CLARICE LISPECTOR

* 10 de Dezembro de 1920

+ 09 de Dezembro de 1977

 

Clarice Lispector

 

A ETERNA BUSCA DA GÊNESE:
ARTE E SOFRIMENTO

Vanilda Batista Pordeus (¹)
 

Trabalho e pesquisa de Mercêdes Pordeus

 


São belas as coisas inspiradas pela loucura e escritas pela razão.
(André Gide)

O que me descontrai por incrível que pareça é pintar. Sem ser pintora de forma alguma e sem aprender nenhuma técnica. Pinto tão mal que dá gosto e não mosto meus, entre aspas, quadros, a ninguém. É relaxante e ao mesmo tempo excitante mexer com cores e forma sem compromisso com coisa alguma. É a coisa mais pura que faço (...). Acho que o mesmo processo de um pintor e do escritor são da mesma fonte. O texto deve se exprimir através das imagens e as imagens são feitas de luz, cores, figuras, perspectivas, volumes, sensações.
Quero pintar uma tela branca. Como se faz? É a coisa mais difícil do mundo.
A nudez. O número zero. Como atingi-los?
Só chegando suponho, o núcleo último da pessoa. (Clarice Lispector)
Quem conhece o expressionismo abstrato do respeitável do respeitável Jackson Pollock? Veja também os quadros de Clarice!...ele é também um artista possuidor de uma inconformação existencial de momentos de baixa auto-estima, de uma tremenda força e uma mente tão veloz que parecia explodir todo o seu sentimento de uma só vez, para ele a vida era muito pouco, como poucas eram as pessoas que o compreendiam. Veja bem Clarice!...e tire suas próprias conclusões. É esta a Clarice que também precisa ser revelada, a que implode e explode, expressando-se tão fortemente, só que com outra matéria (não a palavra)mostrando que ambas as formas contêm as mesma emoções, as mesma sensações e que o ser humano sofre e se inquieta e busca a cura e a liberdade sob qualquer forma de arte.
Os professores Teotônio Marcos Filho e Deisa chaves atribuem entre alguns recursos técnicos próprios de Clarice Lispector "a 'sensação de pintura' que prevalece nos seus contos: a narrativa é sempre feita através de observações visuais".
Já Graziela Costa Pinto diz: "Como num econômico esboço, desenha a alienação do sujeito da consciência preso que está nos jogos identificatórios sob a ilusão da síntese de si..."
Ao longo de toda a história da humanidade, profetas, filósofos, pensadores que deram origem a todas as ciências e artes, no Oriente ou Ocidente céticos ou místicos precisaram do ritmo e da expansão. Cada um de acordo com suas conveniências , com elemento vitais para a sua expressão e com suas obras e experiências para gerações subseqüentes.
Seres humanos que pulsavam mais, que transgrediam, tinham a sua sanidade questionada, marginalizados, submetidos aos mais variados martírio para depois de séculos concluir-se que estavam certos e que eram brilhantes. Ocorreu que esses seres conturbados, que viviam sob instabilidades psíquicas pensavam demais e pensavam por todos. Em pleno século vinte e um pede-se perdão pelos abandonos, pelos equívocos, pelas mortes causadas no passado. E a história ficou interrompida e o mundo é infinitamente menor pelas barbáries cometidas no passado. .Por que penaliza-los? Que culpa tiveram ou têm eles, artífices da vida. Afinal toda a sua obra, seja ela música, pintura, escultura, literatura, sejam cientistas ou religiosos, eles já foram reféns na própria vida, ou.. da própria vida! Viveram acorrentados aos seus pensamentos e alguns possivelmente a distúrbios de humor, prisioneiros da própria mente , para criar arte, tecnologia para um viver digno na posteridade, quer pela instigação do pensar quer pelo diletantismo, pelo prazer., maravilhosas e sofridas criaturas.


Pensar é estar doente dos olhos, disse Alberto Caeiro. Pode ser que você não se tenha dado conta disso, mas a verdade é que todas as coisas belas do mundo são filhas da doença. O homem cria a beleza como remédio para sua doença, como bálsamo para o seu medo de morrer. Pessoas que gozam saúde perfeita não criam nada. Se dependesse delas o mundo uma mesmice chata. Por que haveriam de criar? A criação é o fruto do sofrimento.
(Rubem Alves)


Afirma Jules Romain: "Todo homem com saúde é um se que se ignora".

"Será que esta por acaso é uma boa nova?" Pergunta Gerard Lebrun .

Mentes inquietas - costumam-se dizer que existe uma tênue linha que separa a genialidade da loucura. "Hoje, porém não há mais dúvida da saúde psíquica de tais personalidades" diz Urlich Kraft em seu artigo: Sobre gênios e loucos na revista "Viver" : mente e cérebro e cita Anne Sexton " A literatura me peou pela mão e me salvou da loucura".

Clarice Lispector também disse: "Tenho que falar, pois falar salva". Em outra ocasião se pronunciou: "O ato criador é perigoso, porque a gente pode ir e não voltar mais. Todo artista corre um grande risco. Até de loucura". De outra feita: "Não quero ter a terrível limitação de quem vive o que é possível fazer sentido". "A vida é curta demais para eu ler todo o dicionário a fim de por acaso descobrir uma palavra salvadora".
Não se preocupe em "entender", viver ultrapassa todo entendimento.
Eu sou uma pergunta.
(Clarice Lispector)

Texto: OFICINA LITERÁRIA CLARICE LISPECTOR 2004
Organizadora: Fátima Quintas
Centro Cultural Brasil Espanha do Recife
2005
Edições Bagaço Recife/PE
Capa:
Vanilda Batista Pordeus





CLARICE, QUEM É VOCÊ?
Rosa Lispector

"Atendendo à sugestão da amiga Fátima Quintas, idealizadora, coordenadora e facilitadora da Oficina Literária Clarice Lispector do Centro Cultural Brasil-Espanha, encerrarei o ano com um trabalho sobre o mito da mulher-escritora Clarice Lispector".
Falarei nela, e não dela — de sua literatura. Apenas seu perfil. Clarice Lispector, quem é você?
Clarice nasceu na aldeia Tchecheinik quando a família emigrava da Rússia para a América, fugindo da perseguição aos judeus após a Revolução Bolchevique de 1917. Aldeia aquela que, de tão pequena, não constava no mapa da Ucrânia que com a Letônia, a Lituânia, a Estônia, a Yugoslávia, a Polónia, a Roménia, a Bessarábia, hoje Moldávia (onde meus pais nasceram), faziam parte da União Soviética.
Atualmente, estão todos esses países separados, sendo o maior deles, a Rússia propriamente dita. Os pais de Clarice, Pedro e Marieta, hesitaram entre os Estados Unidos e o Brasil e acabaram aportando em Maceió no ano de 1921, onde Marieta tinha família — os Rabin.
Estava Clarice com dois meses de idade — suas irmãs Elisa e Tânia já eram meninas maiores. Após três anos, em 1924, a família mudou-se para o Recife onde residiu por dez anos. E nesse período, recém alfabetizada, que Clarice descobriu a literatura — ela mesma disse: "quando aprendi a ler e escrever, eu devorava os livros"! Eu pensava que livro é como árvore, como bicho: coisa que nasce. Lá pelas tantas, eu descobri que vinha dum autor. Aí disse: "Eu também quero". A pequena escritora, então com sete anos, começou a mandar contos para a seção infantil do Diário de Pernambuco, que nunca os publicou.
As outras crianças eram publicadas e eu não, relembra Clarice. Logo compreendi por quê: elas contavam histórias, uma anedota, acontecimentos, ao passo que eu relatava sensações... coisas vagas. Aos dez anos, após assistir a uma peça de teatro no Recife, escreveu a sua em três atos, mas perdeu os originais.
Voltando ao seu nascimento, ela revelou que houve uma "falha" na sua origem. Foi preparada para ser dada à luz de um modo bonito — sua mãe já estava doente e, por superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava a mulher de sua doença. Então ela foi deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curou a mãe e levou sempre essa carga de culpa, achando que falhou na missão determinada pela qual ela foi feita, dizendo: "como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram em ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdôo". Sua mãe sofria de uma paralisia progressiva que a tornou inválida, até morrer em 1930, estando Clarice aos dez anos de idade, órfã de mãe.
Aos vinte anos, perdeu seu pai, no Rio de Janeiro. A ela, foi dado o nome "Chaia" que em hebraico vem do nome "Chai" que significa "Vida". A tradução para o português é Clara ou Clarice, ou mesmo, Vida. Seria a esperança de vida para Marieta, sua mãe? Ao começar a publicar seus escritos, com o verdadeiro nome, ouviu o crítico Sérgio Milliet dizer: "Fiz uma descoberta que me enche de satisfação, diante daquele nome estranho e até desagradável, pseulônimo, sem dúvida, eu pensei: mais uma dessas mocinhas que principiam "cheias de qualidades", que a gente pode elogiar de viva voz, mas que morreriam de ataque diante de uma crítica séria". Quanto a seu estilo, adjetivos foram usados: lírico, mágico, místico, feminino, introspectivo, psicografado, cheios de significados específicos. Sentia-se isolada nas letras brasileiras e não pertencia a nenhum grupo organizado. De fato, seu estilo encontrava apenas em si mesma a motivação e a própria legitimidade.
Imigrante russa, nunca se sentiu russa. Sentia-se, sobretudo, brasileira, tendo o português como língua materna. Numa entrevista falou: "Sou brasileira ponto e pronto". Nascida européia, criada nordestina, residente carioca a partir dos treze anos e, na condição de esposa de diplomata, habitante de vários países (Itália, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos, Polónia, entre outros).
De Berna, numa carta para a irmã Tânia, em 1946, escreveu: "Tudo é terra dos outros, onde os outros estão contentes". O escritor António Callado falou: "Clarice é uma estrangeira na terra". Para o jornalista Paulo Francis: "Clarice era uma mulher insolúvel". Quando, aos dezoito anos iniciou o curso de Direito, pensava em reformar penitenciárias. Ela mesma conta que, por ter sido muito reivindicadora de direitos quando criança, todos diziam que seria advogada, mas acabou escolhendo estudar Direito por falta, diz ela, "de qualquer outra orientação profissional". Nunca exerceu o ofício, nem mesmo para defender seus próprios direitos autorais.
Se Clarice não reformou penitenciária, como imaginava quando estudante, certamente continuou reivindicadora de seus direitos, pelo menos em sua fidelidade para criar sem concessões. Aos vinte e três anos, formou-se e casou-se com o colega de turma e futuro embaixador Maury Gurgel Valente. Clarice exerceu, desde a faculdade, a atividade de jornalista que permeou sua vida até os últimos anos, em simultaneidade com a de escritora.
Aos vinte anos não sei se por premonição escreveu no conto chamado "A FUGA", publicado posteriormente no volume "A BELA E A FERA" em 1979, onde a jovem escritora narra os breves momentos de uma esposa que resolve separar-se, após doze anos de um casamento sufocante, dizendo: "Sim, doze anos pesam como quilos de chumbo". Outra frase do mesmo conto onde a partir de sutilezas da linguagem, a protagonista se põe a imaginar o que diria a um transeunte: "Meu filho, eu era uma mulher casada e sou agora uma mulher". A simples retirada de um adjetivo tem o alcance de um ritual de passagem.
O tempo todo sua obra provoca tanto fascínio, para alguns e tanto mal-estar e perplexidade para outros. É mitificada ou rejeitada, ao longo de mais de trinta anos de produção literária passando por romances, contos, crônicas e livros infantis. Foi uma das primeiras repórteres brasileiras.
Era a única mulher redatora na Agência Nacional.
Clarice Lispector escreveu 24 livros, tendo sido o último, "UM SOPRO DE VIDA", publicado posteriormente, em 1978.
Tinha o hábito de guardar folhas soltas, guardanapos, tíquetes, papéis de chicletes, etc, com idéias surgidas ao longo das mais variadas situações cotidianas. Às vezes, fazia anotações em carteiras de cigarros, dentro de táxis, obedecendo a qualquer inspiração.
Jamais reescrevia nem revisava suas anotações fragmentárias e dispersas --- acrescentava ou cortava --- mas não reescrevia, mantinha a idéia.
Uma vez anotou: "O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo? De outra feita:" liberdade é pouco. "O que desejo ainda não tem nome". E ainda: "O mundo parece uma coisa uma coisa vasta demais e sem síntese possível". Sobre o livro "A MAÇÃ NO ESCURO", a autora diz ter copiado o texto onze vezes para "saber o que estava querendo dizer" e o considerou seu livro mais bem estruturado. Porém, em 1969, escreveu em apenas nove dias, o livro " UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES".
Já "ÁGUA VIVA", a autora debateu-se durante três anos para escrevê-lo.
Raros são os finais felizes nos livros de Clarice.
Seu casamento terminou em 1959 após 16 anos de convivência, retornando ao Brasil com dois filhos: Pedro e Paulo.
Clarice iniciou a retomada de sua vida no Rio de Janeiro.
Em 1967, um incêndio, causado por um cigarro aceso e esquecido durante a noite, fere gravemente sua mão direita --- com que escrevia --- ficando hospitalizada e passando por várias cirurgias para enxertos.
Recuperou-se, ficando com seqüelas na mão, após ter estado entre a vida e a morte, como relatou em crônica futura. Foi um triste marco na biografia da autora.
Os manuscritos tornaram-se ilegíveis e ela passou a assinar com bastante dificuldade. Ainda assim, movida pela necessidade de melhorar sua condição financeira, escrevia crônicas para o Jornal do Brasil.
Combatia os que consideravam uma "escritora em transe", dizendo: "jamais caí em transe na minha vida. Não psicografo nem "baixa" em mim nenhum pai-de-santo. Sou como qualquer outro escritor".
Quando Clarice Lispector esteve na TV cultura em 1977, para ser entrevistada por Julio Lerner, no progama, que apedido da autora, só foi ao ar após seu falecimento em 9 de dezembro de 1977, ela faz muito mistério sobre o livro que estava escrevendo.
Afirmou, apenas, que ele teria 13 títulos e seria "a historia de uma inocência pisada, de uma miséria anônima".
Este livro é "A Hora da Estrela", onde a protagonista, uma nordestina, emigra para o Rio de Janeiro "uma cidade feita toda contra ela".
Será essa moça a imagem de Clarice no espelho?
No livro "Água Viva", "ela escreveu:" De tal modo a morte e apenas futura que há quem não agüente e se suicide".
Desisto de explicar ou analisar Clarice Lispector; ela mesma disse: "Se eu tivesse que dar um titulo a minha vida seria: "A procura da própria coisa". E "Viver não é relatável".
Um dia falou: "Eu escrevo é assim me livro de mim e posso descansar".
E descansou da vida, no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos de idade.
Ao ser internada no hospital, presidindo seu fim, tirou do braço o relógio e um amuleto de cobre inseparável deu-os a Olga Borelli, dizendo: "Guarde isto não vou mais precisar...".
Foi assim a Paixão, a Vida, e a Morte da Estrela Clarice Lispector.

 

 

 

 

 

Texto: OFICINA LITERÁRIA CLARICE LISPECTOR 2004
Organizadora: Fátima Quintas
Centro Cultural Brasil Espanha do Recife
2005

Edições Bagaço Recife/PE
Capa: Vanilda Pordeus

 

 

CLARICE LISPECTOR

Biografia


As circunstâncias exteriores e a trama narrativa têm importância secundária nos contos e romances de Clarice Lispector. Em busca de uma linguagem especial para expressar paixões e estados de alma, a escritora utilizou recursos técnicos modernos como a análise psicológica e o monólogo interior. Sua obra, densa e original, figura entre as mais importantes da narrativa literária brasileira.
Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920 em Tchetchelnik, Ucrânia. Quando ela contava apenas dois meses de idade, sua família mudou-se para o Brasil. Clarice passou a infância em Recife PE e em 1937 transferiu-se para o Rio de Janeiro RJ, onde cursou direito.
Estreou na literatura ainda muito jovem com o romance Perto do coração selvagem (1943), visão interiorizada do mundo da adolescência, que teve calorosa acolhida da crítica e recebeu o Prêmio Graça Aranha. Em 1944, recém-casada, viajou para Nápoles, onde serviu num hospital da Força Expedicionária Brasileira. De volta ao Brasil, publicou em 1946 O lustre e, depois de uma longa estada na Suíça e Estados Unidos, fixou-se no Rio de Janeiro.
A obra de Clarice Lispector expressa uma visão profundamente pessoal e existencialista do dilema humano, num estilo que se caracteriza pelo vocabulário simples e pela estrutura frasal elíptica. Sua ficção transcende o tempo e o espaço; os personagens, postos em situações limite, são com freqüência femininos e só secundariamente modernos ou mesmo brasileiros.
A melhor prosa da autora se mostra nos contos de A legião estrangeira (1964) e Laços de família (1972). Em obras como A maçã no escuro (1961), A paixão segundo G.H. (1964) e Água-viva (1973), os personagens, alienados e em busca de um sentido para a vida, adquirem gradualmente consciência de si mesmos e aceitam seu lugar num universo arbitrário e eterno. Escreveu ainda A cidade sitiada (1949), Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969) e A hora da estrela (1977), que conta a história de Macabéa, moça do interior em busca de sobreviver na cidade grande. A versão cinematográfica desse romance, dirigida por Suzana Amaral em 1985, conquistou os maiores prêmios do festival de cinema de Brasília e deu à atriz Marcélia Cartaxo, que fez o papel principal, o troféu Urso de Prata em Berlim em 1986. Clarice Lispector morreu no Rio de Janeiro em 9 de dezembro de 1977.

©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.


CLARICE LISPECTOR

Água viva (fragmento)



Sinta-se bem. Eu na minha solidão quase vou explodir. Morrer deve ser uma muda explosão interna. O corpo não agüenta mais ser corpo. E se morrer tiver o gosto de comida quando se está com muita fome? E se morrer for um prazer, egoísta prazer?
Ontem eu estava tomando café e ouvi a empregada na área de serviço a pendurar roupa na corda e a cantar uma melodia sem palavras. Espécie de cantilena extremamente plangente. Perguntei-lhe de quem era a canção, e ela respondeu: é bobagem minha mesmo, não é de ninguém.
Sim, o que te escrevo não é de ninguém. E essa liberdade de ninguém é muito perigosa. É como o infinito que tem cor de ar.
Isto tudo que estou escrevendo é tão quente como um ovo quente que a gente passa depressa de uma mão para a outra e de novo da outra para a primeira a fim de não se queimar -- já pintei um ovo. E agora como na pintura só digo: ovo e basta.
Não, nunca fui moderna. E acontece o seguinte: quando estranho uma pintura é aí que é pintura. E quando estranho a palavra aí é que ela alcança o sentido. E quando estranho a vida aí é que começa a vida. Tomo conta para não me ultrapassar. Há nisto tudo aqui grande contenção. E então fico triste só para descansar. Chego a chorar manso de tristeza. Depois levanto e de novo recomeço. Só não te contaria agora uma história porque no caso seria prostituição. E não escrevo para te agradar. Principalmente a mim mesma. Tenho que seguir a linha pura e manter não contaminado o meu it.
Agora te escreverei tudo o que me vier à mente com o menor policiamento possível. É que me sinto atraída pelo desconhecido. Mas enquanto eu tiver a mim não estarei só. Vai começar: vou pegar o presente em cada frase que morre. Agora:
Ah se eu sei que era assim eu não nascia. Ah se eu sei eu não nascia. A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Isto é uma tempestade de cérebro e uma frase mal tem a ver com outra. Engulo a loucura que não é loucura -- é outra coisa. Você me entende? Mas vou ter que parar porque estou tão e tão cansada que só morrer me tiraria deste cansaço. Vou embora.
Voltei. Agora tentarei me atualizar de novo com o que no momento me ocorre -- e assim criarei a mim mesma. É assim:
O anel que tu me deste era de vidro e se quebrou e o amor acabou. Mas às vezes em seu lugar vem o belo ódio dos que se amaram e se entredevoraram. A cadeira que está aí em frente me é um objeto. Inútil enquanto eu a olho. Diga-me, por favor, que horas são para eu saber que estou vivendo nesta hora. Estou me encontrando comigo mesma: é mortal porque só a morte me conclui. Mas eu agüento até o fim. Vou lhe contar um segredo: a vida é mortal. Vou ter que interromper tudo para te dizer o seguinte: a morte é o impossível e o intangível. De tal forma a morte é apenas futura que há quem não a agüente e se suicide. É como se a vida dissesse o seguinte: e simplesmente não houvesse o seguinte. Só os dois pontos à espera. Nós mantemos este segredo em mutismo para esconder que cada instante é mortal. O objeto cadeira me interessa. Eu amo os objetos na medida em que eles não me amam. Mas se não compreendo o que escrevo a culpa não é minha. Tenho que falar porque falar salva. Mas não tenho nenhuma palavra a dizer. O que é que na loucura da franqueza uma pessoa diria a si mesma? Mas seria a salvação. Embora o terror da franqueza venha da parte das trevas que me ligam ao mundo e à criadora inconsciência do mundo. Hoje é noite de muita estrela no céu. Parou de chover. Eu estou cega. Abro bem os olhos e apenas vejo. Mas o segredo -- este não vejo nem sinto. Estarei fazendo aqui verdadeira orgia de detrás do pensamento? Orgia de palavras? A eletrola está quebrada. Olho a cadeira e desta vez foi como se ela também tivesse olhado e visto. O futuro é meu -- enquanto eu viver. Vejo as flores na jarra. São flores do campo e que nasceram sem se plantar. São amarelas. Mas minha cozinheira disse: que flores feias. Só porque é difícil amar o que é franciscano. No atrás do meu pensamento está a verdade que é a do mundo. A ilogicidade da natureza. Que silêncio. "Deus" é de um tal enorme silêncio que me aterroriza. Quem terá inventado a cadeira? É preciso coragem para escrever o que me vem: nunca se sabe o que pode vir e assustar. O monstro sagrado morreu. Em seu lugar nasceu uma menina que era órfã de mãe. Bem sei que terei que parar. Não por falta de palavras, mas porque estas coisas e, sobretudo as que só penso e não escrevi -- não se dizem. Vou falar do que se chama a experiência. É a experiência de pedir socorro e o socorro ser dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu pedi socorro e não me foi negado. Senti-me então como se eu fosse um tigre com flecha mortal cravada na carne e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem teria coragem de aproximar-se e tirar-lhe a dor. E então há a pessoa que sabe que tigre ferido é apenas tão perigoso como criança. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, arranca a flecha fincada.
E o tigre? Não se pode agradecer. Então eu dou umas voltas vagorosas em frente à pessoa e hesito. Lambo uma das patas e depois, como não é a palavra que tem então importância, afasto-me silenciosamente.
O que sou neste instante? Sou uma máquina de escrever fazendo ecoar as teclas secas na úmida e escura madrugada. Há muito já não sou gente. Quiseram que eu fosse um objeto. Sou um objeto. Que cria outros objetos e a máquina cria a nós todos. Ela exige. O mecanicismo exige e exige a minha vida. Mas eu não obedeço totalmente: se tenho que ser um objeto, que seja um objeto que grita. Há uma coisa dentro de mim que dói. Ah como dói e como grita pedindo socorro. Mas faltam lágrimas na máquina que sou. Sou um objeto sem destino. Sou um objeto nas mãos de quem? tal é o meu destino humano. O que me salva é grito. Eu protesto em nome do que está dentro do objeto atrás do atrás do pensamento-sentimento. Sou um objeto urgente.

(Água viva. 10ª ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980).



As águas do mundo


Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.
Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.
Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.
São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.
Seu corpo se consola com sua própria exigüidade em relação à vastidão do mar porque é a exigüidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exigüidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.
Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal -- a alegria é uma fatalidade -- já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda -- e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.
O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo -- espantada de pé, fertilizada.
Agora o frio se transforma em frígido. Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes, bons.
E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.
Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.
Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas -- ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas -- mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.
E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.


(Felicidade Clandestina. 3ª ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981.)

 

Fotos:

1 - Clarice Lispector

2 - Vanilda Pordeus autografando – Lançamento Oficina Literária Clarice Lispector 2004
3 - Clarice e sua máquina de escrever

4 - Capa da Oficina Literária Clarice Lispector 2004

5 - Clarice Lispector – Circuito Poético do Recife
6 - Selo Comemorativo – Série MULHERES
7 - Fotos Clarice Lispector
8 - Placa do Circuito Poético em Recife – Clarice Lispector
9- Clarice Lispector – Circuito Poético do Recife

 

(¹) Vanilda Batista Pordeus, natural de Olinda/PE, Brasil é formada em Licenciatura Plena em Desenho e Artes Plásticas pla Universidade Federal de Pernambuco.

 

* Trabalho da pesquisa da Mercedes Pordeus

 

 

 

 

 

 

 

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