SOM: Alceu Valença - Voltei Recife, letra de CAPIBA

Lourenço da Fonseca Barbosa

* 28 de outubro de 1904

+ 31 de dezembro de 1997

 

Lourenço da Fonseca Barbosa

CAPIBA

Biografia


Trabalho e pesquisa de Mercêdes Pordeus


Músico e compositor, Lourenço da Fonseca Barbosa, o conhecido Capiba, nasceu no município de Surubim, a 28 de outubro de 1904. De uma família de músicos, seu pai era maestro da banda municipal.
O mais conhecido compositor de frevos do Brasil. Aos 08 anos de idade já tocava trompa e ainda criança muda-se, com a família, para o Recife. Em seguida, vai morar no estado da Paraíba (primeiro na cidade de Taperoá, depois Campina Grande e João Pessoa), onde toca piano em cinemas.
Aos 20 anos de idade, grava o primeiro disco (gravação particular), com a valsa "Meu Destino". Em 1930, volta a morar no Recife e, aprovado em concurso, torna-se funcionário do Banco do Brasil. Em 1938, termina o curso de Direito, mas nunca apanharia o diploma.
Também no Recife (onde morou a maior parte da vida), funda a Jazz Band Acadêmica e, com Hermeto Pascoal e Sivuca, funda o trio "O Mundo Pegando Fogo".
Autor de mais de 200 canções, não apenas frevo, como também outros vários gêneros: de samba à música erudita. Entre os seus sucessos, estão: "Maria Batânia" (canção); "A Mesma Rosa Amarela" (samba); "Serenata Suburbana" (guarânia); "Verde Mar de Navegar" (maracatu) e vários outros. No gênero frevo, compôs mais de cem canções.
Também musicou poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinício de Morais e outros poetas brasileiros.
Morreu no Recife, a 31-12-1997, de infecção generalizada, depois de passar dez dias na UTI de um hospital.
Uma de suas canções carnavalescas mais famosas ("É de Amargar") foi vencedora de um festival de frevo em Pernambuco, em 1934. Entre outros prêmios, em 1967 conquistou o 5° lugar no Segundo Festival Internacional da Canção, com a música "São do Norte os que Vêm".

Suas principais composições:
Valsa Verde (1931); É de Tororó (maracatu, 1932); É de Amargar (frevo, 1934); Quem Vai Pro Faró é o Bonde de Olinda (frevo, 1937); Guerreiro de Cabinda (maracatu, 1938); Gosto de te Ver Cantando (frevo, 1940); Linda Flor da Madrugada (frevo, 1941); Quem Dera (frevo, 1942); Maria Betânia (canção, 1944); Não Agüento Mais (frevo, 1945); Que Bom Vai Ser (frevo, 1945); E...Nada Mais (frevo, 1947); É Luanda (maracatu, 1949); Olinda Cidade Eterna (samba, 1950); Recife Cidade Lendária (samba, 1950); É Frevo, Meu Bem (1951); A Pisada É Essa (frevo, 1952); Trem de Ferro (moda, com versos de Manuel Bandeira, 1953); Soneto de Fidelidade (com Vinícius de Morais, 1955); Serenata Suburbana (valsa, 1955); Nação Nagô (maracatu, 1957); O Mais Querido (marcha-exaltação, 1957); Sino Claro Sino (canção, 1958); A Mesma Rosa Amarela (samba, 1960); Cantiga do Mundo e do Amor (canção, com Ariano Suassuna, 1962); Frevo da Saudade (1962); Madeira que Cupim não Rói (frevo, 1963); O Anel Que Tu Me Deste (frevo, 1965); Cala a Boca Menino (frevo, 1966); São do Norte os Que Vêm (baião, 1967); Europa França e Bahia (frevo, 1968); Oh, Bela (frevo, 1970); Sem Lei nem Rei (toada, 1970); De Chapéu de Sol Aberto (frevo, 1972); Frevo e Ciranda (frevo, 1974); Rei de Aruanda (maracatu, 1974); Juventude Dourada (frevo, 1975); Desesperada Solidão (canção, 1983).

Acima
http://www.pe-az.com.br/biografias/capiba.htm


MINHA PRIMEIRA GRAVAÇÃO

"e, por mais que indagássemos nunca soubemos da existência do finório Teopompo Moreira".
A minha primeira vitória como compositor se deu em 1928. Eu vi em uma revista que se editava no Rio de Janeiro, Vida Doméstica. o anúncio de um concurso de música que abrangia uma infinidade de gêneros populares, como fox-trot, valsa, samba, one-step, tango, maxixe, toada, marcha, rag-time, charleston, batuque e o diabo a quatro.
Por essa época eu era estudante do Liceu Paraibano e pianista do cinema Rio Branco, na capital da Paraíba.
Como todo jovem, tinha vontade danada de mostrar um pouco do que seria capaz, mas, por aqueles dias não havia as oportunidades que existem hoje no terreno da música. Era tudo fechado. Não havia rádios.
As gravações eram poucas e ruins e, assim mesmo, só para quem morava no Rio de Janeiro. Televisão, nem se falava. Os únicos meios de comunicação eram o telégrafo sem fio e os Itas, sem falar no deficiente correio postal, o cavalo, o jumento, etc., etc.
O Norte e o Nordeste não tinham direito a nada. Os compositores do Recife eram muitos e todos bons, mas Isso acontecia com os bambas da música, quanto mais comigo, que era apenas um aprendiz de ,compositor. Vale ressaltar que todos eram músicos, ou melhor, conheciam música. Mas, quando o sujeito quer vencer, em qualquer atividade, tem conhecimentos e muita força de vontade, nada é difícil.
Com relação ao concurso, não pensei duas vezes. Meti um tango chamado Flor das Ingratas (l) dentro de um envelope e remeti à revista Vida Doméstica.
Dentro de alguns meses' recebi uma carta, datada de 14/05/1929, assinada pelo seu Diretor, Jesus Gonçalves Fidalgo, anunciando que o meu tango, Flor das Ingratas, havia conquistado o primeiro lugar no gênero.
É escusado dizer o quanto fiquei satisfeito, principalmente porque as músicas eram examinadas e classificadas por professores do Conservatório Nacional de Música e não por leigos, como se vê hoje, levantando-se um pedaço de madeira, onde se lê a nota do dito Juiz, que varia de l a 10. A notícia ecoou pela redondeza, e o meu nome foi se firmando cada vez mais como compositor popular.
Depois de passado algum tempo, me surgiu outra oportunidade, desta feita em outra revista, chamada O Malho, também do Rio de Janeiro, que falava de um concurso de músicas de carnaval, para 1930.
Consultei o meu companheiro de futebol, João dos Santos Coelho Filho, meu parceiro como letrista de outras músicas minhas e fizemos um samba, ao qual denominamos de Não Quero Mais 2.
Feito o samba, o difícil foi encontrar os pseudônimos para substituir os nossos nomes, conforme exigência do concurso. Afinal, botamos: Música de Pé de Pato (eu) e Letra de Joca da Beleza (João dos Santos Coelho Filho).
Metemos o samba dentro de um envelope e o remetemos para o endereço que era a redação da revista O Malho. O concurso era promovido pela citada revista e a conhecidíssima Casa Édison, produtora dos discos Odeon, ainda hoje em circulação em todo o Brasil, e ficamos de olho na revista para ver em que dava.
O tempo foi passando e a gente sem notícia nenhuma. Como já disse, a coisa mais difícil do mundo era o Norte ter noticias do Sul - Os dois mundos viviam completamente isolados um do outro. Não é como hoje que o cara toma café aqui, almoça no Rio ou São Paulo e janta no Recife. E se quiser, vai até mais longe.
Eu nem me lembrava mais do concurso de O Malho com a Casa Édison, até que uma manhã chegando à loja de disco dos Srs. Schuler & Cia., na Rua Maciel Pinheiro, n.0 88, capital da Paraíba, cujo gerente, Joaquim Machado, muito nosso amigo e que sabia que nós havíamos mandado um samba para o tal concurso, botou na vitrola uma música que, pelas primeiras notas ouvidas, só podia ser minha. E era. Imediatamente, lembrei-me da introdução do nosso samba: Não Quero Mais!
Não me contive de alegria e dirigi-me para onde se encontrava o Joaquim Machado e me certifiquei do que estava ouvindo: era mesmo Não Quero Mais!
Essas alegrias sempre acontecem quando o fato ocorre pela primeira vez. Depois não há mais razão para tantas alegrias uma vez que os degraus vão surgindo todos os dias e o sujeito vai vencendo-os e se acostumando com os mesmos, sem se aperceber.
Essa gravação tinha uma particularidade muito importante. Diziam as bases do concurso que as músicas, em número de cinco, seriam cantadas por Francisco Alves, acompanhado da Orquestra Pan-Americana, de Simão Boutman, dois fatores de sucesso na década de 20 e outras décadas.
Quando tirei o disco da vitrola e li o que estava escrito no selo: Música de Pé de Pato e Letra de Joca da Beleza, a decepção foi enorme para mim, um principiante que perdia a oportunidade de ver seu nome estampado naquele disco ao lado de Francisco Alves e da Orquestra Pan-Americana. Creio que todo iniciante ficaria triste como eu fiquei. Mas não havia de ser nada, porque nós iríamos saber o porquê daquela sabotagem, uma vez que a revista dizia que o pseudônimo era unicamente para haver sigilo quanto ao autor ou autores da obra, durante o concurso.
Fizemos várias cartas aos promotores do concurso e eles, então, nos disseram que por ocasião de abrirem os envelopes extraviaram o referente ao 40 lugar, restando uma vaga lembrança de que o samba tinha vindo da Paraíba do Norte, pelo carimbo do correio. Neste momento, apareceu um senhor que se dizia chamar Teopompo Moreira, afirmando ser o autor do samba em questão e que só queria o prêmiode 600$000 (seiscentos mil réis), e que podiam considerar os autores com os pseudônimos.
Por causa de um vivaldino e tanta ingenuidade da parte dos promotores do concurso, eu e meu companheiro deixamos de figurar ao lado de Ary Barroso, que foi o 1.0 lugar no referido concurso, com a marcha: Dá Nela!, que todo o Brasil conhece.
O valor de 600$000 que mais tarde nós recebemos, depois de provar a autoria do samba em questão, não nos faria nem mais ricos nem mais pobres. O importante mesmo era a vitória e a audácia de enfrentarmos, com um samba, os sambistas em seu próprio terreiro.
O samba teve grande aceitação, principalmente no Estado da Paraíba, onde nós gozávamos de relativo prestígio, e, por mais que indagássemos, nunca soubemos da existência do finório Teopompo Moreira, que certamente usava costeletas, chapéu coco, polainas e uma bengala de cabo de chapéu de sol, provando ser um autêntico vigarista da época.
1 Flor das'Ingratas. Tango. Primeiro lugar no Concurso da revista Vida Doméstica, do Rio de Janeiro e publicado na mesma revista na edição de 28/04/1929 - Não gravado.
2 Não Quero Mais. Samba. 40 lugar no concurso de marchas e sambas carnavalescos, da revista O Malho e a Casa Édison, para o carnaval de 1930 - Gravado e Editado. Canta: Francisco Alves acompanhado pela Orquestra de Simão Boutman.

http://www.fundaj.gov.br/docs/capiba/caphist.html

Histórias imperdíveis

LOURENÇO BARBOSA ESTÁ HOSPEDADO AQUI?

"Vai te danar, Fernando. . . "
Em 1937 2 eu e Fernando Lobo projetamos uma viagem ao Rio de Janeiro, Capital Federal, naquela época. Tirei uma licença no Banco do Brasil S/A de 30 dias, para tratamento de saúde, juntei com umas férias atrasadas e nos mandamos para a Capital que já era maravilhosa.
Passados uns dias de viagem, cinco ou seis, não me lembro mais, todos de cantoria à bordo até tarde da noite (eu era pianista e Fernando o cantor). desembarcamos no cais Mauá. Fernando, mais atirado do que eu e foi logo tomando as providências que o caso exigia, isto é, livrar-se da alfândega e arranjar uma pensão ou um hotel, contanto que o preço fosse camarada.
Depois de tudo resolvido, partimos com as nossas maletas na mão e tomamos um bonde em direção ao Catete, rua de muitas pensões e hotéis e que era, no dizer de todos, refúgio dos nortistas e mineiros que apontavam no Rio.
Chegamos ao Catete e arranjamos logo uma pensão ou hotel, não sei, na Rua Correia Dutra, n.o 72, que não era muito barata, mas que servia muito bem por ser perto do centro da cidade.
O assunto desta História prende-se à minha alta burrice (hoje se diz desligado), com referência ao que passei na noite do dia de minha chegada ao Rio de Janeiro já contada em prosa e verso por todos os intelectuais da época, que me conheceram e me conhecem ou não. Vivos e mortos.
É uma história que. serve muito bem para mostrar o que é um sujeito despreparado para enfrentar as grandes cidades. O vexame se deu mais ou menos assim. Eu e Fernando, logo que chegamos à cidade, tomamos banho, trocamos de roupas e zarpamos para os cabarés chiques da época.
Entramos, de início, num tal, Dancing Avenida e aí foi que começou a minha perdição. As mulheres ficavam sentadas e os marmanjos rodeando-as, se bem me lembro, como se nós fôssemos os urubus e elas a carniça. Um olhar aqui, outro acolá, como quem está escolhendo algo diferente, eu e Fernando íamos tomando a massaranduba do tempo. A orquestra estava a todo vapor despejando som no meio do salão e a gente cubando ... Era maxixe, bolero, valsa, tango, samba, ragtime, o diabo a quatro e a gente lá ouvindo o ponto.
De repente Fernando, que era mais atirado do que eu, chamou uma das taxi-girls para uma mesa que estava vazia junto a nós e começamos a beber alguma coisa com aquela jovem. Nem eu nem Fernando éramos de beber muito - Bebíamos o suficiente para não ficarmos de cara limpa. Às horas tantas, Fernando sai maxixando com a mulher que ele escolhera e eu, para não ficar atrás, saí também, dançando aquilo, que para mim já era a primeira vergonha que passava na Capital Federal.
Nunca fui muito de dançar, quanto mais dançar maxixe, que era o ritmo que fazia gosto a gente ver o carioca dançando. É como o frevo só presta mesmo dançado por pernambucano. Outro cara qualquer vai dançar e o fato é que resulta em barulho, porque começa dar pontapé a torto e a direito. O frevo não é isso. O frevo é para se dançar, ou melhor, se fazer o passo, religiosamente.
A orquestra, de momento a momento, mudava o ritmo da música e eu achando bom, não sabendo que mais tarde o negócio ia engrossar - Quando a orquestra parou, apareceu junto de nós (eu e a mulher) um sujeito com uma máquina de picotar, como aquelas dos antigos condutores dos trens da Great Western e, segurando o cartão que a mulher havia tirado do seu decote, danou-se a picotar o referido cartão, que eu só ouvia era aquele barulho no meio do salão: teque, teque, teque, teque, que não acabava mais.
Muito admirado com aquele estrago, perguntei à mulher o que era aquilo e ela me respondeu que era para eu pagar dez tostões (l. 000 réis) por furinho. Botei as mãos na cabeça e vi que estava sendo roubado em plena Avenida Rio Branco. Contei a safadeza a Fernando Lobo e ele me disse que era assim mesmo e que eu devia pagar logo porque senão dava um bode dos diabos.
Imediatamente, eu disse: "Fernando, vamos embora senão esses caras alisam a gente" . Fernando ficou enganchado com a mulherzinha e eu desci e fui logo dizendo: "Táxi". Apresentou-se um e eu disse, como quem estava muito seguro: "Para o Catete". Felizmente o chofer foi mesmo para o Catete porque se ele tivesse emburacado para a Ilha do Governador, para mim era a mesma coisa - Eu não conhecia nada no Rio, como até hoje não conheço.
"Aqui está bom?", disse o chofer para mim e eu confirmei: "Está bom, sim senhor". Paguei o táxi e agora é que começa a história. Fui ao primeiro hotel e perguntei: "Aqui está hospedado o senhor Lourenço da Fonseca Barbosa?" O porteiro consultou o seu livro de presença e disse secamente: "Não". Em seguida me dirigi a uma pensão e, depois de apertar a cigarra apareceu um sujeito com cara de sono. Fiz-lhe a mesma pergunta e ele me disse: "Um momento". Foi lá dentro, mexeu numa caixinha e voltou me dizendo que: "Não estava ali, não senhor". Parti para outras. A mesma pergunta e mesma resposta. Confesso que, por essas alturas as minhas visitas já passavam das três da madrugada.
Meu cabeção começou a endoidar. Já estava sem saber o que fazer, perdido naquele deserto de cimento armado. Apertei outra campainha e, de lá do pé da escada, saiu outro indivíduo me perguntando o que eu queria - Fazia-lhe a clássica pergunta: "Aqui está hospedado o Senhor Lourenço da Fonseca Barbosa, que veio do Norte, num Ita, com Fernando Lobo?" O porteiro ia lá dentro verificava uns cartões e voltava. Era nova esperança mas, qual o quê. Ele me dizia secamente: "Não".
O meu desespero já não tinha mais limite Estava doido que Fernando aparecesse porque assim eu poderia dormir um pouco. Mas, Fernando não podia aparecer àquelas horas, porque o Dancing Avenida ainda não tinha fechado as suas portas, e as mulheres só saíam do salão quando a função terminava. Eu estava com medo daquela rua deserta. Deserta de tudo, não, porque vez por outra passava, lá longe, numa esquina, também deserta, um bêbado qualquer, que por sorte minha não passava junto a mim.
Continuava batendo e apertando as cigarras das pensões e recebendo, depois da verificação competente, o mesmo NÃO. O pânico já havia se apoderado de mim quando toquei em uma cigarra e ela f e z: QUEMMMMMMMMMMMMMMMMMMM.
Apareceu um porteiro que estava dormindo numa cama de lona debaixo da escada e fez-me a pergunta costumeira: "0 que deseja?" Respondi um tanto cabreiro: "É aqui que está hospedado Lourenço da Fonseca Barbosa, que veio do Norte esta tarde, com Fernando Lobo?" O porteiro consultou o sei, fichário e depois me disse: "É, sim senhor, mas, no momento, não se acha na pensão!"
Eu, radiante de alegria, puxei a minha carteira de identidade e mostrando ao cara, fui dizendo: "Sou eu mesmo". Pra que eu lhe disse isso ... O cara arretou-se dentro das calças e, olhando para mim com o focinho de poucos amigos, foi dizendo, com ar de quem não gostou da brincadeira: "0 senhor não tem o que fazer, não? Me acordar a estas horas da madrugada para perguntar se o senhor está hospedado aqui, com o maior cinismo do mundo? " Ai, eu procurei me justificar antes que ele partisse para a ignorância e ele continuou: "0 senhor ou é doido ou está bêbado, e eu não estou aqui para tolerar conversa de quem não tem o que fazer, não"
Pelo seu vocabulário notei que se tratava de um nortista e então procurei justificar a minha presença ali, dizendo: "Tenha calma meu camarada! As casas daqui se parecem muito umas com as outras. Não é como no Recife que são bem diferentes". Eu carreguei bem no "Recife", para ele ver que eu era lá do Recife.
Na verdade, era um caso para se estudar, esse troço de o sujeito estar procurando por si mesmo mas, não foi bem esse o caso. Eu apenas queria me certificar s e tinha me hospedado naquela espelunca igual a tantas outras espalhadas pelo bairro do Catete. Ele então foi dizendo: "Que é isso meu chapa. ' eu estou aqui para isso mesmo, para atender aos hóspedes" e foi me entregando a chave do quarto e dizendo: "Passe bem a noite" - Ora, passe bem a noite. Deitei-me com o dia amanhecendo e logo em seguida chega Fernando Lobo querendo contar suas aventuras com a tal mulherzinha: "Vai te danar, Fernando".

http://www.fundaj.gov.br/docs/capiba/caphist4.html


Capiba por ele mesmo

Sempre compus todo gênero de música. Gosto também, e muito, do frevo porque me dá uma constante sobrevivência artística, como compositor. Apresento-me nos carnavais pernambucanos desde 1934, para manter uma fogueira que vem acesa desde os idos da década de 20, ou melhor, para não deixar cair a peteca. Mas, meu fraco mesmo são as canções, valsas e serestas.
Quando cheguei no Recife, em setembro de 1930 para trabalhar no Banco do Brasil S/A, tratei, logo, de organizar com outros colegas estudantes, a Jazz Band Acadêmica, orquestra que dominou os salões do Recife naquela época. Na qualidade de diretor da orquestra que fundara eu tinha que ser acadêmico. E, para tal, tentei o vestibular de direito, em 1931, para poder ostentar o honroso título de acadêmico, uma vez que os demais elementos de orquestra eram todos estudantes superiores. Onde eu morava, muito embora dormisse no quarto onde nasceu o grande abolicionista, Joaquim Nabuco, não cheguei a assimilar os seus conhecimentos e ensinamentos e, por isso, levei pau no vestibular daquele ano.
No ano seguinte passei no vestibular. Não estava, portanto, enganando a mais ninguém. Era de fato e de direito, acadêmico para todos os efeitos. (Hoje, com o correr dos tempos, não se diz mais acadêmico e sim, universitário). A honra do patrono da Fundação Joaquim Nabuco estava salva. E, por causa dessa minha teimosia de ser estudante de Direito, terminei como bacharel em 1938. Está aí, mais uma coisa que a música me deu,- não sei se boa ou má. Só de uma coisa eu sei: nunca fui buscar o meu diploma que, certamente, está armazenado na Secretaria da famosa primeira escola de Direito do país.
Eu disse acima que meu fraco são as canções, valsas, serestas e são mesmo. Daí, ter lançado em 1931, o meu cartão de visita como compositor da VALSA VERDE, com belos versos de Ferreira dos Santos. Com esta valsa abriram-se os caminhos para o tímido matuto de Surubim, que eu era. Vieram outros sucessos. Em 1932, É DE TORORÓ, com letra de Ascenso Ferreira, gênero de música lançado por mim, nos salões do Recife, à frente da Jazz Band Acadêmica. Em 1933, CORAÇÃO, QUE MAIS QUERES? com versos do poeta Leovigíldo Júnior. Novo sucesso em 1934 : É DE AMARGAR - frevo que todo o Recife cantou em uníssono, no carnaval daquele ano. Esse frevo é, até hoje, lembrado nos salões dos grandes e pequenas clubes da Capital do Frevo - Recife. Daí diante nada mais tenho a dizer sobre canções de carnaval, todo o Recife conhece a minha trajetória.
Tenho feito, no decorrer de todos estes anos, uma série interminável de canções com os maiores poetas brasileiros e, até estrangeiros. Posso citar dentre eles, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Ariano Suassuna, Carlos Penna Filho, João Cabral de Mello Neto, Alfonsus Guimarães, Ascenso Ferreira, Jorge de Lima, Geraldo Brasil, Jayme Griz, Langston Hughes e muitos outros.


O talento de Capiba não se limitava à música

O pintor Capiba nasceu na década de 60. Um dia, a artista plástica Ladjane Bandeira foi à casa do compositor para que ele musicasse a sua peça Viola do Diabo. Conversa vai, conversa vem, ele lhe revelou seu desejo de transmitir através dos pincéis o seu modo de sentir e ver o mundo à sua volta. Pouco tempo depois, a pintora enviou ao mestre do frevo tintas e pincéis com fartura. Foi o bastante para que o autor desse início ao seu novo hobby.
Capiba pintou algumas dezenas de quadros, voltados para o popular e o figurativo. Algumas vezes revelam uma forma ingênua e primitiva, enfeixando cenas folclóricas ou motivos religiosos. Igualmente procurou imprimir uma visão pessoal às situações que retratou. Um dos temas favoritos do pintor/compositor eram as brigas de galo.


Trechos de Músicas
É de Amargar

Eu bem sabia
Que este amor um dia
Também tinha seu fim
Esta vida é mesmo assim
Não pense que estou triste
Nem que vou chorar
Eu vou cair no frevo
Que é de amargar ...
Madeira que Cupim não Rói

Madeiras do Rosarinho
Vem à cidade, sua fama mostrar
E traz com seu pessoal
Seu estandarte tão original
Não vem pra fazer barulho
Vem só dizer, e com satisfação
Queiram ou não queiram os juízes
O nosso bloco é de fato campeão
E se aqui estamos cantando esta canção
Viemos defender a nossa tradição
E dizer bem alto, que a injustica dói
Nós somos Madeira de Lei que cupim não rói.
Oh Bela

Você diz que ela é bela
Ela é bela sim senhor
Porém poderia ser mais bela
Se ela tivesse meu amor, meu amor
Bela é toda a natureza
Oh Bela ...

http://www.guiapernambuco.com.br/persona/capiba.shtml

Voltei Recife
Composição: Capiba

Voltei, Recife
Foi a saudade
Que me trouxe pelo braço
Quero ver novamente "Vassoura"
Na rua abafando
Tomar umas e outras
E cair no passo
Cadê "Toureiros"?
Cadê "Bola de Ouro"?

As "pás", os "lenhadores"
O "Bloco Batutas de São José"?
Quero sentir
A embriaguês do frevo
Que entra na cabeça
Depois toma o corpo
E acaba no pé

 

Fotos:

1 - Capiba

2 - Capiba (jovem)
3 - Capiba - placa do Circuito de Poesia em Recife

4 - Capba  -  escultura do Circuito Poético em Recife

5 - Capiba - Mercedes Pordeus ao lado da escultura
6 - Capiba - Victor Jerónimo ao lado da escultura

 

Obs: A escultura de Capiba fica na Rua do Sol, vendo-se do outro lado do Rio Capibaribe a Rua da Aurora.

 

* Trabalho da pesquisa da Mercedes Pordeus

 

 

 

Capiba (Rua do Sol com Avenida Guararapes) - Nascido em Surubim, adotou o Recife como cidade. Compositor, Capiba ajudou a divulgar o nosso carnaval, dando-lhes belos frevos-canções que marcaram para sempre nosso povo, como “É de Amargar”, “Madeira que cupim não rói”, etc. Apresentado em pé num balcão antigo, relembra os velhos carnavais que ainda continuam no Galo da Madrugada e na vontade de pular o frevo. Provoca uma interatividade por se poder subir no balcão e assistir o carnaval passar na rua do sol

 

 

 

 

 

 

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