|

Lourenço
da Fonseca Barbosa
CAPIBA
Biografia
Trabalho e pesquisa de Mercêdes
Pordeus
Músico e compositor, Lourenço da
Fonseca Barbosa, o conhecido
Capiba, nasceu no município de
Surubim, a 28 de outubro de 1904.
De uma família de músicos, seu pai
era maestro da banda municipal.
O mais conhecido compositor de
frevos do Brasil. Aos 08 anos de
idade já tocava trompa e ainda
criança muda-se, com a família,
para o Recife. Em seguida, vai
morar no estado da Paraíba
(primeiro na cidade de Taperoá,
depois Campina Grande e João
Pessoa), onde toca piano em
cinemas.
Aos 20 anos de idade, grava o
primeiro disco (gravação
particular), com a valsa "Meu
Destino". Em 1930, volta a morar
no Recife e, aprovado em concurso,
torna-se funcionário do Banco do
Brasil. Em 1938, termina o curso
de Direito, mas nunca apanharia o
diploma.
Também no Recife (onde morou a
maior parte da vida), funda a Jazz
Band Acadêmica e, com Hermeto
Pascoal e Sivuca, funda o trio "O
Mundo Pegando Fogo".
Autor de mais de 200 canções, não
apenas frevo, como também outros
vários gêneros: de samba à música
erudita. Entre os seus sucessos,
estão: "Maria Batânia" (canção);
"A Mesma Rosa Amarela" (samba);
"Serenata Suburbana" (guarânia);
"Verde Mar de Navegar" (maracatu)
e vários outros. No gênero frevo,
compôs mais de cem canções.
Também musicou poemas de Carlos
Drummond de Andrade, Vinício de
Morais e outros poetas
brasileiros.
Morreu no Recife, a 31-12-1997, de
infecção generalizada, depois de
passar dez dias na UTI de um
hospital.
Uma de suas canções carnavalescas
mais famosas ("É de Amargar") foi
vencedora de um festival de frevo
em Pernambuco, em 1934. Entre
outros prêmios, em 1967 conquistou
o 5° lugar no Segundo Festival
Internacional da Canção, com a
música "São do Norte os que Vêm".
Suas principais composições:
Valsa Verde (1931); É de Tororó
(maracatu, 1932); É de Amargar
(frevo, 1934); Quem Vai Pro Faró é
o Bonde de Olinda (frevo, 1937);
Guerreiro de Cabinda (maracatu,
1938); Gosto de te Ver Cantando
(frevo, 1940); Linda Flor da
Madrugada (frevo, 1941); Quem Dera
(frevo, 1942); Maria Betânia
(canção, 1944); Não Agüento Mais
(frevo, 1945); Que Bom Vai Ser
(frevo, 1945); E...Nada Mais
(frevo, 1947); É Luanda (maracatu,
1949); Olinda Cidade Eterna
(samba, 1950); Recife Cidade
Lendária (samba, 1950); É Frevo,
Meu Bem (1951); A Pisada É Essa
(frevo, 1952); Trem de Ferro
(moda, com versos de Manuel
Bandeira, 1953); Soneto de
Fidelidade (com Vinícius de
Morais, 1955); Serenata Suburbana
(valsa, 1955); Nação Nagô
(maracatu, 1957); O Mais Querido
(marcha-exaltação, 1957); Sino
Claro Sino (canção, 1958); A Mesma
Rosa Amarela (samba, 1960);
Cantiga do Mundo e do Amor
(canção, com Ariano Suassuna,
1962); Frevo da Saudade (1962);
Madeira que Cupim não Rói (frevo,
1963); O Anel Que Tu Me Deste
(frevo, 1965); Cala a Boca Menino
(frevo, 1966); São do Norte os Que
Vêm (baião, 1967); Europa França e
Bahia (frevo, 1968); Oh, Bela
(frevo, 1970); Sem Lei nem Rei
(toada, 1970); De Chapéu de Sol
Aberto (frevo, 1972); Frevo e
Ciranda (frevo, 1974); Rei de
Aruanda (maracatu, 1974);
Juventude Dourada (frevo, 1975);
Desesperada Solidão (canção,
1983).
Acima
http://www.pe-az.com.br/biografias/capiba.htm
MINHA PRIMEIRA GRAVAÇÃO
"e, por mais que indagássemos
nunca soubemos da existência do
finório Teopompo Moreira".
A minha primeira vitória como
compositor se deu em 1928. Eu vi
em uma revista que se editava no
Rio de Janeiro, Vida Doméstica. o
anúncio de um concurso de música
que abrangia uma infinidade de
gêneros populares, como fox-trot,
valsa, samba, one-step, tango,
maxixe, toada, marcha, rag-time,
charleston, batuque e o diabo a
quatro.
Por essa época eu era estudante do
Liceu Paraibano e pianista do
cinema Rio Branco, na capital da
Paraíba.
Como todo jovem, tinha vontade
danada de mostrar um pouco do que
seria capaz, mas, por aqueles dias
não havia as oportunidades que
existem hoje no terreno da música.
Era tudo fechado. Não havia
rádios.
As gravações eram poucas e ruins
e, assim mesmo, só para quem
morava no Rio de Janeiro.
Televisão, nem se falava. Os
únicos meios de comunicação eram o
telégrafo sem fio e os Itas, sem
falar no deficiente correio
postal, o cavalo, o jumento, etc.,
etc.
O Norte e o Nordeste não tinham
direito a nada. Os compositores do
Recife eram muitos e todos bons,
mas Isso acontecia com os bambas
da música, quanto mais comigo, que
era apenas um aprendiz de
,compositor. Vale ressaltar que
todos eram músicos, ou melhor,
conheciam música. Mas, quando o
sujeito quer vencer, em qualquer
atividade, tem conhecimentos e
muita força de vontade, nada é
difícil.
Com relação ao concurso, não
pensei duas vezes. Meti um tango
chamado Flor das Ingratas (l)
dentro de um envelope e remeti à
revista Vida Doméstica.
Dentro de alguns meses' recebi uma
carta, datada de 14/05/1929,
assinada pelo seu Diretor, Jesus
Gonçalves Fidalgo, anunciando que
o meu tango, Flor das Ingratas,
havia conquistado o primeiro lugar
no gênero.
É escusado dizer o quanto fiquei
satisfeito, principalmente porque
as músicas eram examinadas e
classificadas por professores do
Conservatório Nacional de Música e
não por leigos, como se vê hoje,
levantando-se um pedaço de
madeira, onde se lê a nota do dito
Juiz, que varia de l a 10. A
notícia ecoou pela redondeza, e o
meu nome foi se firmando cada vez
mais como compositor popular.
Depois de passado algum tempo, me
surgiu outra oportunidade, desta
feita em outra revista, chamada O
Malho, também do Rio de Janeiro,
que falava de um concurso de
músicas de carnaval, para 1930.
Consultei o meu companheiro de
futebol, João dos Santos Coelho
Filho, meu parceiro como letrista
de outras músicas minhas e fizemos
um samba, ao qual denominamos de
Não Quero Mais 2.
Feito o samba, o difícil foi
encontrar os pseudônimos para
substituir os nossos nomes,
conforme exigência do concurso.
Afinal, botamos: Música de Pé de
Pato (eu) e Letra de Joca da
Beleza (João dos Santos Coelho
Filho).
Metemos o samba dentro de um
envelope e o remetemos para o
endereço que era a redação da
revista O Malho. O concurso era
promovido pela citada revista e a
conhecidíssima Casa Édison,
produtora dos discos Odeon, ainda
hoje em circulação em todo o
Brasil, e ficamos de olho na
revista para ver em que dava.
O tempo foi passando e a gente sem
notícia nenhuma. Como já disse, a
coisa mais difícil do mundo era o
Norte ter noticias do Sul - Os
dois mundos viviam completamente
isolados um do outro. Não é como
hoje que o cara toma café aqui,
almoça no Rio ou São Paulo e janta
no Recife. E se quiser, vai até
mais longe.
Eu nem me lembrava mais do
concurso de O Malho com a Casa
Édison, até que uma manhã chegando
à loja de disco dos Srs. Schuler &
Cia., na Rua Maciel Pinheiro, n.0
88, capital da Paraíba, cujo
gerente, Joaquim Machado, muito
nosso amigo e que sabia que nós
havíamos mandado um samba para o
tal concurso, botou na vitrola uma
música que, pelas primeiras notas
ouvidas, só podia ser minha. E
era. Imediatamente, lembrei-me da
introdução do nosso samba: Não
Quero Mais!
Não me contive de alegria e
dirigi-me para onde se encontrava
o Joaquim Machado e me certifiquei
do que estava ouvindo: era mesmo
Não Quero Mais!
Essas alegrias sempre acontecem
quando o fato ocorre pela primeira
vez. Depois não há mais razão para
tantas alegrias uma vez que os
degraus vão surgindo todos os dias
e o sujeito vai vencendo-os e se
acostumando com os mesmos, sem se
aperceber.
Essa gravação tinha uma
particularidade muito importante.
Diziam as bases do concurso que as
músicas, em número de cinco,
seriam cantadas por Francisco
Alves, acompanhado da Orquestra
Pan-Americana, de Simão Boutman,
dois fatores de sucesso na década
de 20 e outras décadas.
Quando tirei o disco da vitrola e
li o que estava escrito no selo:
Música de Pé de Pato e Letra de
Joca da Beleza, a decepção foi
enorme para mim, um principiante
que perdia a oportunidade de ver
seu nome estampado naquele disco
ao lado de Francisco Alves e da
Orquestra Pan-Americana. Creio que
todo iniciante ficaria triste como
eu fiquei. Mas não havia de ser
nada, porque nós iríamos saber o
porquê daquela sabotagem, uma vez
que a revista dizia que o
pseudônimo era unicamente para
haver sigilo quanto ao autor ou
autores da obra, durante o
concurso.
Fizemos várias cartas aos
promotores do concurso e eles,
então, nos disseram que por
ocasião de abrirem os envelopes
extraviaram o referente ao 40
lugar, restando uma vaga lembrança
de que o samba tinha vindo da
Paraíba do Norte, pelo carimbo do
correio. Neste momento, apareceu
um senhor que se dizia chamar
Teopompo Moreira, afirmando ser o
autor do samba em questão e que só
queria o prêmiode 600$000
(seiscentos mil réis), e que
podiam considerar os autores com
os pseudônimos.
Por causa de um vivaldino e tanta
ingenuidade da parte dos
promotores do concurso, eu e meu
companheiro deixamos de figurar ao
lado de Ary Barroso, que foi o 1.0
lugar no referido concurso, com a
marcha: Dá Nela!, que todo o
Brasil conhece.
O valor de 600$000 que mais tarde
nós recebemos, depois de provar a
autoria do samba em questão, não
nos faria nem mais ricos nem mais
pobres. O importante mesmo era a
vitória e a audácia de
enfrentarmos, com um samba, os
sambistas em seu próprio terreiro.
O samba teve grande aceitação,
principalmente no Estado da
Paraíba, onde nós gozávamos de
relativo prestígio, e, por mais
que indagássemos, nunca soubemos
da existência do finório Teopompo
Moreira, que certamente usava
costeletas, chapéu coco, polainas
e uma bengala de cabo de chapéu de
sol, provando ser um autêntico
vigarista da época.
1 Flor das'Ingratas. Tango.
Primeiro lugar no Concurso da
revista Vida Doméstica, do Rio de
Janeiro e publicado na mesma
revista na edição de 28/04/1929 -
Não gravado.
2 Não Quero Mais. Samba. 40 lugar
no concurso de marchas e sambas
carnavalescos, da revista O Malho
e a Casa Édison, para o carnaval
de 1930 - Gravado e Editado.
Canta: Francisco Alves acompanhado
pela Orquestra de Simão Boutman.
http://www.fundaj.gov.br/docs/capiba/caphist.html
Histórias imperdíveis
LOURENÇO BARBOSA ESTÁ HOSPEDADO
AQUI?
"Vai
te danar, Fernando. . . "
Em 1937 2 eu e Fernando Lobo
projetamos uma viagem ao Rio de
Janeiro, Capital Federal, naquela
época. Tirei uma licença no Banco
do Brasil S/A de 30 dias, para
tratamento de saúde, juntei com
umas férias atrasadas e nos
mandamos para a Capital que já era
maravilhosa.
Passados uns dias de viagem, cinco
ou seis, não me lembro mais, todos
de cantoria à bordo até tarde da
noite (eu era pianista e Fernando
o cantor). desembarcamos no cais
Mauá. Fernando, mais atirado do
que eu e foi logo tomando as
providências que o caso exigia,
isto é, livrar-se da alfândega e
arranjar uma pensão ou um hotel,
contanto que o preço fosse
camarada.
Depois de tudo resolvido, partimos
com as nossas maletas na mão e
tomamos um bonde em direção ao
Catete, rua de muitas pensões e
hotéis e que era, no dizer de
todos, refúgio dos nortistas e
mineiros que apontavam no Rio.
Chegamos ao Catete e arranjamos
logo uma pensão ou hotel, não sei,
na Rua Correia Dutra, n.o 72, que
não era muito barata, mas que
servia muito bem por ser perto do
centro da cidade.
O assunto desta História prende-se
à minha alta burrice (hoje se diz
desligado), com referência ao que
passei na noite do dia de minha
chegada ao Rio de Janeiro já
contada em prosa e verso por todos
os intelectuais da época, que me
conheceram e me conhecem ou não.
Vivos e mortos.
É uma história que. serve muito
bem para mostrar o que é um
sujeito despreparado para
enfrentar as grandes cidades. O
vexame se deu mais ou menos assim.
Eu e Fernando, logo que chegamos à
cidade, tomamos banho, trocamos de
roupas e zarpamos para os cabarés
chiques da época.
Entramos, de início, num tal,
Dancing Avenida e aí foi que
começou a minha perdição. As
mulheres ficavam sentadas e os
marmanjos rodeando-as, se bem me
lembro, como se nós fôssemos os
urubus e elas a carniça. Um olhar
aqui, outro acolá, como quem está
escolhendo algo diferente, eu e
Fernando íamos tomando a
massaranduba do tempo. A orquestra
estava a todo vapor despejando som
no meio do salão e a gente cubando
... Era maxixe, bolero, valsa,
tango, samba, ragtime, o diabo a
quatro e a gente lá ouvindo o
ponto.
De repente Fernando, que era mais
atirado do que eu, chamou uma das
taxi-girls para uma mesa que
estava vazia junto a nós e
começamos a beber alguma coisa com
aquela jovem. Nem eu nem Fernando
éramos de beber muito - Bebíamos o
suficiente para não ficarmos de
cara limpa. Às horas tantas,
Fernando sai maxixando com a
mulher que ele escolhera e eu,
para não ficar atrás, saí também,
dançando aquilo, que para mim já
era a primeira vergonha que
passava na Capital Federal.
Nunca fui muito de dançar, quanto
mais dançar maxixe, que era o
ritmo que fazia gosto a gente ver
o carioca dançando. É como o frevo
só presta mesmo dançado por
pernambucano. Outro cara qualquer
vai dançar e o fato é que resulta
em barulho, porque começa dar
pontapé a torto e a direito. O
frevo não é isso. O frevo é para
se dançar, ou melhor, se fazer o
passo, religiosamente.
A orquestra, de momento a momento,
mudava o ritmo da música e eu
achando bom, não sabendo que mais
tarde o negócio ia engrossar -
Quando a orquestra parou, apareceu
junto de nós (eu e a mulher) um
sujeito com uma máquina de
picotar, como aquelas dos antigos
condutores dos trens da Great
Western e, segurando o cartão que
a mulher havia tirado do seu
decote, danou-se a picotar o
referido cartão, que eu só ouvia
era aquele barulho no meio do
salão: teque, teque, teque, teque,
que não acabava mais.
Muito admirado com aquele estrago,
perguntei à mulher o que era
aquilo e ela me respondeu que era
para eu pagar dez tostões (l. 000
réis) por furinho. Botei as mãos
na cabeça e vi que estava sendo
roubado em plena Avenida Rio
Branco. Contei a safadeza a
Fernando Lobo e ele me disse que
era assim mesmo e que eu devia
pagar logo porque senão dava um
bode dos diabos.
Imediatamente, eu disse:
"Fernando, vamos embora senão
esses caras alisam a gente" .
Fernando ficou enganchado com a
mulherzinha e eu desci e fui logo
dizendo: "Táxi". Apresentou-se um
e eu disse, como quem estava muito
seguro: "Para o Catete".
Felizmente o chofer foi mesmo para
o Catete porque se ele tivesse
emburacado para a Ilha do
Governador, para mim era a mesma
coisa - Eu não conhecia nada no
Rio, como até hoje não conheço.
"Aqui está bom?", disse o chofer
para mim e eu confirmei: "Está
bom, sim senhor". Paguei o táxi e
agora é que começa a história. Fui
ao primeiro hotel e perguntei:
"Aqui está hospedado o senhor
Lourenço da Fonseca Barbosa?" O
porteiro consultou o seu livro de
presença e disse secamente: "Não".
Em seguida me dirigi a uma pensão
e, depois de apertar a cigarra
apareceu um sujeito com cara de
sono. Fiz-lhe a mesma pergunta e
ele me disse: "Um momento". Foi lá
dentro, mexeu numa caixinha e
voltou me dizendo que: "Não estava
ali, não senhor". Parti para
outras. A mesma pergunta e mesma
resposta. Confesso que, por essas
alturas as minhas visitas já
passavam das três da madrugada.
Meu cabeção começou a endoidar. Já
estava sem saber o que fazer,
perdido naquele deserto de cimento
armado. Apertei outra campainha e,
de lá do pé da escada, saiu outro
indivíduo me perguntando o que eu
queria - Fazia-lhe a clássica
pergunta: "Aqui está hospedado o
Senhor Lourenço da Fonseca
Barbosa, que veio do Norte, num
Ita, com Fernando Lobo?" O
porteiro ia lá dentro verificava
uns cartões e voltava. Era nova
esperança mas, qual o quê. Ele me
dizia secamente: "Não".
O meu desespero já não tinha mais
limite Estava doido que Fernando
aparecesse porque assim eu poderia
dormir um pouco. Mas, Fernando não
podia aparecer àquelas horas,
porque o Dancing Avenida ainda não
tinha fechado as suas portas, e as
mulheres só saíam do salão quando
a função terminava. Eu estava com
medo daquela rua deserta. Deserta
de tudo, não, porque vez por outra
passava, lá longe, numa esquina,
também deserta, um bêbado
qualquer, que por sorte minha não
passava junto a mim.
Continuava batendo e apertando as
cigarras das pensões e recebendo,
depois da verificação competente,
o mesmo NÃO. O pânico já havia se
apoderado de mim quando toquei em
uma cigarra e ela f e z:
QUEMMMMMMMMMMMMMMMMMMM.
Apareceu um porteiro que estava
dormindo numa cama de lona debaixo
da escada e fez-me a pergunta
costumeira: "0 que deseja?"
Respondi um tanto cabreiro: "É
aqui que está hospedado Lourenço
da Fonseca Barbosa, que veio do
Norte esta tarde, com Fernando
Lobo?" O porteiro consultou o sei,
fichário e depois me disse: "É,
sim senhor, mas, no momento, não
se acha na pensão!"
Eu, radiante de alegria, puxei a
minha carteira de identidade e
mostrando ao cara, fui dizendo:
"Sou eu mesmo". Pra que eu lhe
disse isso ... O cara arretou-se
dentro das calças e, olhando para
mim com o focinho de poucos
amigos, foi dizendo, com ar de
quem não gostou da brincadeira: "0
senhor não tem o que fazer, não?
Me acordar a estas horas da
madrugada para perguntar se o
senhor está hospedado aqui, com o
maior cinismo do mundo? " Ai, eu
procurei me justificar antes que
ele partisse para a ignorância e
ele continuou: "0 senhor ou é
doido ou está bêbado, e eu não
estou aqui para tolerar conversa
de quem não tem o que fazer, não"
Pelo seu vocabulário notei que se
tratava de um nortista e então
procurei justificar a minha
presença ali, dizendo: "Tenha
calma meu camarada! As casas daqui
se parecem muito umas com as
outras. Não é como no Recife que
são bem diferentes". Eu carreguei
bem no "Recife", para ele ver que
eu era lá do Recife.
Na verdade, era um caso para se
estudar, esse troço de o sujeito
estar procurando por si mesmo mas,
não foi bem esse o caso. Eu apenas
queria me certificar s e tinha me
hospedado naquela espelunca igual
a tantas outras espalhadas pelo
bairro do Catete. Ele então foi
dizendo: "Que é isso meu chapa. '
eu estou aqui para isso mesmo,
para atender aos hóspedes" e foi
me entregando a chave do quarto e
dizendo: "Passe bem a noite" -
Ora, passe bem a noite. Deitei-me
com o dia amanhecendo e logo em
seguida chega Fernando Lobo
querendo contar suas aventuras com
a tal mulherzinha: "Vai te danar,
Fernando".
http://www.fundaj.gov.br/docs/capiba/caphist4.html
Capiba por ele mesmo
Sempre compus todo gênero de
música. Gosto também, e muito, do
frevo porque me dá uma constante
sobrevivência artística, como
compositor. Apresento-me nos
carnavais pernambucanos desde
1934, para manter uma fogueira que
vem acesa desde os idos da década
de 20, ou melhor, para não deixar
cair a peteca. Mas, meu fraco
mesmo são as canções, valsas e
serestas.
Quando cheguei no Recife, em
setembro de 1930 para trabalhar no
Banco do Brasil S/A, tratei, logo,
de organizar com outros colegas
estudantes, a Jazz Band Acadêmica,
orquestra que dominou os salões do
Recife naquela época. Na qualidade
de diretor da orquestra que
fundara eu tinha que ser
acadêmico. E, para tal, tentei o
vestibular de direito, em 1931,
para poder ostentar o honroso
título de acadêmico, uma vez que
os demais elementos de orquestra
eram todos estudantes superiores.
Onde eu morava, muito embora
dormisse no quarto onde nasceu o
grande abolicionista, Joaquim
Nabuco, não cheguei a assimilar os
seus conhecimentos e ensinamentos
e, por isso, levei pau no
vestibular daquele ano.
No ano seguinte passei no
vestibular. Não estava, portanto,
enganando a mais ninguém. Era de
fato e de direito, acadêmico para
todos os efeitos. (Hoje, com o
correr dos tempos, não se diz mais
acadêmico e sim, universitário). A
honra do patrono da Fundação
Joaquim Nabuco estava salva. E,
por causa dessa minha teimosia de
ser estudante de Direito, terminei
como bacharel em 1938. Está aí,
mais uma coisa que a música me
deu,- não sei se boa ou má. Só de
uma coisa eu sei: nunca fui buscar
o meu diploma que, certamente,
está armazenado na Secretaria da
famosa primeira escola de Direito
do país.
Eu disse acima que meu fraco são
as canções, valsas, serestas e são
mesmo. Daí, ter lançado em 1931, o
meu cartão de visita como
compositor da VALSA VERDE, com
belos versos de Ferreira dos
Santos. Com esta valsa abriram-se
os caminhos para o tímido matuto
de Surubim, que eu era. Vieram
outros sucessos. Em 1932, É DE
TORORÓ, com letra de Ascenso
Ferreira, gênero de música lançado
por mim, nos salões do Recife, à
frente da Jazz Band Acadêmica. Em
1933, CORAÇÃO, QUE MAIS QUERES?
com versos do poeta Leovigíldo
Júnior. Novo sucesso em 1934 : É
DE AMARGAR - frevo que todo o
Recife cantou em uníssono, no
carnaval daquele ano. Esse frevo
é, até hoje, lembrado nos salões
dos grandes e pequenas clubes da
Capital do Frevo - Recife. Daí
diante nada mais tenho a dizer
sobre canções de carnaval, todo o
Recife conhece a minha trajetória.
Tenho feito, no decorrer de todos
estes anos, uma série interminável
de canções com os maiores poetas
brasileiros e, até estrangeiros.
Posso citar dentre eles, Carlos
Drummond de Andrade, Manuel
Bandeira, Vinícius de Moraes,
Ariano Suassuna, Carlos Penna
Filho, João Cabral de Mello Neto,
Alfonsus Guimarães, Ascenso
Ferreira, Jorge de Lima, Geraldo
Brasil, Jayme Griz, Langston
Hughes e muitos outros.
O talento de Capiba não se
limitava à música
O pintor Capiba nasceu na década
de 60. Um dia, a artista plástica
Ladjane Bandeira foi à casa do
compositor para que ele musicasse
a sua peça Viola do Diabo.
Conversa vai, conversa vem, ele
lhe revelou seu desejo de
transmitir através dos pincéis o
seu modo de sentir e ver o mundo à
sua volta. Pouco tempo depois, a
pintora enviou ao mestre do frevo
tintas e pincéis com fartura. Foi
o bastante para que o autor desse
início ao seu novo hobby.
Capiba pintou algumas dezenas de
quadros, voltados para o popular e
o figurativo. Algumas vezes
revelam uma forma ingênua e
primitiva, enfeixando cenas
folclóricas ou motivos religiosos.
Igualmente procurou imprimir uma
visão pessoal às situações que
retratou. Um dos temas favoritos
do pintor/compositor eram as
brigas de galo.
Trechos de Músicas
É de Amargar
Eu bem sabia
Que este amor um dia
Também tinha seu fim
Esta vida é mesmo assim
Não pense que estou triste
Nem que vou chorar
Eu vou cair no frevo
Que é de amargar ...
Madeira que Cupim não Rói
Madeiras do Rosarinho
Vem à cidade, sua fama mostrar
E traz com seu pessoal
Seu estandarte tão original
Não vem pra fazer barulho
Vem só dizer, e com satisfação
Queiram ou não queiram os juízes
O nosso bloco é de fato campeão
E se aqui estamos cantando esta
canção
Viemos defender a nossa tradição
E dizer bem alto, que a injustica
dói
Nós somos Madeira de Lei que cupim
não rói.
Oh Bela
Você diz que ela é bela
Ela é bela sim senhor
Porém poderia ser mais bela
Se ela tivesse meu amor, meu amor
Bela é toda a natureza
Oh Bela ...
http://www.guiapernambuco.com.br/persona/capiba.shtml
Voltei Recife
Composição: Capiba
Voltei, Recife
Foi a saudade
Que me trouxe pelo braço
Quero ver novamente "Vassoura"
Na rua abafando
Tomar umas e outras
E cair no passo
Cadê "Toureiros"?
Cadê "Bola de Ouro"?
As "pás", os "lenhadores"
O "Bloco Batutas de São José"?
Quero sentir
A embriaguês do frevo
Que entra na cabeça
Depois toma o corpo
E acaba no pé
Fotos:
1 - Capiba
2 - Capiba
(jovem)
3 - Capiba - placa do Circuito de
Poesia em Recife
4 - Capba
- escultura do Circuito
Poético em Recife
5 - Capiba -
Mercedes Pordeus ao lado da
escultura
6 - Capiba - Victor Jerónimo ao
lado da escultura
Obs: A
escultura de Capiba fica na Rua do
Sol, vendo-se do outro lado do Rio
Capibaribe a Rua da Aurora.
* Trabalho
da pesquisa da Mercedes Pordeus


Capiba (Rua do Sol com Avenida
Guararapes) - Nascido em Surubim,
adotou o Recife como cidade.
Compositor, Capiba ajudou a
divulgar o nosso carnaval,
dando-lhes belos frevos-canções
que marcaram para sempre nosso
povo, como “É de Amargar”,
“Madeira que cupim não rói”, etc.
Apresentado em pé num balcão
antigo, relembra os velhos
carnavais que ainda continuam no
Galo da Madrugada e na vontade de
pular o frevo. Provoca uma
interatividade por se poder subir
no balcão e assistir o carnaval
passar na rua do sol


|