuco com a família. Lá, é recebido em sessão solene pela Câmara Municipal do Recife.
Em 1954 é convidado a participar do Congresso Internacional de Escritores, em São Paulo. Participa também do Congresso Brasileiro de Poesia, reunido na mesma época. A Editora Orfeu publica seus Poemas Reunidos. Reintegrado à carreira diplomática pelo Supremo Tribunal Federal, passa a trabalhar no Departamento Cultural do Itamaraty.
Duas alegrias em 1955: o nascimento de sua filha Isabel e o recebimento do Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. A Editora José Olympio publica, em 1956, Duas águas, volume que reúne seus livros anteriores e os inéditos: Morte e vida severina, Paisagens com figuras e Uma faca só lâmina. Removido para Barcelona, como cônsul adjunto, vai com a missão de fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias de Sevilha, onde passa a residir.
Em 1958 é removido para o Consulado Geral em Marselha. Recebe o prêmio de melhor autor no Festival de Teatro do Estudante, realizado no Recife. Publica em Lisboa seu livro Quaderna, em 1960. É removido para Madri, como primeiro secretário da embaixada. Publica, em Madri, Dois parlamentos.
Em 1961 é nomeado chefe de gabinete do ministro da Agricultura, Romero Cabral da Costa, e passa a residir em Brasília. Com o fim do governo Jânio Quadros, poucos meses depois, é removido outra vez para a embaixada em Madri. A Editora do Autor, de Rubem Braga e Fernando Sabino, publica Terceira feira, livro que reúne Quaderna, Dois parlamentos, ainda inéditos no Brasil, e um novo livro: Serial.
Com a mudança do consulado brasileiro de Cádiz para Sevilha, João Cabral muda-se para essa cidade, onde reside pela segunda vez. Continuando seu vai-e-vem pelo mundo, em 1964 é removido como conselheiro para a Delegação do Brasil junto às Nações Unidas, em Genebra. Nesse ano nasce seu quinto filho, João.
Como ministro conselheiro, em 1966, muda-se para Berna. O Teatro da Universidade Católica de São Paulo produz o auto Morte e Vida Severina, com música de Chico Buarque de Holanda, primeiro encenado em várias cidades brasileiras e depois no Festival de Nancy, no Théatre des Nations, em Paris e, posteriormente, em Lisboa, Coimbra e Porto. Em Nancy recebe o prêmio de Melhor Autor Vivo do Festival. Publica A educação pela pedra, que recebe os prêmios Jabuti; da União de Escritores de São Paulo; Luisa Cláudio de Souza, do Pen Club; e o prêmio do Instituto Nacional do Livro. É designado pelo Itamaraty para representar o Brasil na Bienal de Knock-le-Zontew, na Bélgica.
1967 marca sua volta a Barcelona, como cônsul geral. No ano seguinte é publicada a primeira edição de Poesias completas. É eleito, em 15 de agosto de 1968, para a Academia Brasileira de Letras na vaga de Assis Chateaubriand. É recebido em sessão solene pela Assembléia Legislativa de Pernambuco como membro do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT).
Toma posse na Academia em 06 de maio de 1969, na cadeira número 6, sendo recebido por José Américo de Almeida. A Companhia Paulo Autran encena Morte e vida severina em diversas cidades do Brasil. É removido para a embaixada de Assunção, no Paraguai, como ministro conselheiro. Torna-se membro da Hispania Society of America e recebe a comenda da Ordem de Mérito Pernambucano.
Após três anos em Assunção, é nomeado embaixador em Dacar, no Senegal, cargo que exerce cumulativamente com o de embaixador da Mauritânia, no Mali e na Giné-Conakry.
Em 1974 é agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco. No ano seguinte publica Museu de Tudo, que recebe o Grande Prêmio de Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte. É agraciado com a Medalha de Humanidades do Nordeste.
Em 1976 é condecorado Grande Oficial da Ordem do Mérito do Senegal e, em 1979, como Grande Oficial da Ordem do Leão do Senegal. É nomeado embaixador em Quito, Equador e publica A escola das facas.
A convite do governador de Pernambuco, vai a Recife (em 1980) para fazer o discurso inaugural da Ordem do Mérito de Guararapes, sendo condecorado com a Grã-Cruz da Ordem. Ali é inaugurada uma exposição bibliográfica de sua obra, no Palácio do Governo de Pernambuco, organizada por Zila Mamede. Recebe a Comenda do Mérito Aeronáutico e a Grã-Cruz do Equador.
No ano seguinte vai para Honduras, como embaixador. Publica a antologia Poesia crítica.
Em 1982 é agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Vai para a cidade do Porto, em Portugal, como cônsul geral. Recebe o Prêmio Golfinho de Ouro do Estado do Rio de Janeiro. Publica Auto do frade, escrito em Tegucigalpa.
Ganha o Prêmio Moinho Recife, em 1984 e, no ano seguinte, publica os poemas de Agrestes. Nesse livro há uma sessão dedicada à morte ("A indesejada das gentes"). Em 1986 é agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco. Sua esposa, Stella Maria, falece no Rio de Janeiro. João Cabral reassume o Consulado Geral no Porto. Casa-se em segundas núpcias com a poeta Marly de Oliveira.
Em 1987 publica Crime na Calle Relator, poemas narrativos. Recebe o prêmio da União Brasileira de Escritores. É removido para o Rio de Janeiro.
Em Recife, no ano de 1988, lança sua antologia Poemas pernambucanos. Publica, também, o segundo volume de poesias completas: Museu de tudo e depois. Recebe o Prêmio da Bienal Nestlé de Literatura pelo conjunto da obra, e o Prêmio Lily de Carvalho da ABCL, Rio de Janeiro.
Aposenta-se como embaixador em 1990 e publica Sevilha andando. É eleito para a Academia Pernambucana de Letras, da qual havia recebido, anos antes, a medalha Carneiro Vilela. Recebe os seguintes prêmios: Criadores de Cultura da Prefeitura do Recife, Luis de Camões (concedido conjuntamente pelos governos de Portugal e do Brasil), em Lisboa. É condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Judiciário e do Trabalho. A Faculdade Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro publica Primeiros Poemas.
Outros prêmios: Pedro Nava (1991) pelo livro Sevilha andando; Casa das Américas, concedido pelo Estado de São Paulo (1992); e também nesse ano o Neustadt International Prize for Literature, da Universidade de Oklahoma. Viaja a Sevilha para representar o presidente da República nas comemorações do dia 7 de Setembro, que tiveram lugar na Exposição do IV Centenário da Descoberta da América. No Pavilhão do Brasil, foi distribuída sua antologia Poemas sevilhanos, em edição especial. No Rio de Janeiro, na Casa da Espanha, recebe do embaixador espanhol a Grã-Cruz da Ordem de Isabel, a Católica.
Em 1993 recebe o Prêmio Jabuti, instituído pela Câmara Brasileira do Livro.
João Cabral era atormentado por uma dor de cabeça que não o deixava de forma alguma. Ao saber, anos atrás, que sofria de uma doença degenerativa incurável, que faria sua visão desaparecer aos poucos, o poeta anunciou que ia parar de escrever. Já em 1990, com a finalidade de ajudá-lo a vencer os males físicos e a depressão, Marly, sua segunda esposa, passa a escrever alguns textos tidos como de autoria do biografado. Conforme declarações de amigos, escreveu o discurso de agradecimento feito pelo autor ao receber o Prêmio Luis de Camões, considerado o mais importante prêmio concedido a escritores da língua portuguesa, entre outros. Foi a forma encontrada para tentar tirá-lo do estado depressivo em que se encontrava. Como não admirava a música, o autor foi perdendo também a vontade de falar ("Não tenho muito o que dizer", argumentava). Era, sem dúvida, o nosso mais forte concorrente ao prêmio Nobel, com diversas indicações dos mais variados segmentos de nossa sociedade.
Transcrevemos abaixo o discurso proferido por Arnaldo Niskier, presidente da Academia Brasileira de Letras, por ocasião da morte do poeta, em 09/10/99:


"Adeus a João Cabral"
"Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva."


Vida que foi para João Cabral uma bonita e ao mesmo tempo sofrida obra de engenharia poética, como demonstrou no seu inesquecível Morte e Vida Severina.
Aqui está o poeta João Cabral de Melo Neto, presente pela última vez na Academia Brasileira de Letras, de que foi, por 30 anos, uma das figuras fundamentais. Aos 79 anos, apaga-se a voz de significação universal, com a singularidade do seu verso, tantas vezes lembrado para a glória do Prêmio Nobel de Literatura.
A nossa dor, que é também a da sua companheira Marly de Oliveira e dos seus filhos e demais parentes, não apaga da nossa memória a convicção de que foi ele um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos - o poeta da razão - que jamais esqueceu, mesmo nos 40 anos de vida diplomática, as suas raízes pernambucanas. O homem que soube desenhar em versos cálidos a saga do retirante nordestino, quando ainda não havia passado dos 35 anos de idade.
João Cabral, o poeta João, que não se conformava em perfumar a flor, é o mesmo que escreveu aos 22 anos o livro Pedra do Sono, para depois nos brindar, entre outros, com O engenheiro, O cão sem plumas, Poesias completas, A educação pela pedra e o antológico Morte e Vida Severina, com versões no teatro e na mídia eletrônica.
Fecham-se os olhos cansados do poeta João e não conseguimos realizar o sonho que agora desvendo: ver o América Futebol Clube voltar aos seus dias de glória. Nem o daqui do Rio, nem aquele que era a sua verdadeira paixão: o América do Recife.
Quando preparava com ele a Cabraliana, que foi o seu primeiro audiolivro, ouvi fantásticas histórias da vida diplomática, especialmente dos tempos de Portugal, Espanha e Marrocos, além de nele reconhecer um orgulho especial pela família, parente que foi de grandes escritores brasileiros, como Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Mauro Mota e Antônio de Moraes e Silva, o famoso Moraes do Dicionário de Língua Portuguesa. Parece que era herdeiro, no seu jeito tão humilde e cativante, de uma genética literária originalíssima.
É compreensível a nossa consternação. Enquanto a saúde permitiu, honrou esta casa com a sua assiduidade e o seu sentimento da mais pura cordialidade. Sofrendo agora com o seu silêncio, curvamo-nos diante do grande poeta, para afirmar que a Academia sempre o terá presente, com a saudade e a admiração de todos os seus confrades.
Descanse em paz, poeta João. A sua presença jamais deixará de estar conosco. "Teremos o consolo da sua poesia imortal."

Acima:
Dados obtidos nos livros do autor, em "Obra Completa", organizada por Marly de Oliveira com assistência do autor e em sites da Internet.

Por temperamento, apesar de ter vivido em meio à exuberância sonora dos ritmos pernambucanos, João Cabral de Melo Neto foi um poeta não-musical, avesso principalmente à melodia e à musicalidade do verso. Através de rigoroso trabalho de linguagem e construção, a dura poesia de Cabral, feita de "pedras" e a "palo seco", como gostava de dizer, inspira-se na aridez geográfica e humana do sertão para se tornar, também ela, uma poesia seca e exterior.

Trechos do poema
A PALO SECO
( Quaderna - 1960 )

Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;

se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.

O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;

é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.

A palo seco existem
situações e objetos:
Graciliano Ramos,
desenho de arquiteto,

as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.

Eis uns poucos exemplos
de ser a palo seco,
dos quais se retirar
higiene ou conselho:

não de aceitar o seco
por resignadamente,
mas de empregar o seco
porque é mais contundente.

Tecendo a Manhã
1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
João Cabral de Melo Neto



A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, freqüentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.


NUM MONUMENTO A ASPIRINA

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
(Em A educação pela pedra - 1966)



DE SÃO LOURENÇO A PONTE DE PRATA

Vou pensando no mar
que daqui ainda estou vendo;
em tôda aquela gente
numa terra tão viva morrendo.
Através dêste mar
vou chegando a São Lourenço,
que de longe é como ilha
no horizonte de cana aparecendo;
através dêste mar,
como um barco na corrente,
mesmo sendo eu o rio,
que vou navegando parece.
Navegando Êste mar,
até o Recife irei,
que as ondas dêste mar
sòmente lá se detêm.

Ao entrar no Recife,
não pensem que entro só.
Entra comigo a gente
que comigo baixou
por essa velha estrada
que vem do interior;
entram comigo rios
a quem o mar chamou,
entra comigo a gente
que com o mar sonhou,
e também retirantes
em que só o suor não secou;
e entra essa gente triste,
a mais triste que já baixou,
a gente que a usina,
depois de mastigar, largou.

Entra a gente que a usina
depois de mastigar largou;
entra aquêle usineiro
que outro maior devorou;
entra êsse banguêzeiro
reduzido a fornecedor;
entra detrás um dêstes,
que agora é um simples morador;
detrás, o morador
que nova safra já não fundou;
entra, como cassaco,
êsse antigo morador;
entra enfim o cassaco
que por tôdas aquelas bôcas passou.
Detrás de cada bôca,
êle vê que há uma bôca maior.



DA PONTE DE PRATA A CAXANGA

A gente das usinas
foi mais um afluente a engrossar
aquêle rio de gente
que vem de além do Jacarará.
Pelo mesmo caminho
que venho seguindo desde lá,
vamos juntos, dois rios,
cada um para seu mar.
O trem outro caminho
tomou na Ponte de Prata;
foi por Tijipió
e pelos mangues de Afogados.
Sempre com retirantes,
vou pela Várzea e por Caxangá
onde as últimas ondas
de cana se vêm espraiar.

Entra-se no Recife
pelo engenho São Francisco.
Já em terras da Várzea,
está São João, uma antiga usina.
Depois se atinge a Várzea,
a vila pròpriamente dita,
com suas árvores velhas
que dão uma sombra também antiga.
A seguir, Caxangá,
também velha e recolhida,
onde começa a estrada
dita Nova, ou de Iputinga,
que quase reta à cidade,
que é o mar a que se destina,
leva a gente que veio
baixando em minha companhia.

Vou deixando à direita
aquela planície aterrada
que desde os pés de Olinda
até os montes Guararapes,
e que de Caxangá
até o mar oceano,
para formar o Recife
os rios vão sempre atulhando.
Com água densa de terra
onde muitas usinas urinaram,
água densa de terra
e de muitas ilhas engravidada.
Com substância de vida
é que os rios a vão aterrando,
com êsse lixos de vida
que os rios viemos carreando.
 


AS DUAS CIDADES

Mas antes de ir ao mar,
onde minha fala se perde,
vou contar da cidade
habitada por aquela gente
que veio meu caminho
e de quem fui o confidente.
Lá pelo Beberibe
aquela cidade também se estende
pois sempre junto aos rios
prefere se fixar aquela gente;
sempre perto dos rios,
companheiros de antigamente,
como se não pudessem
por um minuto sòmente
dispensar a presença
de seus conhecidos de sempre.

Conheço todos êles,
do Agreste e da Caatinga;
gente também da Mata
vomitada pelas usinas;
gente também daqui
que trabalha nestas usinas,
que aqui não moem cana,
moem coisas muito mais finas.
Muitas eu vi passar:
fábricas, como aqui se apelidam;
têm bueiro como usina,
são iguais também por famintas.
Só que as enormes bôcas
que existem aqui nestas usinas
encontram muitas pedras
dentro de sua farinha.

A gente da cidade
que há no avêsso do Recife
tem em mim um amigo,
seu companheiro mais íntimo.
Vivo como esta gente,
entro-lhes pela cozinha;
como bicho de casa
penetro nas camarinhas.
As vilas que passei
sempre abracei como amigo;
desta vila de lama
é que sou mais do que amigo:
sou o amante, que abraça
com corpo mais confundido;
sou o amante, com ela
leito de lama divido.

Tudo o que encontrei
na minha longa descida,
montanhas, povoados,
caieiras, viveiros, olarias,
mesmo êsses pés de cana
que tão iguais me pareciam,
tudo levava um nome
com que poder ser conhecido.
A não ser esta gente
que pelos mangues habita:
êles são gente apenas
sem nenhum nome que os distinga;
que os distinga na morte
que aqui é anônima e seguida.
São como ondas de mar,
uma só onda, e sucessiva.

A não ser esta cidade
que vim encontrar sob o Recife:
sua metade podre
que com lama podre se edifica.
É cidade sem nome
sob a capital tão conhecida.
Se é também capital,
será uma capital mendiga.
É cidade sem ruas
e sem casas que se diga.
De outra qualquer cidade
possui apenas polícia.
Desta capital podre
só as estatísticas dão notícia,
ao medir sua morte,
pois não há o que medir em sua vida.

Conheço tôda a gente
que deságua nestes alagados.
Não estão no nível de cais,
vivem no nível de lama e do pântano.
Gente de ôlho perdido
olhando-me sempre passar
como se eu fôsse trem
ou carro de viajar.
É gente que assim me olha
desde o sertão do Jacarará;
gente que sempre me olha
como se, de tanto me olhar,
eu pudesse o milagre
de, num dia ainda por chegar,
legar todos comigo,
retirantes para o mar.


VOLTA A PERNAMBUCO
A Benedito Coutinho

Contemplando a maré baixa
nos mangues do Tijipió
lembro a baía de Dublin
que daqui já me lembrou.

Em meio à bacia negra
desta maré quando em cio,
eis a Albufera, Valência,
onde o Recife me surgiu.

As janelas do cais da Aurora,
olhos compridos, vadios,
incansáveis, como em Chelsea,
vêem rio substituir rio,

e essas várzeas de Tiuma
com seus estendais de cana
vêm devolver-me os trigais
de Guadalajara, Espanha.

Mas as lajes da cidade
não me devolvem só uma,
nem foi uma só cidade
que me lembrou destas ruas.

As cidades se parecem
nas pedras do calçamento
das ruas artérias regando
faces de vário cimento,

por onde iguais procissões
do trabalho, sem andor,
vão levar o seu produto
aos mercados do suor.

Todas lembravam o Recife,
este em todas se situa,
em todas em que é um crime
para o povo estar na rua,

em todas em que esse crime,
traço comum que surpreendo,
pôs nódoas de vida humana
nas pedras do pavimento.

( Em Paisagens com Figuras -1954)
 


Trechos de O CÃO SEM PLUMAS
Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.

Viver
é ir entre o que vive.
O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de
[secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.
...

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia,
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).

(...) Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor de rosa,
da água do copo de água,

da água do cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa. (...)

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,