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Clarice Lispector
A ETERNA BUSCA DA
GÊNESE:
ARTE E SOFRIMENTO
Vanilda Batista Pordeus (¹)
Trabalho e pesquisa de Mercêdes
Pordeus
São belas as coisas inspiradas
pela loucura e escritas pela
razão.
(André Gide)
O que me descontrai por incrível
que pareça é pintar. Sem ser
pintora de forma alguma e sem
aprender nenhuma técnica. Pinto
tão mal que dá gosto e não mosto
meus, entre aspas, quadros, a
ninguém. É relaxante e ao mesmo
tempo excitante mexer com cores e
forma sem compromisso com coisa
alguma. É a coisa mais pura que
faço (...). Acho que o mesmo
processo de um pintor e do
escritor são da mesma fonte. O
texto deve se exprimir através das
imagens e as imagens são feitas de
luz, cores, figuras, perspectivas,
volumes, sensações.
Quero
pintar uma tela branca. Como se
faz? É a coisa mais difícil do
mundo.
A nudez. O número zero. Como
atingi-los?
Só chegando suponho, o núcleo
último da pessoa. (Clarice
Lispector)
Quem conhece o expressionismo
abstrato do respeitável do
respeitável Jackson Pollock? Veja
também os quadros de
Clarice!...ele é também um artista
possuidor de uma inconformação
existencial de momentos de baixa
auto-estima, de uma tremenda força
e uma mente tão veloz que parecia
explodir todo o seu sentimento de
uma só vez, para ele a vida era
muito pouco, como poucas eram as
pessoas que o compreendiam. Veja
bem Clarice!...e tire suas
próprias conclusões. É esta a
Clarice que também precisa ser
revelada, a que implode e explode,
expressando-se tão fortemente, só
que com outra matéria (não a
palavra)mostrando que ambas as
formas contêm as mesma emoções, as
mesma sensações e que o ser humano
sofre e se inquieta e busca a cura
e a liberdade sob qualquer forma
de arte.
Os professores Teotônio Marcos
Filho e Deisa chaves atribuem
entre alguns recursos técnicos
próprios de Clarice Lispector "a
'sensação de pintura' que
prevalece nos seus contos: a
narrativa é sempre feita através
de observações visuais".
Já Graziela Costa Pinto diz: "Como
num econômico esboço, desenha a
alienação do sujeito da
consciência preso que está nos
jogos identificatórios sob a
ilusão da síntese de si..."
Ao longo de toda a história da
humanidade, profetas, filósofos,
pensadores que deram origem a
todas as ciências e artes, no
Oriente ou Ocidente céticos ou
místicos precisaram do ritmo e da
expansão. Cada um de acordo com
suas conveniências , com elemento
vitais para a sua expressão e com
suas obras e experiências para
gerações subseqüentes.
Seres humanos que pulsavam mais,
que transgrediam, tinham a sua
sanidade questionada,
marginalizados, submetidos aos
mais variados martírio para depois
de séculos concluir-se que estavam
certos e que eram brilhantes.
Ocorreu que esses seres
conturbados, que viviam sob
instabilidades psíquicas pensavam
demais e pensavam por todos. Em
pleno século vinte e um pede-se
perdão pelos abandonos, pelos
equívocos, pelas mortes causadas
no passado. E a história ficou
interrompida e o mundo é
infinitamente menor pelas
barbáries cometidas no passado.
.Por que penaliza-los? Que culpa
tiveram ou têm eles, artífices da
vida. Afinal toda a sua obra, seja
ela música, pintura, escultura,
literatura, sejam cientistas ou
religiosos, eles já foram reféns
na própria vida, ou.. da própria
vida! Viveram acorrentados aos
seus pensamentos e alguns
possivelmente a distúrbios de
humor, prisioneiros da própria
mente , para criar arte,
tecnologia para um viver digno na
posteridade, quer pela instigação
do pensar quer pelo diletantismo,
pelo prazer., maravilhosas e
sofridas criaturas.
Pensar é estar doente dos
olhos, disse Alberto Caeiro. Pode
ser que você não se tenha dado
conta disso, mas a verdade é que
todas as coisas belas do mundo são
filhas da doença. O homem cria a
beleza como remédio para sua
doença, como bálsamo para o seu
medo de morrer. Pessoas que gozam
saúde perfeita não criam nada. Se
dependesse delas o mundo uma
mesmice chata. Por que haveriam de
criar? A criação é o fruto do
sofrimento.
(Rubem Alves)
Afirma Jules Romain: "Todo homem
com saúde é um se que se ignora".
"Será que esta por acaso é uma boa
nova?" Pergunta Gerard Lebrun .
Mentes inquietas - costumam-se
dizer que existe uma tênue linha
que separa a genialidade da
loucura. "Hoje, porém não há mais
dúvida da saúde psíquica de tais
personalidades" diz Urlich Kraft
em seu artigo: Sobre gênios e
loucos na revista "Viver" : mente
e cérebro e cita Anne Sexton " A
literatura me peou pela mão e me
salvou da loucura".
Clarice
Lispector também disse: "Tenho que
falar, pois falar salva". Em outra
ocasião se pronunciou: "O ato
criador é perigoso, porque a gente
pode ir e não voltar mais. Todo
artista corre um grande risco. Até
de loucura". De outra feita: "Não
quero ter a terrível limitação de
quem vive o que é possível fazer
sentido". "A vida é curta demais
para eu ler todo o dicionário a
fim de por acaso descobrir uma
palavra salvadora".
Não se preocupe em "entender",
viver ultrapassa todo
entendimento.
Eu sou uma pergunta.
(Clarice Lispector)
Texto: OFICINA LITERÁRIA CLARICE
LISPECTOR 2004
Organizadora: Fátima Quintas
Centro Cultural Brasil Espanha do
Recife
2005
Edições Bagaço Recife/PE
Capa: Vanilda Batista Pordeus

CLARICE, QUEM É
VOCÊ?
Rosa Lispector
"Atendendo à sugestão da amiga
Fátima Quintas, idealizadora,
coordenadora e facilitadora da
Oficina Literária Clarice
Lispector do Centro Cultural
Brasil-Espanha, encerrarei o ano
com um trabalho sobre o mito da
mulher-escritora Clarice
Lispector".
Falarei nela, e não dela — de sua
literatura. Apenas seu perfil.
Clarice Lispector, quem é você?
Clarice nasceu na aldeia
Tchecheinik quando a família
emigrava da Rússia para a América,
fugindo da perseguição aos judeus
após a Revolução Bolchevique de
1917. Aldeia aquela que, de tão
pequena, não constava no mapa da
Ucrânia que com a Letônia, a
Lituânia, a Estônia, a Yugoslávia,
a Polónia, a Roménia, a Bessarábia,
hoje Moldávia (onde meus pais
nasceram), faziam parte da União
Soviética.
Atualmente, estão todos esses
países separados, sendo o maior
deles, a Rússia propriamente dita.
Os pais de Clarice, Pedro e
Marieta, hesitaram entre os
Estados Unidos e o Brasil e
acabaram aportando em Maceió no
ano de 1921, onde Marieta tinha
família — os Rabin.
Estava Clarice com dois meses de
idade — suas irmãs Elisa e Tânia
já eram meninas maiores. Após três
anos, em 1924, a família mudou-se
para o Recife onde residiu por dez
anos. E nesse período, recém
alfabetizada, que Clarice
descobriu a literatura — ela mesma
disse: "quando aprendi a ler e
escrever, eu devorava os livros"!
Eu pensava que livro é como
árvore, como bicho: coisa que
nasce. Lá pelas tantas, eu
descobri que vinha dum autor. Aí
disse: "Eu também quero". A
pequena escritora, então com sete
anos, começou a mandar contos para
a seção infantil do Diário de
Pernambuco, que nunca os publicou.
As outras crianças eram publicadas
e eu não, relembra Clarice. Logo
compreendi por quê: elas contavam
histórias, uma anedota,
acontecimentos, ao passo que eu
relatava sensações... coisas
vagas. Aos dez anos, após assistir
a uma peça de teatro no Recife,
escreveu a sua em três atos, mas
perdeu os originais.
Voltando ao seu nascimento, ela
revelou que houve uma "falha" na
sua origem. Foi preparada para ser
dada à luz de um modo bonito — sua
mãe já estava doente e, por
superstição bastante espalhada,
acreditava-se que ter um filho
curava a mulher de sua doença.
Então ela foi deliberadamente
criada: com amor e esperança. Só
que não curou a mãe e levou sempre
essa carga de culpa, achando que
falhou na missão determinada pela
qual ela foi feita, dizendo: "como
se contassem comigo nas
trincheiras de uma guerra e eu
tivesse desertado. Sei que meus
pais me perdoaram em ter nascido
em vão e tê-los traído na grande
esperança. Mas eu, eu não me
perdôo". Sua mãe sofria de uma
paralisia progressiva que a tornou
inválida, até morrer em 1930,
estando Clarice aos dez anos de
idade, órfã de mãe.
Aos vinte anos, perdeu seu pai, no
Rio de Janeiro. A ela, foi dado o
nome "Chaia" que em hebraico vem
do nome "Chai" que significa
"Vida". A tradução para o
português é Clara ou Clarice, ou
mesmo, Vida. Seria a esperança de
vida para Marieta, sua mãe? Ao
começar a publicar seus escritos,
com o verdadeiro nome, ouviu o
crítico Sérgio Milliet dizer: "Fiz
uma descoberta que me enche de
satisfação, diante daquele nome
estranho e até desagradável,
pseulônimo, sem dúvida, eu pensei:
mais uma dessas mocinhas que
principiam "cheias de qualidades",
que a gente pode elogiar de viva
voz, mas que morreriam de ataque
diante de uma crítica séria".
Quanto a seu estilo, adjetivos
foram usados: lírico, mágico,
místico, feminino, introspectivo,
psicografado, cheios de
significados específicos.
Sentia-se isolada nas letras
brasileiras e não pertencia a
nenhum grupo organizado. De fato,
seu estilo encontrava apenas em si
mesma a motivação e a própria
legitimidade.
Imigrante russa, nunca se sentiu
russa. Sentia-se, sobretudo,
brasileira, tendo o português como
língua materna. Numa entrevista
falou: "Sou brasileira ponto e
pronto". Nascida européia, criada
nordestina, residente carioca a
partir dos treze anos e, na
condição de esposa de diplomata,
habitante de vários países
(Itália, Suíça, Inglaterra,
Estados Unidos, Polónia, entre
outros).
De Berna, numa carta para a irmã
Tânia, em 1946, escreveu: "Tudo é
terra dos outros, onde os outros
estão contentes". O escritor
António Callado falou: "Clarice é
uma estrangeira na terra". Para o
jornalista Paulo Francis: "Clarice
era uma mulher insolúvel". Quando,
aos dezoito anos iniciou o curso
de Direito, pensava em reformar
penitenciárias. Ela mesma conta
que, por ter sido muito
reivindicadora de direitos quando
criança, todos diziam que seria
advogada, mas acabou escolhendo
estudar Direito por falta, diz
ela, "de qualquer outra orientação
profissional". Nunca exerceu o
ofício, nem mesmo para defender
seus próprios direitos autorais.
Se Clarice não reformou
penitenciária, como imaginava
quando estudante, certamente
continuou reivindicadora de seus
direitos, pelo menos em sua
fidelidade para criar sem
concessões. Aos vinte e três anos,
formou-se e casou-se com o colega
de turma e futuro embaixador Maury
Gurgel Valente. Clarice exerceu,
desde a faculdade, a atividade de
jornalista que permeou sua vida
até os últimos anos, em
simultaneidade com a de escritora.
Aos vinte anos não sei se por
premonição escreveu no conto
chamado "A FUGA", publicado
posteriormente no volume "A BELA E
A FERA" em 1979, onde a jovem
escritora narra os breves momentos
de uma esposa que resolve
separar-se, após doze anos de um
casamento sufocante, dizendo:
"Sim, doze anos pesam como quilos
de chumbo". Outra frase do mesmo
conto onde a partir de sutilezas
da linguagem, a protagonista se
põe a imaginar o que diria a um
transeunte: "Meu filho, eu era uma
mulher casada e sou agora uma
mulher". A simples retirada de um
adjetivo tem o alcance de um
ritual de passagem.
O tempo todo sua obra provoca
tanto fascínio, para alguns e
tanto mal-estar e perplexidade
para outros. É mitificada ou
rejeitada, ao longo de mais de
trinta anos de produção literária
passando por romances, contos,
crônicas e livros infantis. Foi
uma das primeiras repórteres
brasileiras.
Era
a única mulher redatora na Agência
Nacional.
Clarice Lispector escreveu 24
livros, tendo sido o último, "UM
SOPRO DE VIDA", publicado
posteriormente, em 1978.
Tinha o hábito de guardar folhas
soltas, guardanapos, tíquetes,
papéis de chicletes, etc, com
idéias surgidas ao longo das mais
variadas situações cotidianas. Às
vezes, fazia anotações em
carteiras de cigarros, dentro de
táxis, obedecendo a qualquer
inspiração.
Jamais reescrevia nem revisava
suas anotações fragmentárias e
dispersas --- acrescentava ou
cortava --- mas não reescrevia,
mantinha a idéia.
Uma vez anotou: "O que importa
afinal: viver ou saber que se está
vivendo? De outra feita:"
liberdade é pouco. "O que desejo
ainda não tem nome". E ainda: "O
mundo parece uma coisa uma coisa
vasta demais e sem síntese
possível". Sobre o livro "A MAÇÃ
NO ESCURO", a autora diz ter
copiado o texto onze vezes para
"saber o que estava querendo
dizer" e o considerou seu livro
mais bem estruturado. Porém, em
1969, escreveu em apenas nove
dias, o livro " UMA APRENDIZAGEM
OU O LIVRO DOS PRAZERES".
Já "ÁGUA VIVA", a autora
debateu-se durante três anos para
escrevê-lo.
Raros são os finais felizes nos
livros de Clarice.
Seu casamento terminou em 1959
após 16 anos de convivência,
retornando ao Brasil com dois
filhos: Pedro e Paulo.
Clarice iniciou a retomada de sua
vida no Rio de Janeiro.
Em 1967, um incêndio, causado por
um cigarro aceso e esquecido
durante a noite, fere gravemente
sua mão direita --- com que
escrevia --- ficando hospitalizada
e passando por várias cirurgias
para enxertos.
Recuperou-se, ficando com seqüelas
na mão, após ter estado entre a
vida e a morte, como relatou em
crônica futura. Foi um triste
marco na biografia da autora.
Os manuscritos tornaram-se
ilegíveis e ela passou a assinar
com bastante dificuldade. Ainda
assim, movida pela necessidade de
melhorar sua condição financeira,
escrevia crônicas para o Jornal do
Brasil.
Combatia os que consideravam uma
"escritora em transe", dizendo:
"jamais caí em transe na minha
vida. Não psicografo nem "baixa"
em mim nenhum pai-de-santo. Sou
como qualquer outro escritor".
Quando Clarice Lispector esteve na
TV cultura em 1977, para ser
entrevistada por Julio Lerner, no
progama, que apedido da autora, só
foi ao ar após seu falecimento em
9 de dezembro de 1977, ela faz
muito mistério sobre o livro que
estava escrevendo.
Afirmou, apenas, que ele teria 13
títulos e seria "a historia de uma
inocência pisada, de uma miséria
anônima".
Este livro é "A Hora da Estrela",
onde a protagonista, uma
nordestina, emigra para o Rio de
Janeiro "uma cidade feita toda
contra ela".
Será essa moça a imagem de Clarice
no espelho?
No livro "Água Viva", "ela
escreveu:" De tal modo a morte e
apenas futura que há quem não
agüente e se suicide".
Desisto
de explicar ou analisar Clarice
Lispector; ela mesma disse: "Se eu
tivesse que dar um titulo a minha
vida seria: "A procura da própria
coisa". E "Viver não é relatável".
Um dia falou: "Eu escrevo é assim
me livro de mim e posso
descansar".
E descansou da vida, no dia 9 de
dezembro de 1977, um dia antes de
completar 57 anos de idade.
Ao ser internada no hospital,
presidindo seu fim, tirou do braço
o relógio e um amuleto de cobre
inseparável deu-os a Olga Borelli,
dizendo: "Guarde isto não vou mais
precisar...".
Foi assim a Paixão, a Vida, e a
Morte da Estrela Clarice
Lispector.
Texto:
OFICINA LITERÁRIA CLARICE
LISPECTOR 2004
Organizadora: Fátima Quintas
Centro Cultural Brasil Espanha do
Recife
2005
Edições Bagaço Recife/PE
Capa: Vanilda Pordeus
CLARICE LISPECTOR
Biografia
As circunstâncias exteriores e a
trama narrativa têm importância
secundária nos contos e romances
de Clarice Lispector. Em busca de
uma linguagem especial para
expressar paixões e estados de
alma, a escritora utilizou
recursos técnicos modernos como a
análise psicológica e o monólogo
interior. Sua obra, densa e
original, figura entre as mais
importantes da narrativa literária
brasileira.
Clarice
Lispector nasceu em 10 de dezembro
de 1920 em Tchetchelnik, Ucrânia.
Quando ela contava apenas dois
meses de idade, sua família
mudou-se para o Brasil. Clarice
passou a infância em Recife PE e
em 1937 transferiu-se para o Rio
de Janeiro RJ, onde cursou
direito.
Estreou na literatura ainda muito
jovem com o romance Perto do
coração selvagem (1943), visão
interiorizada do mundo da
adolescência, que teve calorosa
acolhida da crítica e recebeu o
Prêmio Graça Aranha. Em 1944,
recém-casada, viajou para Nápoles,
onde serviu num hospital da Força
Expedicionária Brasileira. De
volta ao Brasil, publicou em 1946
O lustre e, depois de uma longa
estada na Suíça e Estados Unidos,
fixou-se no Rio de Janeiro.
A obra de Clarice Lispector
expressa uma visão profundamente
pessoal e existencialista do
dilema humano, num estilo que se
caracteriza pelo vocabulário
simples e pela estrutura frasal
elíptica. Sua ficção transcende o
tempo e o espaço; os personagens,
postos em situações limite, são
com freqüência femininos e só
secundariamente modernos ou mesmo
brasileiros.
A melhor prosa da autora se mostra
nos contos de A legião estrangeira
(1964) e Laços de família (1972).
Em obras como A maçã no escuro
(1961), A paixão segundo G.H.
(1964) e Água-viva (1973), os
personagens, alienados e em busca
de um sentido para a vida,
adquirem gradualmente consciência
de si mesmos e aceitam seu lugar
num universo arbitrário e eterno.
Escreveu ainda A cidade sitiada
(1949), Uma aprendizagem ou o
livro dos prazeres (1969) e A hora
da estrela (1977), que conta a
história de Macabéa, moça do
interior em busca de sobreviver na
cidade grande. A versão
cinematográfica desse romance,
dirigida por Suzana Amaral em
1985, conquistou os maiores
prêmios do festival de cinema de
Brasília e deu à atriz Marcélia
Cartaxo, que fez o papel
principal, o troféu Urso de Prata
em Berlim em 1986. Clarice
Lispector morreu no Rio de Janeiro
em 9 de dezembro de 1977.
©Encyclopaedia Britannica do
Brasil Publicações Ltda.
CLARICE LISPECTOR
Água viva (fragmento)
Sinta-se bem. Eu na minha solidão
quase vou explodir. Morrer deve
ser uma muda explosão interna. O
corpo não agüenta mais ser corpo.
E se morrer tiver o gosto de
comida quando se está com muita
fome? E se morrer for um prazer,
egoísta prazer?
Ontem eu estava tomando café e
ouvi a empregada na área de
serviço a pendurar roupa na corda
e a cantar uma melodia sem
palavras. Espécie de cantilena
extremamente plangente.
Perguntei-lhe de quem era a
canção, e ela respondeu: é bobagem
minha mesmo, não é de ninguém.
Sim, o que te escrevo não é de
ninguém. E essa liberdade de
ninguém é muito perigosa. É como o
infinito que tem cor de ar.
Isto tudo que estou escrevendo é
tão quente como um ovo quente que
a gente passa depressa de uma mão
para a outra e de novo da outra
para a primeira a fim de não se
queimar -- já pintei um ovo. E
agora como na pintura só digo: ovo
e basta.
Não, nunca fui moderna. E acontece
o seguinte: quando estranho uma
pintura é aí que é pintura. E
quando estranho a palavra aí é que
ela alcança o sentido. E quando
estranho a vida aí é que começa a
vida. Tomo conta para não me
ultrapassar. Há nisto tudo aqui
grande contenção. E então fico
triste só para descansar. Chego a
chorar manso de tristeza. Depois
levanto e de novo recomeço. Só não
te contaria agora uma história
porque no caso seria prostituição.
E não escrevo para te agradar.
Principalmente a mim mesma. Tenho
que seguir a linha pura e manter
não contaminado o meu it.
Agora te escreverei tudo o que me
vier à mente com o menor
policiamento possível. É que me
sinto atraída pelo desconhecido.
Mas enquanto eu tiver a mim não
estarei só. Vai começar: vou pegar
o presente em cada frase que
morre. Agora:
Ah se eu sei que era assim eu não
nascia. Ah se eu sei eu não
nascia. A loucura é vizinha da
mais cruel sensatez. Isto é uma
tempestade de cérebro e uma frase
mal tem a ver com outra. Engulo a
loucura que não é loucura -- é
outra coisa. Você me entende? Mas
vou ter que parar porque estou tão
e tão cansada que só morrer me
tiraria deste cansaço. Vou embora.
Voltei. Agora tentarei me
atualizar de novo com o que no
momento me ocorre -- e assim
criarei a mim mesma. É assim:
O anel que tu me deste era de
vidro e se quebrou e o amor
acabou. Mas às vezes em seu lugar
vem o belo ódio dos que se amaram
e se entredevoraram. A cadeira que
está aí em frente me é um objeto.
Inútil enquanto eu a olho.
Diga-me, por favor, que horas são
para eu saber que estou vivendo
nesta hora. Estou me encontrando
comigo mesma: é mortal porque só a
morte me conclui. Mas eu agüento
até o fim. Vou lhe contar um
segredo: a vida é mortal. Vou ter
que interromper tudo para te dizer
o seguinte: a morte é o impossível
e o intangível. De tal forma a
morte é apenas futura que há quem
não a agüente e se suicide. É como
se a vida dissesse o seguinte: e
simplesmente não houvesse o
seguinte. Só os dois pontos à
espera. Nós mantemos este segredo
em mutismo para esconder que cada
instante é mortal. O objeto
cadeira me interessa. Eu amo os
objetos na medida em que eles não
me amam. Mas se não compreendo o
que escrevo a culpa não é minha.
Tenho que falar porque falar
salva. Mas não tenho nenhuma
palavra a dizer. O que é que na
loucura da franqueza uma pessoa
diria a si mesma? Mas seria a
salvação. Embora o terror da
franqueza venha da parte das
trevas que me ligam ao mundo e à
criadora inconsciência do mundo.
Hoje é noite de muita estrela no
céu. Parou de chover. Eu estou
cega. Abro bem os olhos e apenas
vejo. Mas o segredo -- este não
vejo nem sinto. Estarei fazendo
aqui verdadeira orgia de detrás do
pensamento? Orgia de palavras? A
eletrola está quebrada. Olho a
cadeira e desta vez foi como se
ela também tivesse olhado e visto.
O futuro é meu -- enquanto eu
viver. Vejo as flores na jarra.
São flores do campo e que nasceram
sem se plantar. São amarelas. Mas
minha cozinheira disse: que flores
feias. Só porque é difícil amar o
que é franciscano. No atrás do meu
pensamento está a verdade que é a
do mundo. A ilogicidade da
natureza. Que silêncio. "Deus" é
de um tal enorme silêncio que me
aterroriza. Quem terá inventado a
cadeira? É preciso coragem para
escrever o que me vem: nunca se
sabe o que pode vir e assustar. O
monstro sagrado morreu. Em seu
lugar nasceu uma menina que era
órfã de mãe. Bem sei que terei que
parar. Não por falta de palavras,
mas porque estas coisas e,
sobretudo as que só penso e não
escrevi -- não se dizem. Vou falar
do que se chama a experiência. É a
experiência de pedir socorro e o
socorro ser dado. Talvez valha a
pena ter nascido para que um dia
mudamente se implore e mudamente
se receba. Eu pedi socorro e não
me foi negado. Senti-me então como
se eu fosse um tigre com flecha
mortal cravada na carne e que
estivesse rondando devagar as
pessoas medrosas para descobrir
quem teria coragem de aproximar-se
e tirar-lhe a dor. E então há a
pessoa que sabe que tigre ferido é
apenas tão perigoso como criança.
E aproximando-se da fera, sem medo
de tocá-la, arranca a flecha
fincada.
E o tigre? Não se pode agradecer.
Então eu dou umas voltas vagorosas
em frente à pessoa e hesito. Lambo
uma das patas e depois, como não é
a palavra que tem então
importância, afasto-me
silenciosamente.
O que sou neste instante? Sou uma
máquina de escrever fazendo ecoar
as teclas secas na úmida e escura
madrugada. Há muito já não sou
gente. Quiseram que eu fosse um
objeto. Sou um objeto. Que cria
outros objetos e a máquina cria a
nós todos. Ela exige. O
mecanicismo exige e exige a minha
vida. Mas eu não obedeço
totalmente: se tenho que ser um
objeto, que seja um objeto que
grita. Há uma coisa dentro de mim
que dói. Ah como dói e como grita
pedindo socorro. Mas faltam
lágrimas na máquina que sou. Sou
um objeto sem destino. Sou um
objeto nas mãos de quem? tal é o
meu destino humano. O que me salva
é grito. Eu protesto em nome do
que está dentro do objeto atrás do
atrás do pensamento-sentimento.
Sou um objeto urgente.
(Água viva. 10ª ed., Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 1980).
As águas do mundo
Aí está ele, o mar, a mais
ininteligível das existências não
humanas. E aqui está a mulher, de
pé na praia, o mais ininteligível
dos seres vivos. Como o ser humano
fez um dia uma pergunta sobre si
mesmo, tornou-se o mais
ininteligível dos seres vivos. Ela
e o mar.
Só poderia haver um encontro de
seus mistérios se um se entregasse
ao outro: a entrega de dois mundos
incognoscíveis feita com a
confiança com que se entregariam
duas compreensões.
Ela olha o mar, é o que pode
fazer. Ele só lhe é delimitado
pela linha do horizonte, isto é,
pela sua incapacidade humana de
ver a curvatura da terra.
São seis horas da manhã. Só um cão
livre hesita na praia, um cão
negro. Por que é que um cão é tão
livre? Porque ele é o mistério
vivo que não se indaga. A mulher
hesita porque vai entrar.
Seu corpo se consola com sua
própria exigüidade em relação à
vastidão do mar porque é a
exigüidade do corpo que o permite
manter-se quente e é essa
exigüidade que a torna pobre e
livre gente, com sua parte de
liberdade de cão nas areias. Esse
corpo entrará no ilimitado frio
que sem raiva ruge no silêncio das
seis horas. A mulher não está
sabendo: mas está cumprindo uma
coragem. Com a praia vazia nessa
hora da manhã, ela não tem o
exemplo de outros humanos que
transformam a entrada no mar em
simples jogo leviano de viver. Ela
está sozinha. O mar salgado não é
sozinho porque é salgado e grande,
e isso é uma realização. Nessa
hora ela se conhece menos ainda do
que conhece o mar. Sua coragem é a
de, não se conhecendo, no entanto
prosseguir. É fatal não se
conhecer, e não se conhecer exige
coragem.
Vai entrando. A água salgada é de
um frio que lhe arrepia em ritual
as pernas. Mas uma alegria fatal
-- a alegria é uma fatalidade --
já a tomou, embora nem lhe ocorra
sorrir. Pelo contrário, está muito
séria. O cheiro é de uma maresia
tonteante que a desperta de seus
mais adormecidos sonos seculares.
E agora ela está alerta, mesmo sem
pensar, como um caçador está
alerta sem pensar. A mulher é
agora uma compacta e uma leve e
uma aguda -- e abre caminho na
gelidez que, líquida, se opõe a
ela, e no entanto a deixa entrar,
como no amor em que a oposição
pode ser um pedido.
O caminho lento aumenta sua
coragem secreta. E de repente ela
se deixa cobrir pela primeira
onda. O sal, o iodo, tudo líquido,
deixam-na por uns instantes cega,
toda escorrendo -- espantada de
pé, fertilizada.
Agora o frio se transforma em
frígido. Avançando, ela abre o mar
pelo meio. Já não precisa da
coragem, agora já é antiga no
ritual. Abaixa a cabeça dentro do
brilho do mar, e retira uma
cabeleira que sai escorrendo toda
sobre os olhos salgados que ardem.
Brinca com a mão na água, pausada,
os cabelos ao sol quase
imediatamente já estão se
endurecendo de sal. Com a concha
das mãos faz o que sempre fez no
mar, e com altivez dos que nunca
darão explicação nem a eles
mesmos: com a concha das mãos
cheia de água, bebe em goles
grandes, bons.
E era isso o que lhe estava
faltando: o mar por dentro como o
líquido espesso de um homem. Agora
ela está toda igual a si mesma. A
garganta alimentada se constringe
pelo sal, os olhos avermelham-se
pelo sal secado pelo sol, as ondas
suaves lhe batem e voltam pois ela
é um anteparo compacto.
Mergulha de novo, de novo bebe
mais água, agora sem sofreguidão
pois não precisa mais. Ela é a
amante que sabe que terá tudo de
novo. O sol se abre mais e
arrepia-a ao secá-la, ela mergulha
de novo: está cada vez menos
sôfrega e menos aguda. Agora sabe
o que quer. Quer ficar de pé
parada no mar. Assim fica, pois.
Como contra os costados de um
navio, a água bate, volta, bate. A
mulher não recebe transmissões.
Não precisa de comunicação.
Depois caminha dentro da água de
volta à praia. Não está caminhando
sobre as águas -- ah nunca faria
isso depois que há milênios já
andaram sobre as águas -- mas
ninguém lhe tira isso: caminhar
dentro das águas. Às vezes o mar
lhe opõe resistência puxando-a com
força para trás, mas então a proa
da mulher avança um pouco mais
dura e áspera.
E agora pisa na areia. Sabe que
está brilhando de água, e sal e
sol. Mesmo que o esqueça daqui a
uns minutos, nunca poderá perder
tudo isso. E sabe de algum modo
obscuro que seus cabelos
escorridos são de náufrago. Porque
sabe - sabe que fez um perigo. Um
perigo tão antigo quanto o ser
humano.
(Felicidade Clandestina. 3ª ed.,
Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1981.)
Fotos:
1 - Clarice
Lispector
2 - Vanilda
Pordeus autografando – Lançamento
Oficina Literária Clarice
Lispector 2004
3 - Clarice e sua máquina de
escrever
4 - Capa da
Oficina Literária Clarice
Lispector 2004
5 - Clarice
Lispector – Circuito Poético do
Recife
6 - Selo Comemorativo – Série
MULHERES
7 - Fotos Clarice Lispector
8 - Placa do Circuito Poético em
Recife – Clarice Lispector
9- Clarice Lispector – Circuito
Poético do Recife
(¹)
Vanilda Batista Pordeus, natural
de Olinda/PE, Brasil é formada em
Licenciatura Plena em Desenho e
Artes Plásticas pla Universidade
Federal de Pernambuco.
* Trabalho
da pesquisa da Mercedes Pordeus


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