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JOÃO
CABRAL DE MELO NETO
Trabalho e pesquisa de Mercêdes
Pordeus
João Cabral queria descansar no
Alto do Trapuá
JAMILDO MELO
O poeta pernambucano João Cabral
de Melo Neto, morto aos 79 anos,
há um mês, amava tanto a sua terra
natal que gostaria de ser
enterrado no alto da Serra do
Engenho Trapuá, em Tracunhaém, a
60 km de Recife. O próprio poeta
manifestou o desejo por escrito em
22 de abril de 1968, em carta
remetida da Espanha ao dono do
Engenho, o conterrâneo e amigo,
João da Costa Azevedo, falecido em
1985. João Cabral tinha então 48
anos de vida,
Na correspondência enviada a
título de agradecimento pela
permissão pela permissão que
recebeu para ser enterrado na
esplanada do alto do Engenho
Trapuá. , o poeta explica os
motivos do pleito com a revelação
de sua paixão pela beleza da Zona
da Mata.
"Considero um privilégio para
qualquer pernambucano ser
sepultado em uma posição daquelas
de onde se tem a impressão de
descobrir toda a paisagem
pernambucana", escreve o poeta.
"No meu caso em particular, de
pernambucano e escritor, esse
privilégio é ainda maior, pois me
permitirá ser enterrado no preciso
limite entre duas zonas do nosso
Estado que marcaram
determinantemente minha formação e
são paisagens freqüentes em meus
livros".
Vista desta ótica do forasteiro, a
terra que encantou os olhos do
poeta fica no alto de uma colina,
cercada por um clima bucólico. A
pequena igrejinha instalada no
alto da serra, apesar do estado
precário de conservação é uma
evocação à poesia, O sino da
capela traz gravados os nomes João
e Lourdes. A igreja foi inaugurada
em maio de1950.
O poeta João Cabral havia recebido
o aviso da aceitação do seu
insólito pedido em uma carta
assinada por Costa Azevedo, um mês
antes, em 12 de março de 1968. "O
compromisso é irreversível", diz o
industrial na carta enviada ao
diplomata, comunicando
oficialmente que havia concordado
com o pedido. "Pode desde agora V.
Excia considerar seu o local que
ai no Alto da Serra lhe receberá
generosamente, na eventualidade do
seu falecimento", acrescenta.
O pedido de permissão feito por
João Cabral foi intermediado pela
sua amiga e parente Maria Helena
Cabral da Costa, casada com o
primo Túlio Cabral da Costa,
casada com o primo, falecido em
outubro do ano passado. Maria
Helena era amiga pessoal da
primeira mulher do poeta, Estela.
Túlio era um dos membros da
família que controla a Usina
Pumaty. O outro primo de João
Cabral e irmão de Túlio, Romero
Cabral da Costa, ex-ministro da
Agricultura no governo Jânio
Quadros, em 1961, empregou o
diplomata pernambucano como chefe
de gabinete em sua pasta. Cabral
era agregado aos quadros do
Itamaraty desde 45.
PALAVRA DE HONRA – A promessa
feita ao poeta João Cabral
poderia, no entanto, ter sido
quebrada com a venda do engenho,
em 1974. Os homens de antigamente
tinham palavra, felizmente. O
engenho Trapuá - comprado por João
da Costa ao tio Olintho de Souza
Azevedo – foi vendido em novembro
daquele ano ap grupo Petribu, mas
o usuário João Costa Azevedo foi
tão fiel à promessa que, em carta
assinada em 13 de novembro de
1974, apelou ao amigo e empresário
Paulo Petribu para que mantivesse
a particularidade, informando que
havia esquecido de mencionar o
compromisso antes da venda,
"O João Cabral é um acadêmico, um
imortal, uma figura hoje do maior
relevo, a qual, como pernambucano
honra a nossa terra", justificou.
"Peço ao amigo que se enquadre
nesse solene compromisso que
assumi", apela João da Costa
Azevedo.
O comprador das terras do Engenho
Trapuá, o usineiro Paulo Petribu,
mesmo frisando em tom humorado,
não entender como o imortal se
preocupava com uma questão tão
terrena, concordou com a reserva
do latifúndio para o poeta, numa
carta datada de 06 de dezembro de
1974.
O caminho, portanto, continua
aberto para que os restos mortais
do poeta sejam transferidos para o
Engenho Trapuá, desde que haja
concordância da família. O menino
João Cabral, como é sabido,
cresceu perto dali, tendo passado
a infância em engenhos de açúcar.
Inicialmente em Poço de Aleixo, em
São Lourenço da Mata. E
posteriormente, nos Engenhos
Pacoval e Dois Irmãos, em Moreno.
Atualmente, o corpo do poeta
encontra-se no cemitério São João
Baptista, no Rio de Janeiro onde
foi enterrado em 10 de outubro
passado, depois de ter sido velado
em cerimônia simples e discreta no
Mausoléu dos Imortais da Academia
Brasileira de Letras (ABL). João
Cabral morreu em 09 de outubro, de
parada cardíaca, em sua casa, na
Praia do Flamengo, Zona Sul do
Rio.
Caso a família concorde um dia que
os restos mortais sejam
transferidos para lá, o poeta não
será o primeiro a contar com tal
privilégio. O tio João da Costa
Azevedo, Olintho Ferreira de Souza
Azevedo, falecido em 1944, já
havia sido enterrado lá. Com a
venda do engenho em 74 para o
grupo Petribu, os restos mortais
de Olintho Azevedo foram
transferidos para o cemitério de
Tracunhaém.
Poeta pode ganhar monumento em
Trapuá
Mario Hélio
O poeta Marcus Accioly, presidente
do Conselho Estadual de Cultura,
vai propor amanhã, em reunião, que
seja erguido um monumento a João
Cabral de Melo Neto, no Alto do
Trapuá.
"João me falou, quando visitamos
juntos Tracunhaém, que nada há
mais bonito do que a Várzea do
Capibaribe, e era no Alto do
Trapuá que ele queria ser
enterrado.". diz Accioly. "Tanto
que quando o engenho foi vendido
definiu-se uma cláusula para que o
lugar ficasse disponível para esse
fim", relembra.
A idéia de Accioly é que o
Conselho, o Governo do Estado e as
Prefeituras de São Lourenço da
Mata, Carpina e arredores se unam
para uma homenagem ao poeta
falecido há pouco mais de um mês.
'"Essa vontade expressa por João
de ser enterrado no Alto do Trapuá
era o seu desejo de permanecer e
ser lembrado em Pernambuco",
opina. "Ele costumava dizer também
que quando se aposentasse gostaria
de morar em Carpina",afirma.
Accioly é candidato à vaga deixada
por João Cabral na Academia
Pernambucana de Letras. "Tento
solidificar esta saudade de pedra
concorrendo a vaga de Cabral na
Academia, certo de que ele votaria
em mim, como votou quando concorri
a uma vaga na Academia Brasileira
de Letras", diz.
O poeta Francisco Bandeira de
Mello, que conviveu com Cabral de
Melo Neto em Berna e outras
cidades da Europa (diversos desses
contatos registrou em fotografias
por ele mesmo tiradas, e a ele
Cabral dedicou Habitar o tempo, de
A Educação Pela Pedra), também o
levou a revisitar Pernambuco. Uma
das peregrinações mais amplas foi
a que realizaram juntos em 1984.
"Foi uma belíssima viagem, na
época do lançamento do livro
Agreste, que tinha como título
original Poemas Pernambucanos",
informa. O segundo título (que
seria o primeiro) terminou sendo o
título de uma antologia sua
patrocinada por usineiros.
Curiosamente, entre todos os vinte
livros publicados por João Cabral
de Melo Neto, somente três não são
dedicados a ninguém: O Rio, Morte
e Vida Severina e Agrestes.
Por uma semana inteira os poetas
visitaram cidades como Carpina,
Caruaru, Taquaritinga, Garanhuns,
Pesqueira, Serra Talhada. "Na
última vez em que ele esteve aqui
há cinco anos, perguntou se eu
topava de novo fazer uma viagem
daquelas", lembra-se Bandeira de
Mello.
ALÉM DA POESIA – Francisco
Bandeira de Mello e Marcos Accioly
eram os escritores de amizade mais
íntima com João Cabral de Melo
Neto.
"Conheci primeiro a obra, depois o
homem", revela Accioly. "Há cerca
de trinta anos foi o meu primeiro
contato pessoal, na Universidade
Católica de Pernambuco, num
lançamento de livro; não imaginei
que tempos depois faríamos um
lançamento em conjunto na Livro
7".
Primeiro eu conheci o irmão dele,
Evaldo, depois foi que passei a
ter amizade com João Cabral. E
convivemos em Genebra", diz
Francisco Bandeira de Mello .
"Lembro-me bem das nossas
conversas a três: eu, João e Josué
de Castro. Fizemos uma amizade
muito grande".
Quem conheceu João Cabral
intimamente, sabe que mesmo sendo
uma pessoa irritável, era muito
doce com os amigos. "Ele tinha
gestos extremamente fraternais,
como numa semana santa, em Berna
em que me telefonou preocupado: -
'Neste feriado você sozinho? Pode
ter uma febre, algum problema de
saúde, venha para cá'. E eu fui
num período de dois anos e meio em
que nos encontrávamos todos os
fins de semana".
"Foi o maior poeta vivo que eu
conheci", define Marcos Accioly.
"Se não fosse João Cabral, todos
nós teríamos perdido o bonde do
Modernismo, como costumava dizer
Pessoa de Moraes. A poesia foi
para a minha geração como uma
espécie de rede de malha, onde os
poetas só continuavam vivos se a
conseguissem romper."
Talvez o mais discreto de todos os
autores de mérito em Pernambuco,
Francisco Bandeira de Mello não
ficou imune ao impacto estético de
João Cabral. "Ele teve sobre mim
influência positiva e negativa.
Desta última é preciso dizer que
passei muitos anos sem escrever
por causa dele", confessa. É que
muita gente andou imitando Cabral
e eu não queria fazer isso",
explica.
"Há uma poesia no Brasil ante e
depois de Cabral; parodiando o
título de um dos seus livros – foi
para a literatura brasileira mais
que duas águas, foi o divisor de
águas", analisa Accioly. "A
presença de Cabral chegava a ser
tão forte sobre mim, que me
tolhia", diz Bandeira de Mello.
Poeta amava a um outro Pernambuco
É do tempo que viveu em Berna que
resultou um dos raros textos em
que a temática romântica (embora
não o modo) parece ter movido João
Cabral de Melo Neto. Saudades de
Berna é um dos poemas de Museu de
Tudo, e um dos seus textos mais
curtos. "Onde jamais reencontrar/
a submissa ambiência suíça?/onde
outra vez reencontrar/ a insuíça
voz submissa?"
Das centenas de poemas que
escreveu somente um deu prazer a
João Cabral de Melo Neto. Foi
aquele que escreveu sobre o Rio
Capibaribe, não O Cão Sem Plumas
mas em que o rio se escreve, rio
abaixo, rio acima, o rio. "O Rio,
ele me dizia se o único que não
doeu escrever", revela o poeta
Marcus Accioly. 'Ele costumava
dizer que não havia conquistado
nenhuma mulher com poesia. E eu
dizia a ele: nisto João, somos
diferentes, eu só conquistei com
os meus poemas, e às vezes também
com os seus."
É um texto em primeira pessoa. Mas
nada de lirismo. É o próprio rio
quem fala. Poema narrativo e
didático de um radical
anti-romântico. "Uma vez, em
Genebra, ele leu uns poemas que
publiquei em O Diário de Notícias,
e comparou-os a Eliot; mas tempos
adiante quando mostrei a ele uns
sonetos, percebi que ele ficou
surpreso e com certo
desapontamento", conta Bandeira de
Mello. "Você agora está na linha
de Pedro Ivo, perguntou-me".
Ledo Ivo – a quem dedicou uma
parte de Psicologia da Composição
e todo O Museu de Tudo – foi amigo
de Academia de Letras. Mas a
amizade entre eles remontava a um
período bem mais modesto. A de
quando ambos, poetas iniciantes,
lançados por Vicente do Rego
Monteiro no I Congresso de Poesia
do Recife em 1941. O congresso foi
duramente atacado por jornalistas
como Mário Melo (o mesmo que
promoveu campanha acérrima contra
um busto em homenagem a Manuel
Bandeira, ainda vivo).
É desse período de formação no
Recife que o poeta parecia guardar
a melhor memória. Foi nas
conversas com Willy Lewin, e não
nos bancos do Colégio Marista
(atacado num texto impiedoso), que
ele aprendeu a gostar de poesia.
Costumava dizer que Lewin e
Cardozo tinham sido seus cursos
superiores. "Ele tinha um certo
complexo de não possuir título
universitário", conta Accioly, que
se empenhou para que as
universidades federais do Rio
Grande do Norte e de Pernambuco
concedessem – como o fizeram – o
título de Doutor Honoris Causa.
"Nenhum poeta cantou mais e melhor
Pernambuco, era quase uma obsessão
que ele tinha por sua terra", diz
Accioly. "Uma vez o vi sair de um
restaurante no interior, depois de
haver pedido uma bebida, porque a
arquitetura do prédio tinha sido
descaracterizada com o uso de
basculante", lembra-se Bandeira de
Mello.
Talvez no seu desejo de inumação
procurasse reencontrar João Cabral
de Melo Neto na natureza um
Pernambuco que não existe mais na
cultura.
Que não existia já na década de
60, quando morreu Manuel Bandeira.
Que começou a deixar de existir no
começo do século, com o seu pobre
urbanismo, denunciado e criticado
por Joaquim Cardozo, que também
cantou Pernambuco morto. Embora
sonhasse em ser enterrado no seu
Estado natal, João Cabral tinha
consciência de que isto não
aconteceria jamais. Aos melhores
em Pernambuco restaram sempre as
opções da morte e do exílio. Sobre
esse tal "retorno nativo" o
próprio poeta falou um texto em
inglês, e é a melhor crítica e
resposta:
Como já não poderá dar-se
a volta a casa do nativo
que acabará num chão sulino
onde muito pouco assistiu,
para fingir a volta a casa
desenrola esse carretel
que é quase de um fio de estopa
(desenrolando vira mel).
Em quase tudo de que escreve,
como se lá ainda estivesse
há um Pernambuco que nenhum
pernambucano reconhece
Quando seu discurso é esse espaço
de que fala, de longe e de velho,
o seu é um discurso arqueológico
que não está nem em Mário Melo
O Pernambuco de seu bolso
(que é onde vai a idéia de céu)
Como um cão no bolso, é distinto
Do que vê quem com o conviveu:
É um falar em fotografia
a quem o vive no cinema;
mesmo que tudo esteja igual
a voz tem cheiro de alfazema.
Assim, é possível de dar-se
a volta a casa do nativo.
Não acha a casa nem a rua
e quem não morreu, dos amigos,
Amadureceu noutros sóis
não fala na mesma língua
e estranha que ele estranhe a
esquina
em que construíram tal desastre".
JORNAL DO
COMMERCIO
Especial
Caderno C 3
15 de novembro de 1999
Transcrito
por Mercêdes Pordeus
_____
Cabral em Pernambuco
Francisco Bandeira de Mello
Academia Pernambucana de Letras
Sempre me surpreendeu constatar,
ainda que nos nossos dias, a
presença visceralmente viva dos
poetas: e não deixa de ser
espantoso que, em nossos tempos
considerados excessivamente
pragmáticos, existam pessoas que
façam poesia, existam pessoas que
leiam poesia, existam pessoas e
entidades dispostas a reverenciar
com, com essa ou aquela distinção,
aqueles que fazem poesia. Assim,
na réstia desta homenagem de hoje,
que prestamos a João Cabral,
podemos reter como um dos símbolos
centrais, do resistente partido da
poesia – com sua força mágica por
entre máquinas e chaminés e
guichês de banco ou o (às vezes
ilusório) movimento de massa nos
discursos políticos.
Poesia, fundamento de tudo.
Poesia, pois com sua força mítica
a sobreviver e a nos fazer viver,
como uma flor tenra e eterna,
necessária, plena de modernidade,
sempre a insuflar de boa seiva a
vida exausta de falsos
pragmatismos. Poesia, pois,
"fundamento do ser mediante a
palavra", fundamento de um mundo
que se desenvolve humanamente
preocupado não apenas com o
ter-mais e sim com o ser-mais, com
o mais-ser.
Dentro dessa configuração mítica,
em nosso tempo brasileiro,
ressalta o nome (quase nume) de
João Cabral de Melo Neto, cuja
obra poética se desdobra,
verdadeiramente, numa ética
exemplar – numa poesia que se
nucleariza uma reflexão sobre a
própria poesia, indo ao centro da
linguagem, ao mesmo tempo em que
se abre, cirurgicamente, sobre os
duros problemas sociais do homem e
do mundo concretos. Exemplo de
rigor máximo em nossa língua
brasileira, Cabral era (é) um
fabricante de protótipos, um poeta
para poetas, criando uma obra
pacientemente a contrapelo,
laboriosamente depurando-a ("com
mil intermináveis lixas") das
impurezas da linguagem, cortando-a
"de tudo que não é faca",
buscando-a "no núcleo do núcleo do
seu núcleo", como uma faca só
lâmina. Porém, apesar das
dificuldades que possa oferecer, a
um nível mais exaustivo ou
penetrante de leitura, sua poesia,
sem concessão aos facilitários
demagógicos),sem aromatizar sua
flor/sem poetizar seu poema") está
aberto em direção a todos e não só
das elites; é uma busca
totalizante do falar para e por
todo um povo:seja o povo de
Pernambuco ou da Andaluzia, como
símbolo de todos os homens. Uma
poesia criativamente crítica e até
denúncia sobre o fundamento do
ser, que reposa na linguagem;
sobre o (esperamos) transitórios
fundamentos das injustas
estruturas sociaias.
Mas se poderíamos nos referir aqui
a uma espécie de meta-reflexão, de
tal modo estamos refletindo sobre
nós mesmos (aludo a busca de
modelos) ao falarmos sobre João
Cabral de Melo Neto, uma das mais
densas dicções da poesia
contemporânea, em todo o
mundo,podemos também reiterar que
esta homenagem distingue a todos
nós, tal o entanhamento da fala e
sotaques cabralinos com a voz
pernambucana - adocicada pelo sal
das brisas marinhas, mesclada na
luta dos canaviais ou no quase
sileêncio do sertanejo, "incapaz
de não se expressar em pedra".
Voz, portanto de um Pernambuco -
qualquer que seja o seu timbre -
irredento, rebelde, inconformado;
de um Pernambuco diz Cabral,
deitado apenas nos mapas como o
mutilaram; de um pernambuco que
com a poesia cabralina, é esse
viver de nervos, esse "cristal de
chama", essa coisa viva,
irrepousada.
Obs.: Como não deixar de ser, a
primeira Academia de Letras a
homenagear o poeta João Cabral,
foi a de Permanbuco - o que foi
feito (dois dias depois do seu
falecimento) no dia 11 de outubro.
Na ocasião a convite do Presidente
da Academia Pernambucana de
Letras, Luiz Magalhães Melo, li um
texto em homenagem a João, cuja
primeira parte publico hoje no JC.
Texto, aliás também incorporado á
palestra sobre palestra de Cabral
que fiz na segunda-feira última na
Sobrames.
JORNAL DO
COMMERCIO
14 DE NOVEMBRO DE 1999
Caderno OPINIÃO, PÁG 9
Transcrito
por Mercêdes Pordeus
_____
João Cabral
de Melo Neto
http://www.releituras.com/joaocabral_bio.asp
"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."
(Morte e Vida Severina)
_____
João Cabral de Melo Neto nasceu na
cidade de Recife - PE, no dia 09
de janeiro de 1920, na rua da
Jaqueira (depois Leonardo
Cavalcanti), segundo filho de Luiz
Antônio Cabral de Melo e de Carmem
Carneiro-Leão Cabral de Melo.
Primo, pelo lado paterno, de
Manuel Bandeira e, pelo lado
materno, de Gilberto Freyre. Passa
a infância em engenhos de açúcar.
Primeiro no Poço do Aleixo, em São
Lourenço da Mata, e depois nos
engenhos Pacoval e Dois Irmãos, no
município de Moreno.
Em 1930, com a mudança da família
para Recife, inicia o curso
primário no Colégio Marista. João
Cabral era um amante do futebol,
tendo sido campeão juvenil pelo
Santa Cruz Futebol Clube em 1935.
Foi na Associação Comercial de
Pernambuco, em 1937, que obteve
seu primeiro emprego, tendo depois
trabalhado no Departamento de
Estatística do Estado. Já com 18
anos, começa a freqüentar a roda
literária do Café Lafayette, que
se reúne em volta de Willy Lewin e
do pintor Vicente do Rego
Monteiro, que regressara de Paris
por causa da guerra.
Em 1940 viaja com a família para o
Rio de Janeiro, onde conhece
Murilo Mendes. Esse o apresenta a
Carlos Drummond de Andrade e ao
círculo de intelectuais que se
reunia no consultório de Jorge de
Lima. No ano seguinte, participa
do Congresso de Poesia do Recife,
ocasião em que apresenta suas
Considerações sobre o poeta
dormindo.
1942 marca a publicação de seu
primeiro livro, Pedra do Sono. Em
novembro viaja, por terra, para o
Rio de Janeiro. Convocado para
servir à Força Expedicionária
Brasileira (FEB), é dispensado por
motivo de saúde. Mas permanece no
Rio, sendo aprovado em concurso e
nomeado Assistente de Seleção do
DASP (Departamento de
Administração do Serviço Público).
Freqüenta, então, os intelectuais
que se reuniam no Café Amarelinho
e Café Vermelhinho, no Centro do
Rio de Janeiro. Publica Os três
mal-amados na Revista do Brasil.
O engenheiro é publicado em 1945,
em edição custeada por Augusto
Frederico Schmidt. Faz concurso
para a carreira diplomática, para
a qual é nomeado em dezembro.
Começa a trabalhar em 1946, no
Departamento Cultural do
Itamaraty, depois no Departamento
Político e, posteriormente, na
comissão de Organismos
Internacionais. Em fevereiro,
casa-se com Stella Maria Barbosa
de Oliveira, no Rio de Janeiro. Em
dezembro, nasce seu primeiro
filho, Rodrigo.
É removido, em 1947, para o
Consulado Geral em Barcelona, como
vice-cônsul. Adquire uma pequena
tipografia artesanal, com a qual
publica livros de poetas
brasileiros e espanhóis. Nessa
prensa manual imprime Psicologia
da composição. Nos dois anos
seguintes ganha dois filhos: Inês
e Luiz, respectivamente. Residindo
na Catalunha, escreve seu ensaio
sobre Joan Miró, cujo estúdio
freqüenta. Miró faz publicar o
ensaio com texto em português, com
suas primeiras gravuras em
madeira.
Removido para o Consulado Geral em
Londres, em 1950, publica O cão
sem plumas. Dois anos depois
retorna ao Brasil para responder
por inquérito onde é acusado de
subversão. Escreve o livro O rio,
em 1953, com o qual recebe o
Prêmio José de Anchieta do IV
Centenário de São Paulo (em 1954).
É colocado em disponibilidade pelo
Itamaraty, sem rendimentos,
enquanto responde ao inquérito,
período em que trabalha como
secretário de redação do Jornal A
Vanguarda, dirigido por Joel
Silveira. Arquivado o inquérito
policial, a pedido do promotor
público, vai para Pernambuco com a
família. Lá, é recebido em sessão
solene pela Câmara Municipal do
Recife.
Em 1954 é convidado a participar
do Congresso Internacional de
Escritores, em São Paulo.
Participa também do Congresso
Brasileiro de Poesia, reunido na
mesma época. A Editora Orfeu
publica seus Poemas Reunidos.
Reintegrado à carreira diplomática
pelo Supremo Tribunal Federal,
passa a trabalhar no Departamento
Cultural do Itamaraty.
Duas alegrias em 1955: o
nascimento de sua filha Isabel e o
recebimento do Prêmio Olavo Bilac
da Academia Brasileira de Letras.
A Editora José Olympio publica, em
1956, Duas águas, volume que reúne
seus livros anteriores e os
inéditos: Morte e vida severina,
Paisagens com figuras e Uma faca
só lâmina. Removido para
Barcelona, como cônsul adjunto,
vai com a missão de fazer
pesquisas históricas no Arquivo
das Índias de Sevilha, onde passa
a residir.
Em 1958 é removido para o
Consulado Geral em Marselha.
Recebe o prêmio de melhor autor no
Festival de Teatro do Estudante,
realizado no Recife. Publica em
Lisboa seu livro Quaderna, em
1960. É removido para Madri, como
primeiro secretário da embaixada.
Publica, em Madri, Dois
parlamentos.
Em 1961 é nomeado chefe de
gabinete do ministro da
Agricultura, Romero Cabral da
Costa, e passa a residir em
Brasília. Com o fim do governo
Jânio Quadros, poucos meses
depois, é removido outra vez para
a embaixada em Madri. A Editora do
Autor, de Rubem Braga e Fernando
Sabino, publica Terceira feira,
livro que reúne Quaderna, Dois
parlamentos, ainda inéditos no
Brasil, e um novo livro: Serial.
Com a mudança do consulado
brasileiro de Cádiz para Sevilha,
João Cabral muda-se para essa
cidade, onde reside pela segunda
vez. Continuando seu vai-e-vem
pelo mundo, em 1964 é removido
como conselheiro para a Delegação
do Brasil junto às Nações Unidas,
em Genebra. Nesse ano nasce seu
quinto filho, João.
Como ministro conselheiro, em
1966, muda-se para Berna. O Teatro
da Universidade Católica de São
Paulo produz o auto Morte e Vida
Severina, com música de Chico
Buarque de Holanda, primeiro
encenado em várias cidades
brasileiras e depois no Festival
de Nancy, no Théatre des Nations,
em Paris e, posteriormente, em
Lisboa, Coimbra e Porto. Em Nancy
recebe o prêmio de Melhor Autor
Vivo do Festival. Publica A
educação pela pedra, que recebe os
prêmios Jabuti; da União de
Escritores de São Paulo; Luisa
Cláudio de Souza, do Pen Club; e o
prêmio do Instituto Nacional do
Livro. É designado pelo Itamaraty
para representar o Brasil na
Bienal de Knock-le-Zontew, na
Bélgica.
1967 marca sua volta a Barcelona,
como cônsul geral. No ano seguinte
é publicada a primeira edição de
Poesias completas. É eleito, em 15
de agosto de 1968, para a Academia
Brasileira de Letras na vaga de
Assis Chateaubriand. É recebido em
sessão solene pela Assembléia
Legislativa de Pernambuco como
membro do Conselho Deliberativo da
Sociedade Brasileira de Autores
Teatrais (SBAT).
Toma posse na Academia em 06 de
maio de 1969, na cadeira número 6,
sendo recebido por José Américo de
Almeida. A Companhia Paulo Autran
encena Morte e vida severina em
diversas cidades do Brasil. É
removido para a embaixada de
Assunção, no Paraguai, como
ministro conselheiro. Torna-se
membro da Hispania Society of
America e recebe a comenda da
Ordem de Mérito Pernambucano.
Após três anos em Assunção, é
nomeado embaixador em Dacar, no
Senegal, cargo que exerce
cumulativamente com o de
embaixador da Mauritânia, no Mali
e na Giné-Conakry.
Em 1974 é agraciado com a Grã-Cruz
da Ordem de Rio Branco. No ano
seguinte publica Museu de Tudo,
que recebe o Grande Prêmio de
Crítica da Associação Paulista de
Críticos de Arte. É agraciado com
a Medalha de Humanidades do
Nordeste.
Em 1976 é condecorado Grande
Oficial da Ordem do Mérito do
Senegal e, em 1979, como Grande
Oficial da Ordem do Leão do
Senegal. É nomeado embaixador em
Quito, Equador e publica A escola
das facas.
A convite do governador de
Pernambuco, vai a Recife (em 1980)
para fazer o discurso inaugural da
Ordem do Mérito de Guararapes,
sendo condecorado com a Grã-Cruz
da Ordem. Ali é inaugurada uma
exposição bibliográfica de sua
obra, no Palácio do Governo de
Pernambuco, organizada por Zila
Mamede. Recebe a Comenda do Mérito
Aeronáutico e a Grã-Cruz do
Equador.
No ano seguinte vai para Honduras,
como embaixador. Publica a
antologia Poesia crítica.
Em 1982 é agraciado com o título
de Doutor Honoris Causa pela
Universidade Federal do Rio Grande
do Norte. Vai para a cidade do
Porto, em Portugal, como cônsul
geral. Recebe o Prêmio Golfinho de
Ouro do Estado do Rio de Janeiro.
Publica Auto do frade, escrito em
Tegucigalpa.
Ganha o Prêmio Moinho Recife, em
1984 e, no ano seguinte, publica
os poemas de Agrestes. Nesse livro
há uma sessão dedicada à morte ("A
indesejada das gentes"). Em 1986 é
agraciado com o título de Doutor
Honoris Causa pela Universidade
Federal de Pernambuco. Sua esposa,
Stella Maria, falece no Rio de
Janeiro. João Cabral reassume o
Consulado Geral no Porto. Casa-se
em segundas núpcias com a poeta
Marly de Oliveira.
Em 1987 publica Crime na Calle
Relator, poemas narrativos. Recebe
o prêmio da União Brasileira de
Escritores. É removido para o Rio
de Janeiro.
Em Recife, no ano de 1988, lança
sua antologia Poemas
pernambucanos. Publica, também, o
segundo volume de poesias
completas: Museu de tudo e depois.
Recebe o Prêmio da Bienal Nestlé
de Literatura pelo conjunto da
obra, e o Prêmio Lily de Carvalho
da ABCL, Rio de Janeiro.
Aposenta-se como embaixador em
1990 e publica Sevilha andando. É
eleito para a Academia
Pernambucana de Letras, da qual
havia recebido, anos antes, a
medalha Carneiro Vilela. Recebe os
seguintes prêmios: Criadores de
Cultura da Prefeitura do Recife,
Luis de Camões (concedido
conjuntamente pelos governos de
Portugal e do Brasil), em Lisboa.
É condecorado com a Grã-Cruz da
Ordem do Mérito Judiciário e do
Trabalho. A Faculdade Letras da
Universidade Federal do Rio de
Janeiro publica Primeiros Poemas.
Outros prêmios: Pedro Nava (1991)
pelo livro Sevilha andando; Casa
das Américas, concedido pelo
Estado de São Paulo (1992); e
também nesse ano o Neustadt
International Prize for Literature,
da Universidade de Oklahoma. Viaja
a Sevilha para representar o
presidente da República nas
comemorações do dia 7 de Setembro,
que tiveram lugar na Exposição do
IV Centenário da Descoberta da
América. No Pavilhão do Brasil,
foi distribuída sua antologia
Poemas sevilhanos, em edição
especial. No Rio de Janeiro, na
Casa da Espanha, recebe do
embaixador espanhol a Grã-Cruz da
Ordem de Isabel, a Católica.
Em 1993 recebe o Prêmio Jabuti,
instituído pela Câmara Brasileira
do Livro.
João Cabral era atormentado por
uma dor de cabeça que não o
deixava de forma alguma. Ao saber,
anos atrás, que sofria de uma
doença degenerativa incurável, que
faria sua visão desaparecer aos
poucos, o poeta anunciou que ia
parar de escrever. Já em 1990, com
a finalidade de ajudá-lo a vencer
os males físicos e a depressão,
Marly, sua segunda esposa, passa a
escrever alguns textos tidos como
de autoria do biografado. Conforme
declarações de amigos, escreveu o
discurso de agradecimento feito
pelo autor ao receber o Prêmio
Luis de Camões, considerado o mais
importante prêmio concedido a
escritores da língua portuguesa,
entre outros. Foi a forma
encontrada para tentar tirá-lo do
estado depressivo em que se
encontrava. Como não admirava a
música, o autor foi perdendo
também a vontade de falar ("Não
tenho muito o que dizer",
argumentava). Era, sem dúvida, o
nosso mais forte concorrente ao
prêmio Nobel, com diversas
indicações dos mais variados
segmentos de nossa sociedade.
Transcrevemos abaixo o discurso
proferido por Arnaldo Niskier,
presidente da Academia Brasileira
de Letras, por ocasião da morte do
poeta, em 09/10/99:
"Adeus a João Cabral"
"Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva."
Vida que foi para João Cabral uma
bonita e ao mesmo tempo sofrida
obra de engenharia poética, como
demonstrou no seu inesquecível
Morte e Vida Severina.
Aqui está o poeta João Cabral de
Melo Neto, presente pela última
vez na Academia Brasileira de
Letras, de que foi, por 30 anos,
uma das figuras fundamentais. Aos
79 anos, apaga-se a voz de
significação universal, com a
singularidade do seu verso, tantas
vezes lembrado para a glória do
Prêmio Nobel de Literatura.
A nossa dor, que é também a da sua
companheira Marly de Oliveira e
dos seus filhos e demais parentes,
não apaga da nossa memória a
convicção de que foi ele um dos
maiores poetas brasileiros de
todos os tempos - o poeta da razão
- que jamais esqueceu, mesmo nos
40 anos de vida diplomática, as
suas raízes pernambucanas. O homem
que soube desenhar em versos
cálidos a saga do retirante
nordestino, quando ainda não havia
passado dos 35 anos de idade.
João Cabral, o poeta João, que não
se conformava em perfumar a flor,
é o mesmo que escreveu aos 22 anos
o livro Pedra do Sono, para depois
nos brindar, entre outros, com O
engenheiro, O cão sem plumas,
Poesias completas, A educação pela
pedra e o antológico Morte e Vida
Severina, com versões no teatro e
na mídia eletrônica.
Fecham-se os olhos cansados do
poeta João e não conseguimos
realizar o sonho que agora
desvendo: ver o América Futebol
Clube voltar aos seus dias de
glória. Nem o daqui do Rio, nem
aquele que era a sua verdadeira
paixão: o América do Recife.
Quando preparava com ele a
Cabraliana, que foi o seu primeiro
audiolivro, ouvi fantásticas
histórias da vida diplomática,
especialmente dos tempos de
Portugal, Espanha e Marrocos, além
de nele reconhecer um orgulho
especial pela família, parente que
foi de grandes escritores
brasileiros, como Gilberto Freyre,
Manuel Bandeira, Mauro Mota e
Antônio de Moraes e Silva, o
famoso Moraes do Dicionário de
Língua Portuguesa. Parece que era
herdeiro, no seu jeito tão humilde
e cativante, de uma genética
literária originalíssima.
É compreensível a nossa
consternação. Enquanto a saúde
permitiu, honrou esta casa com a
sua assiduidade e o seu sentimento
da mais pura cordialidade.
Sofrendo agora com o seu silêncio,
curvamo-nos diante do grande
poeta, para afirmar que a Academia
sempre o terá presente, com a
saudade e a admiração de todos os
seus confrades.
Descanse em paz, poeta João. A sua
presença jamais deixará de estar
conosco. "Teremos o consolo da sua
poesia imortal."
Acima:
Dados obtidos nos livros do autor,
em "Obra Completa", organizada por
Marly de Oliveira com assistência
do autor e em sites da Internet.
Por temperamento, apesar de ter
vivido em meio à exuberância
sonora dos ritmos pernambucanos,
João Cabral de Melo Neto foi um
poeta não-musical, avesso
principalmente à melodia e à
musicalidade do verso. Através de
rigoroso trabalho de linguagem e
construção, a dura poesia de
Cabral, feita de "pedras" e a "palo
seco", como gostava de dizer,
inspira-se na aridez geográfica e
humana do sertão para se tornar,
também ela, uma poesia seca e
exterior.
Trechos do poema
A PALO SECO
( Quaderna - 1960 )
Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;
se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.
O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;
é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.
A palo seco existem
situações e objetos:
Graciliano Ramos,
desenho de arquiteto,
as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.
Eis uns poucos exemplos
de ser a palo seco,
dos quais se retirar
higiene ou conselho:
não de aceitar o seco
por resignadamente,
mas de empregar o seco
porque é mais contundente.
Tecendo a Manhã
1.
Um galo sozinho não tece uma
manhã:
ele precisará sempre de outros
galos.
De um que apanhe esse grito que
ele
e o lance a outro; de um outro
galo
que apanhe o grito de um galo
antes
e o lance a outro; e de outros
galos
que com muitos outros galos se
cruzem
os fios de sol de seus gritos de
galo,
para que a manhã, desde uma teia
tênue,
se vá tecendo, entre todos os
galos.
2.
E se encorpando em tela, entre
todos,
se erguendo tenda, onde entrem
todos,
se entretendendo para todos, no
toldo
(a manhã) que plana livre de
armação.
A manhã, toldo de um tecido tão
aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz
balão.
João Cabral de Melo Neto
A EDUCAÇÃO PELA PEDRA
Uma educação pela pedra: por
lições;
Para aprender da pedra,
freqüentá-la;
Captar sua voz inenfática,
impessoal
(pela de dicção ela começa as
aulas).
A lição de moral, sua resistência
fria
Ao que flui e a fluir, a ser
maleada;
A de poética, sua carnadura
concreta;
A de economia, seu adensar-se
compacta:
Lições da pedra (de fora para
dentro,
Cartilha muda), para quem
soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no
Sertão
(de dentro para fora, e
pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe
lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria
nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a
pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a
alma.
NUM MONUMENTO A ASPIRINA
Claramente: o mais prático dos
sóis,
o sol de um comprimido de
aspirina:
de emprego fácil, portátil e
barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol
artificial,
que nada limita a funcionar de
dia,
que a noite não expulsa, cada
noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita
dele
levanta e vem (sempre num claro
dia):
acende, para secar a aniagem da
alma,
quará-la, em linhos de um
meio-dia.
Convergem: a aparência e os
efeitos
da lente do comprimido de
aspirina:
o acabamento esmerado desse
cristal,
polido a esmeril e repolido a
lima,
prefigura o clima onde ele faz
viver
e o cartesiano de tudo nesse
clima.
De outro lado, porque lente
interna,
de uso interno, por detrás da
retina,
não serve exclusivamente para o
olho
a lente, ou o comprimido de
aspirina:
ela reenfoca, para o corpo
inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
(Em A educação pela pedra -
1966)
DE SÃO LOURENÇO A PONTE DE PRATA
Vou pensando no mar
que daqui ainda estou vendo;
em tôda aquela gente
numa terra tão viva morrendo.
Através dêste mar
vou chegando a São Lourenço,
que de longe é como ilha
no horizonte de cana aparecendo;
através dêste mar,
como um barco na corrente,
mesmo sendo eu o rio,
que vou navegando parece.
Navegando Êste mar,
até o Recife irei,
que as ondas dêste mar
sòmente lá se detêm.
Ao entrar no Recife,
não pensem que entro só.
Entra comigo a gente
que comigo baixou
por essa velha estrada
que vem do interior;
entram comigo rios
a quem o mar chamou,
entra comigo a gente
que com o mar sonhou,
e também retirantes
em que só o suor não secou;
e entra essa gente triste,
a mais triste que já baixou,
a gente que a usina,
depois de mastigar, largou.
Entra a gente que a usina
depois de mastigar largou;
entra aquêle usineiro
que outro maior devorou;
entra êsse banguêzeiro
reduzido a fornecedor;
entra detrás um dêstes,
que agora é um simples morador;
detrás, o morador
que nova safra já não fundou;
entra, como cassaco,
êsse antigo morador;
entra enfim o cassaco
que por tôdas aquelas bôcas
passou.
Detrás de cada bôca,
êle vê que há uma bôca maior.
DA PONTE DE PRATA A CAXANGA
A gente das usinas
foi mais um afluente a engrossar
aquêle rio de gente
que vem de além do Jacarará.
Pelo mesmo caminho
que venho seguindo desde lá,
vamos juntos, dois rios,
cada um para seu mar.
O trem outro caminho
tomou na Ponte de Prata;
foi por Tijipió
e pelos mangues de Afogados.
Sempre com retirantes,
vou pela Várzea e por Caxangá
onde as últimas ondas
de cana se vêm espraiar.
Entra-se no Recife
pelo engenho São Francisco.
Já em terras da Várzea,
está São João, uma antiga usina.
Depois se atinge a Várzea,
a vila pròpriamente dita,
com suas árvores velhas
que dão uma sombra também antiga.
A seguir, Caxangá,
também velha e recolhida,
onde começa a estrada
dita Nova, ou de Iputinga,
que quase reta à cidade,
que é o mar a que se destina,
leva a gente que veio
baixando em minha companhia.
Vou deixando à direita
aquela planície aterrada
que desde os pés de Olinda
até os montes Guararapes,
e que de Caxangá
até o mar oceano,
para formar o Recife
os rios vão sempre atulhando.
Com água densa de terra
onde muitas usinas urinaram,
água densa de terra
e de muitas ilhas engravidada.
Com substância de vida
é que os rios a vão aterrando,
com êsse lixos de vida
que os rios viemos carreando.
AS DUAS CIDADES
Mas antes de ir ao mar,
onde minha fala se perde,
vou contar da cidade
habitada por aquela gente
que veio meu caminho
e de quem fui o confidente.
Lá pelo Beberibe
aquela cidade também se estende
pois sempre junto aos rios
prefere se fixar aquela gente;
sempre perto dos rios,
companheiros de antigamente,
como se não pudessem
por um minuto sòmente
dispensar a presença
de seus conhecidos de sempre.
Conheço todos êles,
do Agreste e da Caatinga;
gente também da Mata
vomitada pelas usinas;
gente também daqui
que trabalha nestas usinas,
que aqui não moem cana,
moem coisas muito mais finas.
Muitas eu vi passar:
fábricas, como aqui se apelidam;
têm bueiro como usina,
são iguais também por famintas.
Só que as enormes bôcas
que existem aqui nestas usinas
encontram muitas pedras
dentro de sua farinha.
A gente da cidade
que há no avêsso do Recife
tem em mim um amigo,
seu companheiro mais íntimo.
Vivo como esta gente,
entro-lhes pela cozinha;
como bicho de casa
penetro nas camarinhas.
As vilas que passei
sempre abracei como amigo;
desta vila de lama
é que sou mais do que amigo:
sou o amante, que abraça
com corpo mais confundido;
sou o amante, com ela
leito de lama divido.
Tudo o que encontrei
na minha longa descida,
montanhas, povoados,
caieiras, viveiros, olarias,
mesmo êsses pés de cana
que tão iguais me pareciam,
tudo levava um nome
com que poder ser conhecido.
A não ser esta gente
que pelos mangues habita:
êles são gente apenas
sem nenhum nome que os distinga;
que os distinga na morte
que aqui é anônima e seguida.
São como ondas de mar,
uma só onda, e sucessiva.
A não ser esta cidade
que vim encontrar sob o Recife:
sua metade podre
que com lama podre se edifica.
É cidade sem nome
sob a capital tão conhecida.
Se é também capital,
será uma capital mendiga.
É cidade sem ruas
e sem casas que se diga.
De outra qualquer cidade
possui apenas polícia.
Desta capital podre
só as estatísticas dão notícia,
ao medir sua morte,
pois não há o que medir em sua
vida.
Conheço tôda a gente
que deságua nestes alagados.
Não estão no nível de cais,
vivem no nível de lama e do
pântano.
Gente de ôlho perdido
olhando-me sempre passar
como se eu fôsse trem
ou carro de viajar.
É gente que assim me olha
desde o sertão do Jacarará;
gente que sempre me olha
como se, de tanto me olhar,
eu pudesse o milagre
de, num dia ainda por chegar,
legar todos comigo,
retirantes para o mar.
VOLTA A PERNAMBUCO
A Benedito Coutinho
Contemplando a maré baixa
nos mangues do Tijipió
lembro a baía de Dublin
que daqui já me lembrou.
Em meio à bacia negra
desta maré quando em cio,
eis a Albufera, Valência,
onde o Recife me surgiu.
As janelas do cais da Aurora,
olhos compridos, vadios,
incansáveis, como em Chelsea,
vêem rio substituir rio,
e essas várzeas de Tiuma
com seus estendais de cana
vêm devolver-me os trigais
de Guadalajara, Espanha.
Mas as lajes da cidade
não me devolvem só uma,
nem foi uma só cidade
que me lembrou destas ruas.
As cidades se parecem
nas pedras do calçamento
das ruas artérias regando
faces de vário cimento,
por onde iguais procissões
do trabalho, sem andor,
vão levar o seu produto
aos mercados do suor.
Todas lembravam o Recife,
este em todas se situa,
em todas em que é um crime
para o povo estar na rua,
em todas em que esse crime,
traço comum que surpreendo,
pôs nódoas de vida humana
nas pedras do pavimento.
( Em Paisagens com Figuras
-1954)
Trechos de O CÃO SEM PLUMAS
Discurso do Capibaribe
Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.
Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.
O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.
Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de
[secretas
e íntimas formigas.
E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.
...
Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia,
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).
(...) Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor de rosa,
da água do copo de água,
da água do cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa. (...)
Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
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