MAURO MOTA

(DECLAMAÇÃO NA VOZ DO POETA - O Boi de Barro)

MAURO MOTA

 


 

Trabalho e pesquisa de Mercêdes Pordeus

Biografia  
 

Mauro Ramos da Mota e Albuquerque nasceu no Recife, a 16 de agosto de 1911, filho de José Feliciano Mota Albuquerque, advogado, e Aline de M. Albuquerque. Era casado com Marly Mota, com quem teve 4 filhos: Maurício Mota, Eduardo Mota, Sérgio Mota e Tereza Alexandrina Mota. Com Hermantine Cortez, sua primeira esposa, teve 2 filhos: Roberto Mota e Luciana Mota. Passou a infância em Nazaré da Mata, Pernambuco, zona açucareira, onde fez parte do curso primario. Em 1924, voltou para o Recife, hospedando-se na casa do avó. Matriculado no ginásio do Recife, dois anos depois passou para o colégio Salesiano, cultivando amizade com Álvaro Lins. No Colégio, o padre Nestor de Alencar ensinou-o a fazer versos e publicou os primeiros trabalhos em "0 Colegial", jornal dirigido pelo religioso.

Em 1928, voltou ao Ginásio do Recife, para fazer os preparatórios, com Alvaro Lins. No Ginásio, encontrou os irmãos Condé, José e João. Os três se iniciaram no jornalismo, escrevendo em "A pilhéria" e na "Revista da Cidade". Pertenceu, durante algum tempo, ao Silogeu Pernambucano de Letras e, posteriormente, ingressou na Academia Recifense de Letras. Em 1937, bacharelou-se Dela Faculdade de Direito do Recife. Formado, continuou no jornalismo. Trabalhou no antigo "Diário da Manhã", e chegou a ser Secretário e redator-chefe.

Em 1941, entrou para o magistério e para o "Diário de Pernambuco", exercendo a direção do jornal a partir de 1956. Como secretário, em 1948, reformou o suplemento do jornal Mais antigo da América Latina, abrindo-o aos novos valores do Nordeste e iniciando a secção de meia página, até hoje mantida, de comentários e informações sobre livros e autores.

No ano de 1952, publicou alguns poemas reunidos no volume "Elegias", editado pelo "Jornal de Letras". Prefaciado por Álvaro Lins, o livro recebeu prêmios da Academia Brasileira Letra de Letras e da Academia Pernambucana de Letras. Publicou outras obras, entre as quais: "A Tecelã"(poemas), 1957; "Os Epitáfios" (poemas), 1959; "0 Galo e o Cata-Vento" (versos), 1962; consolidando cada vez mais, sua posição de poeta. Em 1955, tornou-se catedrático, por concurso, de Geografia do Brasil, no Instituto de educação de Pernambuco. Apresentou a tese "0 Cajueiro Nordestino". Em 15 de março de 1556 foi nomeado pelo Presidente da República Juscelino Kubitschek para o cargo de Diretor a Executivo do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, órgão do Ministério da Educação e Cultura, permanecendo até 1970.

Ocupou também o cargo de Diretor do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura de Pernambuco e de Diretor do Arquivo Público Estadual de Pernambuco. Em 05 de janeiro de 1970 é eleito para a Academia Brasileira de Letras, na vaga de Gilberto Amado, tomando posse a 28 de agosto de 1970. Foi membro do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco e da Academia Pernambucana de Letras e sócio correspondente, em Pernambuco, das Academias de Letras Paulista, mineira, paraibana e alagoana. Recebeu inúmeras honrarias, entre as quais: Medalha Pernambucana do Mérito (1963), Comenda da Fundação Cultural Manuel Bandeira (Campina Grande-PB,1971), Medalha Joaquim Nabuco, da Assembléia Legislativa dó Estado de Pernambuco. Faleceu, no Recife, a 22 de novembro de 1984.

Os registros catalográficos dos documentos textuais de Mauro Mota podem ser consultados na base de dados PERSONA  
 

http://www.sobresites.com/poesia/consagrados1.htm 

 


 
 

Entenda o circuito da poesia em Recife 
 

Um Recife mais poético, com esculturas de personagens que cantaram a cidade como fonte de inspiração e tema em suas obras. Com esse propósito, o prefeito João Paulo lançou, na manhã desta terça-feira, na sala de reuniões do seu gabinete, o Projeto Circuito de Poesia - Cantos do Recife, que prevê a instalação de dez esculturas em concreto e tamanho natural, representando personalidades conhecidas e ambientadas em lugares estratégicos do centro da cidade, formando um percurso de visitação. Na primeira etapa serão homenageados Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Capiba, Carlos Pena Filho e Clarice Lispector. 
O projeto será viabilizado em duas etapas. Nesse primeiro momento, serão confeccionadas cinco esculturas, numa parceria entre a Prefeitura e o Banco do Brasil. Durante o evento, o prefeito João Paulo destacou a importância do projeto pelo potencial cultural do Recife, pela alegria e alma poética do seu povo. "O povo recifense vive poesia. Temos que mostrar a quem chega essa potencialidade. As esculturas serão a tradução de tudo que somos, materializado nas mãos do artista", disse. O superintendente Estadual do Banco do Brasil, Valdemir Diniz, destacou a parceria de sucesso entre a Prefeitura e a instituição e resumiu o projeto como "um fomento ao turismo da cidade".
 
 

O trabalho desenvolvido pelo artista plástico Demetrio Albuquerque, para a criação das esculturas, durou quatro meses para ser finalizado. O artista utilizou alguns critérios para escolha dos locais onde foram implantadas as obras. “Os monumentos estão situados em locais que fizeram parte do cotidiano do artista ou em espaços que foram abordados na obra do poeta”, explicou.  
 
Antônio Maria ficou na Rua do Bom Jesus porque é um local de boêmia e grande movimento cultural. Já o poeta Joaquim Cardozo está na Ponte Maurício de Nassau devido às citações encontradas na obra do poeta sobre o Rio Capibaribe. Ascenso Ferreira ficou no Cais da Alfândega em cima de pilhas de livros, local bastante visitado pelo poeta. Como o Arquivo Público foi um local onde Mauro Mota trabalhou, a Praça do Sebo, muito freqüentada pelo escritor, foi o local escolhido. Finalmente, Luiz Gonzaga ficou situado na Estação Central para homenagear os migrantes nordestinos.  
 
Outra característica encontrada nas estátuas é a interatividade. Todas as obras possuem algum aspecto que proporcionará aos visitantes a sensação de proximidade do artista. “Todas as esculturas possuem um ponto de interação. A exemplo da peça de Antônio Maria, onde ele se apresenta ao pé de uma mesa de bar com um banco vazio ao seu lado, aguardando a visita de alguém”, afirma o Albuquerque.  
 
O Circuito da Poesia foi iniciado em dezembro de 2005, quando foram apresentadas aos recifenses as esculturas dos artistas: Carlos Pena Filho, na Praça da Independência, Capiba, na Rua da Aurora, Clarice Lispector, na Praça Maciel Pinheiro, João Cabral de Melo Neto e Manoel Bandeira, na Rua da Aurora
.  
A penúltima escultura a ser apresentada aos recifenses foi a de Mauro Mota, na Praça do Sebo. O prefeito e o filho do escritor, Maurício Motta, inauguraram a estátua, que mostra o poeta lendo um livro sentado num banco de madeira.

 

http://noticias.recife.pe.gov.br/index.php?GrupoCodigo=15&UltAnt=25467&DatAnt=27/12/2006&GrupoCodigoMateria=15 
 

 

POEMAS DE MAURO MOTA 
 

0 BOI DE BARRO

 

         A Abelardo Rodrigues

 

Andando em muitos sapatos

e jamais nas suas patas,

Entre enormes chifres curvos

sente-se (o  boi) entre aspas.

 

É um boi verde vidrado

acuado em cima da estante.

É um boi desenterrado

telúrico e ruminante.

 

Quem o desenterrou foi

Abelardo em Tracunhaém.

No barro da beira-rio

estava escondido o boi

 

desgarrado do rebanho.

Feito do gado anterior,

de estrume e de capim seco,

é este boi ruminador.

 

Estava desfeito ou feito?

No ato da exumação,

apareceram sangrantes

as feridas do aguilhão,

 

da corda e do pau da canga,

da asfixia do cambão,

do ferro em brasa nas ancas,

da chaga da castração.

 

As quatro rodas chiadeiras

do carro que já puxara

rodaram sobre o esqueleto,

fizeram sulcos na cara.

 

A semente vacum dentro

do chão mole do curral.

O boi vegetariano,

vegetal e mineral,

 

comeu do pasto e foi pasto,

misturou-se com o chão

para nascer no roçado,

oculto na plantação,

 

dando marradas no vento

da várzea pernambucana,

esse boi de chifres doces,

chifres de cana-caiana.

 

Toca o chocalho. O mugido

do boi de barro enche a sala.

(Cresce a grama no tapete.)

Pego no boi, ele racha.  
 

 De Os Epitáfios-Poemas.  Rio de Janeiro:Livraria José Olympio

Editora, 1959.  
 
 

DOMINGO NO RECIFE

Mauro Mota - Fragmento 
 

Vejo do cais da Rua da Aurora, 

— o domingo fugindo nas ioles,

na cor da tarde, no vôo dos passarinhos,

na bicicleta de Suzana.

 

Assisto ao suicídio do domingo no Recife,

o domingo jogando-se da Torre do Diario,

na música do carrilhão batendo meia-noite.

 

Receio de entrar na madrugada fria.

Recolho na praça as horas despedaçadas.

Quero que este domingo seja a antecipação da eternidade.

 

(In Voz Poética, CD organizado por Paulo Bruscky. Recife: CEPE-UFPE, 1997)

 

Para ler e ouvir o poema na íntegra e muito mais,  clique neste endereço:

 http://www.plataforma.paraapoesia.nom.br/plink2mmota.htm 
 
 

ELEGIA n° 1

 

Vejo-te morta. As brancas mãos pendentes.

Delas agora, sem querer, libertas.

A alma dos gestos e, dos lábios quentes.

Ainda, as frases pensadas só em certas.

 

Tardes perdidas. Sob as entreabertas

pálpebras, sinto, em teu olhar presentes,

Mundos de imagens que, às regiões desertas

da morte, levarás, que a morte sentes.

 

Fria diante de todos os apelos.

Vejo-te morta. Viva, a cabeleira,

teus cabelos voando! Ah! Teus cabelos!

 

Gesto de desespero e despedida,

Para ficares de qualquer maneira

Pelos fios castanhos presa à vida.

 

De Elegias.  Edição Jornal de Rio, 1952. 
 

O CÃO

 

         A Edson Nery da Fonseca

 

É um cão negro. É talvez o próprio Cão

assombrado e fazendo assombração.

Estraçalha o silêncio com seus uivos.

A espada ígnea do olhar na  escuridão

 

separa a noite, abre um canal no escuro.

Cão da Constelação do Grande Cão,

tombado no quintal, espreita o pulo:

duendes, fantasmas de ladrão no muro.

 

O latido ancestral liberta a fome

de tempo, e o cão, presa  do faro, come

o medo e atreva. Agita-se, devora.

 

Sua ração de cor. Pois, louco e uivante,

Lambe os pontos cardeais, morde o levante;

E bebe o sangue matinal da aurora.

        

De Os Epitáfios. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1959.   
 
Foto 1 – Mauro Mota 

 

Foto 2 – Escultura do poeta

Foto Victor Jerônimo 

 

Foto 3 – Placa explicativa sobre o poeta

Foto Victor Jerônimo 

 

Foto 4 – inauguração da escultora do Poeta Mauro Mota, ao lago o Prefeito do Recife João Paulo.

Foto de Inaldo Lins. 

 

Foto 5 - Mauro Mota e Mercêdes Pordeus - (Praça do Sebo  no centro do Recife)

Foto de Victor Jerónimo

 

Foto 6 - Mauro Mota e Victor Jerónimo -  (Praça do Sebo  no centro do Recife)
Foto de Mercêdes Pordeus

 

 

 

 

 

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